
Nora Roberts

   OS IRMOS CREED

   -LOGAN-
      (Montana Creeds: Logan)

   Linda Lael Miller



      Logan, Dylan e Tyler, os trs irmos Creed so audaciosos, rebeldes, lindos... e esto em busca do amor!

      Aps anos de vida errante, Logan Creed, um caubi com um empoeirado diploma de Direito, retorna ao lar. Tudo que ele quer  criar razes, restaurar o rancho
abandonado da famlia... e, o mais importante, ter filhos que carreguem com orgulho seu nome.
      Briana Grant, me e divorciada, j ouviu muitas histrias a respeito do charmoso vizinho, e o modo carinhoso com que Logan trata seus filhos  uma surpresa
bastante bem-vinda. No entanto, quando seu ex-marido reaparece e um inimigo desconhecido vandaliza seu lar, chega a hora de Logan mostrar a Briana e a todos o que
significa ser um Creed...

                                     Digitalizao: Silvia
                                    Reviso: Ana Ribeiro

    PROJETO REVISORAS



      Linda Lael Miller
      OS IRMOS CREED - LOGAN.

      Traduo Marconi Leal

      HARLEQUIN
      B o o K S
      2010


      PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S..r.l.
      Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte.
      Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.

      Ttulo original: MONTANA CREEDS: LOGAN

      Copyright (c) 2009 by Linda Lael Miller
      Originalmente publicado em 2009 por HQN Books
      Arte-final de capa: Isabelle Paiva
      Editorao Eletrnica:
      ABREU'S SYSTEM
      Tel.: (55 XX 21) 2220-3654/2524-8037
      Impresso:
      RR DONNELLEY
      Tel.: (55 XX 11) 2148-3500
      www.rrdonnelley.com.br
      Distribuio exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:
      Fernando Chinaglia Distribuidora S/A
      Rua Teodoro da Silva, 907
      Graja, Rio de Janeiro, RJ - 20563-900
      Para solicitar edies antigas, entre em contato com o
      DISK BANCAS: (55 XX 21) 2195-3186
      Editora HR Ltda.
      Rua Argentina, 171 - 4 andar
      So Cristvo, Rio de Janeiro, RJ - 20921-380
      Correspondncia para:
      Caixa Postal 8516
      Rio de Janeiro, RJ - 20220-971
      Aos cuidados de Virgnia Rivera
      virginia.rivera@harlequinbooks.com.br










    CAPTULO UM




      Rancho Stillwater Springs

      A placa de madeira desgastada pelo tempo balanava sobre o porto, presa aos postes por trs elos de uma corrente enferrujada. As palavras, entalhadas a mo 
pelo prprio Josiah Creed, mais de 150 anos antes, e queimadas a fundo com a ponta em brasa de um marcador de gado, estavam meio apagadas, quase ilegveis.
      Logan Creed, com metade do corpo dentro de sua caminhonete de segunda mo, seminova, como o vendedor anunciara, metade fora e sobre o estribo, o p calado 
com uma bota, praguejou baixinho.
      Assustado, o vira-lata que ele apanhara naquela manh numa parada para descanso nas cercanias de Kalispell soltou, do fundo da garganta, um uivo suave e aflito. 
No era de se estranhar que a pobre criatura estivesse inquieta; era bvio que aquele cachorro atravessara de um extremo ao outro o inferno dos animais perdidos.
      ? Desculpe, meu velho - murmurou Logan, a garganta apertada por um emaranhado de emoes cortantes como arame farpado. Ele j sabia que o rancho da famlia, 
herana dividida por igual com seus dois irmos mais novos, Dylan e Tyler, estava malconservado. A propriedade inteira fora negligenciada durante anos, desde a desavena 
entre os trs, ocorrida depois do enterro do pai. Ele, Dylan e Tyler haviam seguido, com teimosia e separados, seus respectivos caminhos.
      O cachorro o perdoou de imediato, como cachorros costumam fazer. E pareceu solidrio, sentado do outro lado da marcha, os olhos castanhos quase lquidos, enquanto 
olhava para quem o resgatara.
      Logan sorriu, sentou-se ao volante.
      ? Se eu fosse metade do homem que voc pensa que sou - disse ele ao vira-lata - , eu seria candidato a santo. - A idia de um Creed ser canonizado o fez rir 
por entre os dentes.
      O cachorro reagiu com um latido alegre, como se oferecendo-se para recomendar qualquer pessoa que tomasse decises como aquela.
      ? Voc vai precisar de um nome - disse Logan. - Vou arranjar um bem rpido. - Ele se virou no banco da caminhonete, olhando  frente, analisando as cercas 
cadas e os escombros que se desintegravam e suspirou de novo. - J determinaram nosso trabalho. Acho melhor comearmos.
      A placa se chocou contra o teto da caminhonete quando Logan passou por baixo dela, e as traves do mata-burro do sculo XIX sob os pneus fizeram tudo bater, 
menos seus dentes.
      O mato cobria a longa e sinuosa estrada. Mas, de qualquer modo, ainda havia sulcos de rodas feitos pelos primeiros veculos que tinham passado por ali; as 
carroas.
      Havia trs casas em diferentes setores da propriedade e, por ser ele o mais velho da atual gerao dos Creed, a maior delas lhe pertencia. Alguma herana, 
ele pensava. Teria sorte se o lugar estivesse em condies de ser habitado.
      - Que bom que eu tenho um saco de dormir e equipamento para acampar - disse ele ao cachorro, inclinando-se um pouco  frente no banco, enquanto abria caminho 
atravs da subida coberta de mato, esforando-se para enxergar pelo pra-brisa. - Voc se incomoda de dormir sob as estrelas se faltar telhado, garoto?
      Os olhos do cachorro diziam que ele estava pronto para tudo, enquanto estivessem juntos. Ele j estava cansado de ficar sozinho, procurando comida e abrigo 
quando o tempo ficava ruim.
      Logan disse a si mesmo que se animasse e estendeu a mo para acariciar a cabea de pelo embaraado do animal. Nem dava para dizer qual era a cor do vira-lata 
debaixo de toda aquela sujeira e olhar triste. Quanto  mistura de raas, ele era provavelmente mestio de labrador, setter e um monto de outras coisas. Suas costelas 
apareciam e parte da orelha esquerda faltava.
      Quando chegou quela parada de descanso para esticar as pernas, depois da longa viagem desde Las Vegas, no esperava que fosse levar para casa um caroneiro 
de quatro patas. Mas, quando o cachorro se esgueirou por detrs dos arbustos enquanto ele descia da caminhonete, Logan no teve como ignor-lo. No havia ningum 
por perto. E, se houve algum dia coleira com medalhinha, ela j deixara de existir fazia muito tempo.
      Logan j sabia que ele era a ltima esperana daquele cachorro e, como ele mesmo j estivera numa situao parecida uma ou duas vezes, no foi capaz de dar-lhe 
as costas. Colocou o bicho na caminhonete e dividiu com ele um caf da manh na cidade seguinte. O cachorro vomitou o lanche imediatamente, e ficou com tanto remorso 
depois disso que Logan nem pensou em parar num lava-jato para limpar a caamba. Agora, muitas horas depois, quando se enchia de coragem para dar uma olhada na casa 
do rancho pela primeira vez em muitos anos conturbados, Logan estava feliz com a companhia, embora as conversas fossem claramente unilaterais.
      Finalmente, venceram a ltima subida, e Logan viu primeiro o celeiro - ainda de p, mas claramente inclinado. Ele se forou a voltar seu olhar na direo da 
casa, e se animou um pouco. Parte do telhado estava cedendo, mas a estrutura de pedra de um andar - originalmente uma cabana de um quarto menor do que a maioria 
dos depsitos de jardim - conseguiu resistir. Nenhuma das trs chamins desmoronara, e as janelas da frente ainda tinham vidro, do antigo, com molduras verdes e 
pequenas bolhas aqui e ali.
      Um lar, pensou Logan, com uma mistura de determinao e pura tristeza. Mesmo assim, o rancho Stillwater Springs ainda era um lar.
      Ele sabia que ter o encanamento ainda funcionando era querer demais. De qualquer maneira, telefonara com antecedncia, e a luz e o servio telefnico j estavam 
ligados. Seu parceiro precisava urgentemente de um banho. Alm disso, ficar para l e para c atrs de gua da fonte seria levar longe demais a volta  vida rstica. 
Seu estilo de vida luxuoso em Las Vegas no o tinha preparado para viver sem conforto.
      - Parceiro - falou Logan enquanto descia da caminhonete. - Acha que vai andar nisto durante quanto tempo?
      Aparentemente muito feliz, Parceiro pulou por cima da alavanca de cmbio e sobre o console at o banco que Logan acabara de desocupar. Logan riu por entre 
os dentes e o colocou com delicadeza no cho. Assim que tivesse oportunidade, levaria o cachorro ao veterinrio para fazer um checkup e tomar umas vacinas. Poderia 
haver um microchip implantado em algum lugar debaixo de sua pele, identificando-o como o cachorro perdido de algum, mas Logan duvidava.
      Era mais provvel que Parceiro tivesse sido abandonado, se  que algum dia pertencera a algum.
      O cachorro farejou em volta, ento levantou a perna junto  roda de uma carroa velha enterrada at a metade no cho.
      Quando Logan se aproximou da casa, com sua varanda da frente inclinada, Parceiro trotou ansiosamente atrs dele.
      Qualquer pessoa sensata, refletiu Logan com pesar, passaria com um trator por cima da outrora imponente choupana e comearia de novo. Mas ele no era uma pessoa 
sensata, j passara por dois casamentos fracassados, uma carreira em rodeios e muita dor no corao para p-lo a prova.
      Com os ombros, ele abriu a porta da frente, o que fez as dobradias rangerem, e depois de respirar fundo outra vez, atravessou o umbral. O lugar estava imundo, 
 claro, entulhado de jornais, latas de cerveja e Deus sabe o que mais. Mas os pisos de tbua tinham resistido, e a grande lareira de pedra parecia to firme como 
se tivesse acabado de ser cimentada.
       De p no meio do monturo ancestral, e monturo era definitivamente a palavra Logan perguntou a si mesmo, no pela primeira vez, se no havia tantas pedras 
em sua cabea como havia naquela lareira. Desde que ele localizou seus primos distantes, os McKettrick, seis meses antes, e visitou o Rancho Triple M l no norte 
do Arizona, perguntas sobre o estado do rancho e sobre o que fora deixado de sua famlia latejavam na parte de trs de seu crebro como um hematoma gigante.
      E aquele hematoma tinha nome. Culpa.
      Ele atravessou o quarto grande, sentou-se no batente alto diante da lareira e suspirou, os ombros meio relaxados sob a camiseta branca bsica. Ele passou a 
mo por seus cabelos escuros e sorriu com tristeza quando Parceiro se aproximou e colocou o focinho sobre seu joelho.
      - Algumas pessoas - disse Logan a Parceiro - simplesmente no se do por satisfeitas com a quantidade de problemas e aborrecimentos que tm. E eu, amigo velho, 
sou uma dessas pessoas.
      Os ranchos em Montana, em qualquer grau de abandono, valiam ouro no mercado imobilirio. Principalmente se tivessem uma histria turbulenta, como era o caso 
desse. Estrelas de cinemas gostavam de compr-los por preos astronmicos, instalar quadras de tnis e salas de exibio e piscinas do tamanho de um quarteiro. 
Ele, Dylan e Tyler poderiam dividir uma fortuna se vendessem a propriedade. Cortassem as perdas emocionais e fossem embora.
      A ltima coisa de que Logan precisava, no entanto, alm de um cachorro e daquela velha caminhonete - que ele comprara porque ela serviria num lugar como o 
Rancho Stillwater Springs, em Montana era de mais dinheiro. E ele tinha um monte de dinheiro, graas ao site de servios jurdicos tipo faa-voc-mesmo que ele criara 
assim que saiu da faculdade de direito e que vendera havia pouco por muito dinheiro. E, at aquele momento, toda aquela fortuna no lhe trouxera nada exceto aflio.
      Porm havia uma razo mais profunda para no vender o rancho. Mesmo malcuidado como estava, sete ou oito geraes dos Creed tinham vivido e morrido, amado 
e odiado, blasfemado e rezado dentro de seus limites. A famlia nascera nas casas, trabalhara de sol a sol com tenacidade ao longo dos anos que restavam e fora posta 
para descansar no cemitrio que ficava para l do pomar de macieiras.
      Logan simplesmente no podia abandon-los, tal como no fora capaz de entrar em sua caminhonete naquela parada, deixando Parceiro para trs.
      Eles lhe pertenciam, aquela horda de fantasmas amaldioados e indisciplinados.
      Depois de ver o Rancho Triple M, algo mudara em Logan. Ele decidira se fixar num canto, fincar razes to fundas que seria capaz de as pontas aparecerem em 
algum lugar na China.
      O legado dos Creed no era como o dos McKettrick, no havia como negar.
      Os McKettrick haviam permanecido juntos, em linhagem contnua, desde o velho Angus, o patriarca. Os Creed tinham se estilhaado.
      O nome McKettrick era sinnimo de honra, integridade e determinao.
      O nome Creed, por outro lado, significava tragdia, m sorte e sofrimento.
      Logan voltara para adotar uma postura, dar uma guinada. Construir algo novo, durvel e bom, do comeo ao fim. Seus filhos, se ele algum dia fosse afortunado 
o bastante para t-los, carregariam o nome Creed com orgulho. E o mesmo fariam suas sobrinhas e sobrinhos. No que ele os tivesse, tampouco - Dylan e Tyler, pelo 
que sabia, continuavam nos rodeios, ao menos em parte do tempo, perseguindo os tipos de mulher que um homem no quer engravidar, e brigando em bares caipiras.
      Ele no tinha iluso de que seria fcil mudar o rumo que os Creed haviam tomado. Mas no seria, na prtica, uma questo de fazer uma escolha, tomar uma deciso, 
e no abandon-la, no importando o que acontecesse?
      Dylan no faria nada disso. Tampouco Tyler. E no havia ningum que se importasse.
      O que significava que Logan estava eleito, por vitria esmagadora de um voto.
      Ele ficou e se dirigiu  cozinha, cujo estado era pior do que o da sala de estar. Mas quando ele abriu a torneira da pia, a boa gua subterrnea de Montana 
fluiu, turva no comeo, depois clara como a luz.
      Animado, Logan procurou uma tigela num armrio. Encontrou, lavou bem e a encheu de gua para Parceiro, colocando-a no cho de linleo encardido. O cachorro 
bebeu fazendo barulho. Ento arrotou como um caubi depois de virar uma caneca de cerveja.
      Eles fizeram uma ronda pelos quartos, cachorro e homem. Logan tomava notas mentalmente, enquanto andavam. Desde que comprara a Home Depot local e contratara 
cerca de cem carpinteiros e um ou dois bombeiros hidrulicos, eles estavam prontos para a situao.
      
      
      
      
      Briana no chegara ao cemitrio at o fim da tarde. Ao chegar, perguntou-se por que tinha ido, como sempre fazia. Enquanto seus filhos, Alec, de oito anos, 
e Josh, de dez, corriam entre lpides que balanavam e cruzes de madeira em decomposio, ela estendeu a toalha de piquenique sobre um pedao plano do cho e pegou 
o suco e os sanduches. Sua velha cadela, Wanda, labrador preto e parrudo, observava placidamente os meninos correrem atravs da ltima e flamejante luz de sol daquele 
dia quente de junho.
      - Eu nem conheo nenhuma das pessoas enterradas aqui - disse Briana a Wanda. - Ento por que arrebentar minhas costas arrancando mato e plantando flores para 
um monte de mortos desconhecidos?
      Wanda a observava com pacincia.
      Durante os dois ltimos anos, desde a noite em que seu agora ex-marido, Vance, a abandonara aps uma discusso interminvel em frente  loja do Wal-Mart de 
Stillwater Springs, junto com os meninos e Wanda, Briana se ocupava com a sobrevivncia.
      Naquela ocasio, ela pensou que Vance daria a volta no quarteiro algumas vezes em sua velha van asmtica, soltando fumaa, e depois voltaria para busc-los. 
Em vez disso, deixou a cidade. Quando ele apareceu, trs meses depois, magnanimamente pronto a deixar o passado para trs, Briana entrara com o pedido de divrcio, 
encontrando um lugar para morar e arranjando um emprego no cassino tribal, servindo refrigerantes e cafs gratuitos em troca de gorjeta. No comeo, os poucos dlares 
que ganhava num turno de oito horas mal davam para colocar comida na mesa. Mas ela batalhara para ser promovida a recepcionista no clube dos jogadores. E depois, 
a carteadora. No fim, se tornara supervisora de andar, trocava dinheiro e pagava os prmios de vez em quando.
      Supervisores de andar ganhavam um salrio razovel. Tambm tinham plano de sade, licena mdica e frias remuneradas. Ela conseguira aquilo sozinha, algo 
que Vance garantira que no conseguiria.
      Pouco tempo depois de terem se mudado para a casa do lado de l do riacho, Alec e Josh atravessavam o cemitrio em seus passeios, e ela verificava o lugar, 
se certificando de que era seguro para os meninos brincarem. Briana era entusiasmada por lugares seguros, embora esses lugares tivessem, at ento, escapulido a 
ela. Aos 30 anos, ainda procurava por um.
      Nada poderia t-la preparado, como sups, para o efeito que a primeira viso daquele cemitrio rural esquecido teve sobre ela. Abandonado, coberto de mato, 
impregnado de um extremo a outro de milhares de restos de festas de adolescentes movidas a bebida, o lugar dera, mesmo assim, boas-vindas ela.
      Desde ento, ocupar-se do cemitrio abandonado era sua misso. Ela e os meninos haviam limpado o terreno, aparado e depois arrancado o mato, plantado flores 
e endireitado as cruzes. Os turnos de trabalho sempre terminavam com os meninos brincando de pique para descarregar o excesso de energia e, depois, com um piquenique 
como refeio.
      Ela no esperava que aquele dia fosse diferente de qualquer outro dos dias anteriores, o que mostrou que ainda podia ser surpreendida.
      Um homem esguio e de cabelos desgrenhados, jeans, botas e camiseta surgiu caminhando devagar de dentro do bosque, com um cachorro marrom avermelhado a seu 
lado. E ele interrompeu as passadas quando viu Briana.
      Ela sentiu um estranho arrepio de alarme - e algo mais, menos fcil de definir - quando olhou para ele pela primeira vez.
      Os cabelos dele eram escuros. E, embora fosse esbelto, tinha um fsico forte.
      Wanda soltou um rosnado baixo, mas no se moveu de seu lugar de costume sobre a toalha de piquenique.
      - Psss - disse Briana, consciente de que os meninos haviam interrompido a brincadeira e gravitavam em torno dela, curiosos e talvez um pouco preocupados.
      O estranho sorriu, falou em voz baixa com seu cachorro e se manteve a distncia. Alec foi direto at ele.
      - Oi - disse o menino. - Sou o Alec Grant. Aquela  minha me, e aquele, meu irmo Josh, tambm conhecido como Cabea de Melo. Quem  voc?
      - Logan Creed - respondeu o homem, com um leve sorriso. - Prazer, Alec. - Ele observava, no entanto, Briana, com olhar curioso, mas tambm lnguido. Apreendeu 
o l,70m de altura dela, que estava vestida com um jeans gasto e uma camisetinha rosa com fitinhas. Olhos verdes, sardas, cabelos louro-avermelhados presos atrs, 
como sempre, com uma trana. inspecionou-a como se tivesse de reconhec-la mais tarde numa sesso de identificao de suspeitos enfileirados, dessas que a polcia 
faz.
      Briana hesitou, pouco  vontade ao notar o ltimo nome, que lhe era familiar. Depois, avanou, forando um sorriso cordial. E esticou a mo ao apresentar-se.
      - Briana Grant.
      - Ns conhecemos um Dylan Creed - disse Alec. Seu filho mais novo nunca vira um estranho, fato que tanto agradava como preocupava Briana. A aula sobre no-converse-com-gente-

que-voc-no-conhece fora um desperdcio com Alec.
      - Mame, Josh e eu cuidamos da casa dele. Ele tem um touro, tambm. Cimarron.
      De perto, Logan Creed era at mais bonito do que parecera a distncia. Seus cabelos, um pouco longos demais, tinham a cor do bano, e os olhos eram de um castanho 
profundo e penetrante, cheios de inteligncia e alguns segredos. Suas mas do rosto eram altas, sugerindo que talvez existisse sangue indgena em algum ponto de 
sua ascendncia. Ele no parecia nem um pouco com seu irmo de olhos azuis e louro, Dylan. Mas ainda assim havia uma semelhana - talvez algo em seu temperamento, 
embora ela, certamente, ainda soubesse pouco sobre isso. Ou no jeito como ele ficava de p.
      - Ento Dylan contratou uma caseira, no foi? - perguntou ele com lentido. - E possui um touro? - Seu olhar passou por Briana e se fixou no cemitrio. - Meu 
irmo mais novo tambm est pagando para voc cuidar do cemitrio? Se est, ele devia lhe dar um aumento. O lugar tem uma aparncia bem melhor do que da ltima vez 
em que estive aqui.
      Briana enrubesceu um pouco, insegura quanto ao que responder, e ainda se sentindo estranhamente exposta sob o olhar fixo daquele homem. Dylan no mencionara 
o cemitrio naquela noite fatdica era que a contratara do lado de fora do Wal-Mart. Ele estivera na cidade por pouco tempo, em alguma espcie de negcio pessoal, 
e acabou vendo Vance jogar algumas notas de 20 dlares atravs da janela da caminhonete e depois arrancar com o carro, cantando os pneus.
      Avaliando a situao, Dylan provavelmente sentiu pena de Briana, dos meninos e do cachorro. E passou a ela um molho de chaves, dando-lhe instrues sobre o 
lugar, e saiu caminhando devagar, sem olhar para trs. Advertiu-a do perigo de Cimarron, um touro branco que fora afastado da vida dos rodeios havia pouco; disse 
que um vizinho alimentava o animal e que Briana deveria ficar longe do bicho. Ela tomou um txi para o rancho, furiosa com Vance e realmente desejando que ele voltasse 
depois de esfriar a cabea. E no os encontrasse mais. Ele merecia.
      Em vez disso, ele foi mesmo embora.
      No dia seguinte, chegou uma carga de mantimentos pelo servio de entrega, junto com um bilhete de Dylan dizendo que havia uma velha caminhonete estacionada 
no celeiro e que ela podia us-la se conseguisse faz-la funcionar. Desde ento, no haviam se comunicado, a no ser pelos e-mails ou telefonemas ocasionais. Quando 
alguma coisa precisava de conserto, e o servio estava alm das habilidades limitadas de Briana para reparos domsticos, Dylan mandava rapidamente um cheque, e Briana 
tinha o cuidado de providenciar um recibo, embora Dylan nunca tivesse pedido um.
      Josh deu ento um passo  frente e ficou ao lado dela, bem perto. Ao contrrio de Alec, Josh considerava todo mundo estranho, e portanto um problema em potencial. 
E agia de acordo com isso at que essas pessoas mostrassem ser de confiana.
      - Ningum nos paga para tomarmos conta do cemitrio - disse ele. - Ns cuidamos porque  preciso cuidar.
      O sorriso de Logan surgiu de repente e desconcertou Briana um pouco. Ela acrescentou dentes muito brancos ao inventrio que fizera dele um pouco antes, enquanto 
ele tomava as medidas dela.
      - Bem, agradeo - disse ele. - E essa  uma boa razo para fazer as coisas.
      Cuidadosamente amansado, Josh serenou um pouco. Mas no sorriu. Ele queria que Briana soubesse, por sua postura retesada e punhos fechados, que ele a protegeria. 
E tambm a Alec e Wanda, se necessrio. Graas a Vance, Josh era msculo demais para um menino de dez anos. E srio e triste demais.
      - Onde voc mora? - ele perguntou a Logan, solene. Logan indicou com o polegar por cima do ombro.
      - Na casa principal do rancho - disse ele.
      - Ningum mora l - contestou Josh.
      - Josh - censurou Briana.
      - Algum mora l agora ? respondeu Logan, afvel. - Parceiro e eu nos mudamos para l hoje.
      Josh olhou o cachorro cor de cobre.
      - Ele est muito magro. Voc no d comida para ele?
      - Ele e eu acabamos de nos conhecer - respondeu Logan. Sua voz era tranqila. - Ele vai engordar com o passar do tempo.
      Wanda levantou seu corpanzil e se aproximou de Parceiro, cujo focinho cheirou. Parceiro tambm cheirou o nariz de Wanda. Ento ambos perderam o interesse um 
no outro.
      - Ainda acho que ele poderia comer um de nossos sanduches de mortadela - insistiu Josh, sabiamente. Ento, fazendo uma concesso, acrescentou: - Ele est 
bem limpo.
      - Ele est bem exausto por ter conseguido isso - disse Logan. - E eu quase esgotei o suprimento de sabo.
      Josh se desarmou e sorriu.
      Finalmente ocorreu a Briana que Logan devia ter vindo ao cemitrio para visitar o tmulo de algum. E uma peregrinao como aquela, especialmente depois de 
uma longa ausncia, poderia exigir privacidade.
      - Talvez devssemos ir embora - sugeriu ela.
       Mas Logan fez que no com a cabea.
      ? No saiam daqui e continuem o piquenique - disse a ela.
      Ento, dirigindo-se a Josh, acrescentou: - Parceiro pode aceitar aquele sanduche, se a oferta ainda vale. Mas vou logo avisando: ele pode vomitar. Parece 
que tem um estmago sensvel.
      Como vmito era assunto srio para um garoto de 10 anos, Josh assentiu com a cabea.
      - Comida para cachorro seria melhor - avaliou ele. - A gente pode dar um pouco da rao da Wanda se voc precisar.
      Logan riu por entre os dentes. Pareceu querer despentear os cabelos de Josh, mas no o fez.
      - Obrigado - respondeu ele. - Mas fomos mais cedo  cidade para comprar a comida. Estamos abastecidos.
      Briana sorriu, trouxe Wanda e os meninos de volta para a toalha do piquenique. Parceiro ficou com Logan, que foi se agachar ao lado de um dos tmulos.
      - Posso dar mortadela pro Parceiro? - sussurrou Alec.
      - No - disse Briana, olhando para Logan. - No agora.
      - A conversa agora  particular, seu pateta - disse Josh ao irmo.
      - Cachorros no tm conversas particulares, bobo - retrucou Alec.
      - Fiquem quietos - ordenou Briana, perguntando-se por que suas mos tremiam um pouco enquanto servia as bebidas e desembrulhava os sanduches.
      
      
      
      
      Os olhos de Logan queimaram quando ele correu a ponta dos dedos pela inscrio simples lavrada na lpide de sua me. Teresa Courtland Creed. Esposa e me.
      Ele tinha 3 anos quando sua me perdeu a luta contra o cncer de mama. Desde ento havia um enorme buraco em sua vida. Seu pai, Jake Creed, que nunca fora, 
para comeo de conversa, um cidado confivel, iniciou uma bebedeira que durou dez anos, comeando pelo dia do funeral. Seu pesar, no entanto, no o impediu de se 
casar com a me de Dylan seis meses depois. A pobre e doce Maggie morreu num acidente de carro quatro dias depois do aniversrio de 7 anos de seu filho. De acordo 
com seu padro, Jake casou-se de novo antes do fim daquele ano - desta vez com Angela, uma professora jovem e idealista sem outra idia seno casar-se com um bbado 
violento com dois filhos selvagens. Sem dvida, ela pensava que tudo de que Jake precisava era do amor de uma mulher. Ela foi uma boa madrasta para Logan e Dylan, 
e logo deu  luz Tyler.
      Ela resistiu por cinco anos. Sim, resistiu.
      Mas as bebedeiras de Jake simplesmente a exauriram. Um belo dia de vero, ela preparou uma poro de frango frito, disse a Logan, Dylan e Tyler que no deixassem 
de fazer suas tarefas e rezar. E partiu.
      Jake virou a rea rural toda pelo avesso procurando por ela. Furioso, estava convencido de que ela o deixara por outro homem. E tinha a inteno de traz-la 
de volta pelos cabelos, se fosse preciso.
      Em vez disso, Angela arranjou para si mesma uma crise de nervos muito sria. Foi para um hotel de beira de estrada nas redondezas de Missoula, tomou um frasco 
de tranqilizantes e morreu.
      Tal era, pensou Logan, a gloriosa histria dos Creed.
      Depois disso, Jake desistiu de casamentos. Quando Logan era calouro na faculdade, o velho morreu num acidente inusitado no corte de rvore.
      Lembrar o enterro embrulhou o estmago de Logan. Por mais absurdo que parecesse em retrospecto, levando-se em conta os estragos que o alcoolismo de Jake causara 
na vida de todos eles, os trs bebiam usque, metiam-se nas maiores pancadarias e terminavam as noites em celas separadas de delegacias, como convidados do xerife 
Floyd Book.
      Eles no se falavam desde ento, embora Logan se informasse sobre os irmos, principalmente pela internet. Dylan, vaqueiro tetracampeo mundial, era aparentemente 
uma celebridade na profisso, agora que ele pendurara seu equipamento de rodeio para sempre. Chegara a aparecer em alguns filmes, embora, at onde Logan soubesse, 
Dylan fosse famoso por no fazer nada em especial.
      S nos Estados Unidos.
      Tyler, cuja modalidade era montaria em cavalo xucro, ainda continuava nos rodeios. Ele se envolvera em algumas enrascadas romnticas bem conhecidas, investira 
seus ganhos considerveis em imveis e assinara contrato como porta-voz nacional de um fabricante de botas. Embora o mais novo, Tyler era o mais selvagem dos trs 
filhos de Jake. Ele fazia muitos questionamentos, desde o modo como Jake os educara e at sobre a morte de sua me.
      Mas as histrias de seus irmos no passavam disso: histrias deles. Logan sabia que estivera ocupado, endireitando sua prpria vida. E, embora lamentasse, 
o fato era que os irmos Creed eram desunidos. E a desunio podia ser permanente. Dado o orgulho da famlia, para no falar na teimosia inata.
      Logan estava quase pronto para ir embora - tinha muitos outros lugares aonde ir. Briana e as crianas dobravam a toalha do piquenique. O menino mais novo, 
Alec, se aproximou com uma fatia de mortadela para Parceiro.
      - Voc  caubi? - perguntou, reparando na bota gasta de Logan enquanto o cachorro se banqueteava com a carne do almoo.
      Logan passou uma das mos pelo cabelo. - Fui, um dia - respondeu ele, consciente de que Briana o observava.
      - Meu pai  caubi - disse Alec. - A gente no o v muito. - Que pena - respondeu Logan.
      - Ele participa de rodeios - explicou Alec. - Mame se divorciou dele pela internet depois que ele largou a gente na frente do Wal-Mart e no voltou para nos 
buscar.
      Logan sentiu uma fisgada na boca do estmago. Sentiu fria, certamente - que tipo de homem abandona uma mulher com dois meninos pequenos e um cachorro? Mas 
tambm uma dose de alvio perturbadora. Mais uma vez, seu olhar se desviou at Briana, que abria a boca para censurar Alec. Nossa, como ela era sensual! As curvas, 
o brilho nos cabelos, a pele macia e levemente sardenta.
      - Mas mame toma conta da gente muito bem - continuou Alec quando Logan parou de... no conseguiu... falar. O velho Jake tampouco fora pai do ano. Mas, apesar 
da luxria, do alcoolismo e das brigas, ele trabalhara pesado e sem parar nas florestas, derrubando rvores. Mesmo em seus piores dias, ele no teria largado mulher 
e filhos, deixando que se virassem sozinhos.
      - Aposto que sim - Logan conseguiu responder enquanto Briana se aproximava.
      - Ela  supervisora l no cassino - afirmou Alec, falando mais rpido enquanto sua me se aproximava. Briana chegou, pousou a mo levemente sobre o ombro de 
Alec, que estava de camiseta. Os dois meninos tinham cabelos e olhos escuros, em contraste com o colorido claro de sua me. Uma imagem de seu ex-marido formou-se 
na mente de Logan. Ele era provavelmente um sedutor, um daqueles tipos ciganos, de boa linhagem e histria triste.
      - Basta, Alec - ordenou Briana com calma. Seus olhos evitavam o rosto de Logan, como se tivesse ficado tmida de repente. - Agora temos de voltar para casa. 
Vocs tm tarefas para fazer e matria para estudar.
      Alec franziu o nariz.
      - Mame d aula pra gente em casa - contou a Logan. - A gente nem tem frias de vero. - Logan arqueou as sobrancelhas, colocou as mos na cintura. Resistiu 
ao desejo de coar o queixo com barba de alguns dias por fazer.
      - Isso - disse Briana, apertando gentilmente o ombro do menino - porque voc brinca tanto que precisa se dedicar um tempo extra.
      - Eu queria que a gente pudesse ir  escola em Stillwater Springs, como as outras crianas - lamentou Alec. - Eles jogam beisebol. Andam de nibus, fazem excurses 
no campo e tudo mais.
      O rosto de Briana ficou tenso de modo quase imperceptvel e aquele rubor sob as mas do rosto reapareceu.
      - Alec - disse ela com firmeza o sr. Creed no est interessado nos seus assuntos pessoais. Vamos embora para casa antes que os mosquitos apaream, tudo bem?
      Sr. Creed estava, de fato interessado, sim - alm de qualquer medida de bom-senso.
      - Logan - disse ele.
      Briana conferiu no relgio de pulso. Assentiu com a cabea.
      - Logan - repetiu distraidamente.
      - O Josh e eu tambm podemos chamar voc de "Logan"? - perguntou Alec com voz otimista.
      Uma mulher que ensinava os filhos em casa podia ter algumas noes bem rgidas de etiqueta. Como no queria se intrometer, Logan disse:
      - Se sua me no se incomodar.
      - Vamos ver - disse Briana, ainda confusa. Ento, como uma galinha, mas sem o cacarejo, juntou a prole e a conduziu em direo ao riacho. A casa de Dylan ficava 
logo do outro lado de uma instvel pontezinha de madeira, que era invisvel por trs de uma sebe de btulas cobertas de folhagem. O cachorro preto foi atrs deles, 
andando feito um pato.
      Logan sentiu-se estranhamente abandonado, observando-os partir. Parceiro tambm, porque soltou um pequeno ganido de protesto.
      Logan deu meia-volta, tranqilizou o cachorro com um afago na cabea.
      - Vamos para casa, garoto - disse ele. - A essa altura, a notcia de que voltei j se espalhou e  certo que teremos companhia.
      Mas nenhum dos dois se mexeu at que Briana, os meninos e o cachorro sumissem de vista.
      Logan estacou, pensando que deveria parar diante do tmulo de Jake antes de ir embora. Mas teve medo de cuspir sobre ele se o fizesse. Assim, dirigiu-se, em 
vez disso, ao pomar, com Parceiro se apressando para segui-lo. Como era de se esperar, o carro horroroso de Cassie Greencreek estava ao lado da casa. Ele meio que 
elevava o nvel do lugar, o que era um comentrio triste segundo os padres de qualquer pessoa. Cassie estava esperando por ele. Ela se sentara no ltimo degrau 
da escada da varanda. Estava resplandecente num vestido de polister prpura, grande o bastante para esconder um Fusca. Seus cabelos, que iam at a cintura, tinham 
agora reflexos grisalhos, e seus olhos castanhos brilhavam numa combinao de boas-vindas e mau humor.
      - Logan Creed - declarou ela, acolhendo o cachorro gentilmente quando ele foi lhe fazer festa. - Nunca pensei que voc teria coragem de voltar aqui depois 
de tudo o que aconteceu no enterro de Jake.
      Logan sorriu timidamente, parando no caminho coberto de mato. Estendendo as mos no gesto tradicional de "aqui estou".
      - Quando foi que voc se barbeou pela ltima vez? - quis saber Cassie, abrindo espao para Parceiro no degrau. - Voc est parecendo um vagabundo.
      Logan riu daquilo, aproximou-se e se curvou para beijar o rosto que a velha senhora lhe oferecia.
      - Eu tambm amo voc, vov - disse ele.
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DOIS
      
      
      
      
      
      
      A casa que abrigara Briana Grant, seus filhos e a cachorra por mais de dois anos tinha a mesma aparncia de sempre, sob a poeira acumulada. Mas, apesar disso, 
estava diferente.
      Uma pequena e estranha excitao, nem um pouco desagradvel, danou no fundo do seu abdome quando ela olhou ao redor.
      A mesma geladeira barulhenta e amassada.
      Os mesmos pisos de linleo gasto.
      O mesmo telefone de parede, antiquado e dourado, com o fio de plstico enrolado. Embaixo dele, sobre o aparador empenado, a luz vermelha da secretria eletrnica 
piscava sem parar.
      O que havia mudado?
      No era a casa, claro. Ela  que estava diferente, mudada de algum modo. E no nvel quntico tambm, como se a prpria estrutura de suas clulas tivesse sido 
destruda por alguma nova energia perigosa.
      Que diabo  isso?, ela se perguntou, mordendo com fora o lbio inferior, enquanto os meninos estavam no seu costumeiro caos na volta para casa: Josh ligando 
o computador na mesinha junto  janela da cozinha; Wanda latindo e girando em crculos em torno de sua bacia de gua; Alec correndo at a secretria eletrnica quando 
via a luzinha vermelha piscando.
      - Talvez papai tenha ligado! - gritou Alec, apertando os botes.
      - Talvez o presidente tenha ligado - zombou Josh, com amargura.
      - Cale a boca, bobalho!
      - Calem a boca os dois - disse Briana, puxando uma cadeira at a mesa e desabando sobre seu assento de vinil vermelho rachado, sentindo-se estranhamente deslocada, 
como se tivesse, por acidente, tropeado em outra dimenso.
      A voz de Vance, que se avolumava dentro da secretria eletrnica como um gnio enfumaado prometendo realizar trs desejos - nenhum dos quais se realizaria, 
claro - soou gutural e bajulatria.
      Wanda parou de latir.
      - Al, famlia - disse Vance, e Briana olhou na direo de Josh, viu suas costas atlticas se retesarem sob a camiseta listrada. - Desculpe por aquele cheque 
da penso alimentcia, Bri. Pensei que teria fundos antes de ser compensado, mas no consegui.
      Briana fechou os olhos. Vance adorava lanar no ar a palavra famlia, como se, apenas por us-la, pudesse reescrever a histria e desfazer a verdade - que 
ele praticamente jogara fora sua mulher e seus filhos, como se fossem invlucros de barras de chocolate ou as embalagens de hambrguer que se acumulavam no assoalho 
de sua van.
      - Devo passar por Stillwater Springs dentro de uma ou duas semanas - arrastou-se a voz incorprea. - Vou dormir no sof, se voc no se incomodar. E ver o 
que posso fazer com relao quele cheque. - Pausa pequena. - O sof  sof-cama, certo?
      A refeio de mortadela e suco no cemitrio embrulhou no estmago de Briana.
      Alec vibrou de alegria, pulando pela cozinha inteira como um daqueles vermes mexicanos presos dentro de uma casca seca.
      - Se ele vier - bufou Josh, os dedos sobrevoando o teclado do computador vou fugir de casa!
      - Vejo vocs em breve - cantarolou Vance. - Amo todos vocs.
      Clique. Vejo vocs em breve. Amo todos vocs. Certo. Briana praguejou baixinho. A sensao quase mstica de mudana profunda desvaneceu-se no fundo de sua 
mente, sendo imediatamente substituda por uma dor de cabea por estresse, que latejava forte entre suas tmporas. - V em frente e fuja - Alec provocou o irmo. 
- Eu ia gostar mesmo de ficar com a cama de baixo no beliche! Briana suspirou.
      - Basta - disse ela, levantando-se sem fora da cadeira e agindo mecanicamente. Encheu as tinas de gua e de rao para Wanda, mas seu olhar continuava voltado 
para a secretria eletrnica. Vance no deixara um nmero de telefone e ela no tinha identificador de chamada, j que seu telefone era de poca. - Algum dos dois 
tem o celular do pai de vocs?
      Vance usava na maioria das vezes telefones baratos de lojas de convenincia. Para ele, tudo era descartvel - incluindo gente e um cachorro que ele criara 
desde filhote.
      - Como se eu fosse ligar pro idiota - resmungou Josh. Ele at disfarou, mas havia lgrimas sob todo aquele desdm.
      Briana entendeu. Ela mesma chorou um rio de lgrimas por causa de Vance, embora a choradeira tivesse secado h muito, junto com todo o resto que ela j sentira 
por ele. Assim ela terminou com ele - de fato, procurou uma sada bem antes de ter sido abandonada do lado de fora do Wal-Mart.
      - Por que voc quer o celular de papai? - perguntou Alec, vermelho por trs das sardas, praticamente fulminando Briana com o olhar. - Voc no vai ligar para 
ele e dizer para ele no vir, vai?
      Era exatamente aquilo o que Briana pretendia fazer, mas, olhando o rostinho srio de Alec, percebeu que no poderia. No com ele e Josh por perto.
      - Seja como for, ele provavelmente no vai dar as caras - observou Josh, ainda navegando com animao pela internet. O que, exatamente, estaria ele fazendo 
naquele computador? - Com a palavra dele e um pedao de papel higinico, daria para voc limpar o bumbum.
      - Joshua - disse Briana.
      - Eu odeio vocs! - gritou Alec. - Odeio vocs dois! Wanda ganiu e se estatelou ao lado da tina de gua num abatimento de co. Quando Alec entrou no quarto 
fazendo barulho, deixando a cozinha que ele e Josh haviam compartilhado, Wanda no foi atrs dele, o que era raro.
      Briana suspirou de novo, tirou o pequeno bule da cafeteira e foi at a pia ench-lo, enquanto olhava fixo e com raiva para a secretria eletrnica. Dane-se, 
Vance, pensou com severidade. Por que voc no nos deixa?  essa sua especialidade, no ?
      - Ele  um caubi, tudo bem - disse Josh, soando quase triunfante. Os diques no teclado haviam parado, o que era temporrio, certamente. Josh ficava muito 
tempo na internet e era muito habilidoso em apagar seus rastros, para no preocupar Briana.
      Ela franziu o cenho, sentindo-se ainda desconectada, fora do compasso. Continuou a fazer o caf, embora no precisasse de cafena. Depois da bomba que Vance 
acabara de lanar, ela no conseguiria mesmo dormir aquela noite.
      - Seu pai? - perguntou ela.
      Josh repetiu o suspiro que ela dera um pouco antes.
      - Logan Creed - disse ele, com a pacincia exagerada de um professor de Rhodes Oxford falando a um idiota falastro. - Fiz uma pesquisa sobre ele. Ele foi 
Caubi do Ano duas vezes. Foi casado duas vezes tambm. No tem filhos. Nem meios visveis de sustento.
      - Ele  caubi? - repetiu Briana, estupefata. Num certo sentido, achava essas notcias at mais desconcertantes do que a ameaa da chegada iminente de Vance.
      - Ele tem diploma de direito - disse Josh, projetando os ombros  frente para conseguir enxergar a tela do computador. - Talvez ele seja rico ou coisa assim.
      Os Creed eram lendrios dentro e ao redor de Stillwater Springs. Mesmo para uma recm-chegada, Briana j ouvira muita coisa sobre suas proezas. Mas se o estado 
do rancho indicava algo, eles no s no eram ricos, como tinham dado sorte de escapar de uma execuo hipotecria.
      - Por que voc est pesquisando sobre o sr. Creed? - perguntou Briana com uma indolncia que ela no sentia, enquanto tirava uma caneca do armrio e despejava 
dentro dele adoante artificial e creme desnatado.
      Creed  caubi, disse uma voz em sua cabea. Considere-se avisada.
      - Ele disse que a gente podia cham-lo de Logan - lembrou-lhe Josh.
      - Ento, Logan - disse Briana, enchendo a caneca antes mesmo de o caf todo ficar pronto. A coisa tinha aquele gosto forte de fundo de bule, bom para deix-la 
arrepiada, mas a acalmava um pouco. - Por que fazer uma checagem dele na internet?
      - Foram as botas - lembrou Josh, evitando ou mesmo ignorando a pergunta de Briana inteiramente. - Elas no eram bonitas, como aquelas que aquele cara da loja 
da Ford usa, com estrelas e cctus e ursos gravados nelas.
      - Cacti - corrigiu Briana automaticamente, professora como sempre.
      - Tanto faz - disse Josh, que se virou para encar-la. - As botas de Logan esto muito gastas. Qualquer pessoa com botas como aquelas provavelmente monta cavalos 
e d duro para viver.
      Briana pensou nas botas de Vance. Ele mandou fazer meias-solas nelas muitas vezes, e estavam sempre arranhadas.
      - Talvez ele seja simplesmente pobre - sugeriu ela. - Eu me refiro a Logan.
      Josh fez que no com a cabea.
      - Ele  formado em direito - repetiu.
      - E "sem meios visveis de sustento", como voc disse. Pare de fugir de minha pergunta, Josh. Por que pesquisou sobre nosso vizinho?
      - Para ter certeza de que ele no  um assassino em srie ou algo assim - respondeu Josh.
      Briana escondeu um sorriso. Em poucos minutos, ela iria atrs de Alec. Naquele instante, suspeitava, ele precisava de um tempo para ficar sozinho.
      - E qual  sua avaliao, detetive? O vizinho oferece segurana para pessoas decentes?
      Josh sorriu. Seus sorrisos eram to raros naqueles dias que mesmo os mais fugazes eram motivo para celebrao. Algo de sua luz interior se apagara dentro de 
Josh depois da partida de Vance. E s vezes Briana temia que essa luz sumisse por completo.
      - Pelo menos at que papai chegue aqui, oferece - disse Josh.
      Sem notar aquela observao, Briana acendeu as luzes do teto, expulsando as sombras do crepsculo.
      - Voc no ia realmente fugir, ia? - perguntou ela com cuidado, fazendo as obras de arte tremularem como as penas eriadas de algum pssaro grande quando abriu 
a porta da geladeira de novo. Nada de sanduche de mortadela; os meninos iam precisar de uma refeio de verdade. - Quer dizer, se o seu pai vier nos visitar. Houve 
um silncio insuportvel entre a pergunta de Briana e a resposta de Josh.
      Ainda sobre a cadeira, diante do computador, ele olhou para o cho.
      - Eu tenho 10 anos, me - disse. - Para onde eu iria? Briana colocou de lado a embalagem de coxinhas de galinha que acabara de tirar da geladeira e se aproximou 
do filho.
      Ia colocar a mo sobre o ombro dele, mas desistiu.
      - Josh...
      - Por que ele simplesmente no nos deixa em paz? - interrompeu Josh com tristeza. - Voc se divorciou dele. Eu quero me divorciar dele tambm.
      Briana dobrou os joelhos, sentou-se sobre as ancas e fitou Josh nos olhos. Ele era um menininho muito preocupado, esforando-se para ser um homem.
      - Sei que est zangado - disse ela - , mas seu pai sempre ser seu pai. Ele no  perfeito, Josh, mas a gente tambm no .
      Uma lgrima escorreu pela bochecha de Josh, uma pequena trilha prateada de sujeira feliz que tinha valido a tarde.
      - Ainda desejo que a gente pudesse d-lo de entrada e pegar algum diferente - retrucou ele.
      O riso entre os dentes era em parte soluo. Sua vista escureceu, e seu sorriso deve ter parecido frgil a Josh, at mesmo forado.
      - Lei cardeal csmica nmero um - disse ela. - No se pode mudar o passado, ou outras pessoas. A verdade  que, embora as coisas tenham sido muitas vezes bem 
difceis, no me arrependo de ter me casado com seu pai.
      Josh choramingou, perplexo. - No?
      Briana fez que no com a cabea.
      - Por que no? Ele est sempre desempregado. Quando ele manda a penso alimentcia, o cheque  sempre devolvido. Voc nunca preferiu ter se casado com outro 
tipo de homem? Ou at ter ficado solteira?
      Briana levantou-se, passou a mo pelos cabelos bem curtos de Josh.
      - Eu nunca quis isso - disse ela - porque se no tivesse me casado com seu pai, eu no teria tido voc e o Alec. E nem consigo imaginar como seria isso.
      Josh matutou. Haviam tido essa conversa antes, mas ele precisava ser lembrado disso, at com mais freqncia do que Alec, pois, por ele, ela enfrentaria monstros, 
atravessaria o fogo. Durante um ano depois que Vance os deixou, Josh tivera pesadelos, acordava gritando pela me. Alec sofrera tambm por fazer xixi na cama muitas 
vezes durante a semana.
      - Ns somos um problemo - constatou finalmente Josh.
      - Quer dizer, Alec e eu. Brigamos o tempo todo e deixamos de fazer as tarefas.
      - Vocs so as melhores coisas que aconteceram a mim - disse Briana com sinceridade, levantando-se imediatamente.
      - Mas seria mesmo bom se voc e seu irmo se dessem melhor. E fizessem as tarefas.
      Entreaberta, a porta do quarto de dormir dos meninos rangeu e Alec botou a cabea para fora.
      - Cansei de ficar zangado - disse ele. Seu olhar deslizou at Josh. - Quase totalmente.
      Briana riu.
      - Bom - respondeu ela, pegando a frigideira eltrica para fritar as coxinhas de galinha. - Vocs dois precisam se limpar.
      Josh, voc vai primeiro. Desligue esse computador e chispe pro banheiro. Alec, voc pode se lavar aqui na pia da cozinha, e depois vou repassar com voc a 
tabuada.
      Como exceo  regra, Josh no discutiu.
      Alec arrastou um banquinho at a pia, subiu nele e esfregou o rosto e as mos.
      - Estamos no vero, me - protestou Alec. - Aposto que as crianas que vo a escolas de verdade no esto se importando com tabuadas velhas e estpidas.
      - Alec - disse Briana. 
      - Um vez um  um.
      - Alec.
      Alec se atrapalhou com seus seis, setes e oitos, as seqncias em que ele costumava ter problemas, antes de descer do banquinho. Ento ficou em p diante de 
Briana, mos e rosto pingando.
      - Eu sei o nmero do celular de papai - confessou ele.
      O corao de Briana ficou apertado. Alec vivia em funo de algum contato com Vance, no importava quo breve ou limitado. Ele provavelmente esperava que ela 
cancelasse a visita como a um passarinho de argila numa prova de tiro ao alvo, mas, de qualquer modo, ele estava disposto a dar-lhe essa informao.
      - Tudo bem - disse ela, meio engasgada. Alec tinha apenas oito anos. Mesmo depois de todas as decepes, e de todas as tentativas cuidadosas de Briana de explic-las, 
ele simplesmente no entendia por que eles quatro mais Wanda no constituam mais uma famlia. - Voc sabe, claro, que seu pai... muda muito de opinio? Com relao 
a visitas e coisas como...
      Alec a interrompeu, com um olhar de desalento e um aceno de cabea.
      - Eu s queria v-lo, me. Mas sei que ele pode no vir.
      Briana sentiu um n na garganta. Vance estava sempre perseguindo um grande prmio qualquer, alguma vitria que lhe escapava, com uma venda emocional sobre 
os olhos, tropeando no cho spero, tentando pegar vaga-lumes s com as mos. O casamento deles no dera certo, mas ele ainda tinha os filhos. Eram garotos espertos, 
maravilhosos. Por que estavam sempre no fim da sua lista de prioridades?
      - Eu sei - disse ela finalmente. - Eu sei.
      
      
      
      
      Cassie acariciou o cachorro enquanto observava Logan com ateno, olhando-o l dentro. Ela parecia completamente  vontade, sentada no degrau da varanda. Ao 
contrrio da maioria das mulheres que Logan conhecia, Cassie no parecia afligir-se com seu peso - simplesmente era parte dela. Para ele, ela sempre fora bonita, 
uma rvore frondosa e de razes profundas, abrigando-o e a seus irmos sob os galhos cheios de folhas quando eles eram jovens, junto com a metade dos outros rapazes 
do condado. Dando a eles espao para crescer, com seu afeto constante e sereno.
      - Voc se parece tanto com a Teresa - disse ela em voz baixa. - Principalmente ao redor dos olhos.
      Logan no respondeu. Cassie estava pensando alto, no conversando. Ela nunca entabulava uma conversa, nem mesmo um bate-papo.
      Teresa, a me dele, era filha adotiva dela; portanto no eram realmente parentes, ele e essa av. Ainda assim, ele a amava. E sabia que ela o amava.
      Cassie olhou ao redor, suspirou.
      - Este lugar  um naufrgio - observou ela, ainda fazendo festa em Parceiro, que chamava sua ateno aconchegando-se a seu lado. - Voc devia vir e ficar em 
meu quarto de hspedes at que os empreiteiros terminem o servio.
      - Seu quarto de hspedes - disse Logan -  uma cabana, Cassie riu.
      - Voc no se incomodava de dormir l quando era menino - lembrou ela. - Voc costumava fingir que era Gernimo, e Dylan e Tyler sempre me importunavam porque 
voc no os deixava ser chefes.
      A lembrana - e a meno a seus irmos - doeu nas partes mais brutas de Logan.
      - Voc algum dia teve notcia deles? - perguntou, em voz baixa e muito lentamente.
      - Voc teve? - retrucou imediatamente Cassie.
      Logan passou a mo pelo cabelo. Ele ainda precisava de um corte de cabelo, mas havia tanta coisa para um homem fazer em seu primeiro dia em casa.
      - No - disse ele. - E voc sabia disso. Ento por que perguntou?
      - Queria ouvi-lo dizer - replicou Cassie. - Talvez voc se d conta da seguinte maneira. Dylan e Tyler so seus irmos, Logan. So os nicos parentes de sangue 
que voc tem no mundo. Voc joga rpido, e com isso perde, como se voc tivesse todo o tempo para acertar as coisas entre vocs trs, e voc vai se arrepender.
      Logan aproximou-se finalmente, sentou-se no degrau de baixo. Seu primeiro desejo foi levantar-se, perguntar por que era tarefa dele acertar as coisas, mas 
a pergunta teria soado uma bobagem retrica.
      Ele sabia por que dependia dele. Porque era o mais velho. Porque ningum mais comearia um dilogo. E porque foi ele quem comeou a briga, no dia do enterro 
do pai deles, quando falou mal do morto.
      Tudo bem, ele estava bbado.
      Mas quis mesmo dizer as coisas que disse sobre Jake - que no sentiria falta dele, que o mundo seria um lugar mais tranqilo sem ele, quando no um lugar melhor.
      De qualquer forma, foi o que ele quis dizer na poca.
      Cassie estendeu a mo e mexeu nos cabelos dele.
      - Por que voltou para c, Logan? ? perguntou ela. - Acho que sei, mas, como antes, gostaria de ouvir voc dizer.
      - Para tentar um recomeo - respondeu ele, aps hesitar mais uma vez.
      - Parece um trabalho - observou Cassie. - Manter boas relaes com seus irmos faz parte disso?
      Logan anuiu com a cabea, mas no falou. No confiava em sua voz para frases com mais de trs palavras, justo as que ele tinha para oferecer na poca.
      - Vou lhe dar os telefones deles - disse Cassie, movendo-se o suficiente para tirar sua bolsa de entre sua coxa direita e o balastre da varanda, extraindo 
de dentro dela um bloquinho de anotaes e uma caneta.
      - O que vou dizer?
      Apesar de todos os clculos que fez, de todo o planejamento, das decises, ele nunca arranjou um jeito para acabar com a distncia abissal entre ele, Dylan 
e Tyler.
      Cassie riu entre os dentes.
      - Comece com um ol - sugeriu ela - e veja no que vai dar.
      - Eu no preciso dizer a voc no que isso poderia dar - respondeu ele.
      - Voc nunca vai saber se no tentar - disse-lhe Cassie. Ela rabiscou dois nmeros no bloquinho, rpido e de memria, Logan percebeu. Ento arrancou a pgina 
e entregou a ele. Depois de ter feito isso, ela se levantou com a graa elegante que sempre o surpreendera um pouco, dada a altura dela. Acarinhou Parceiro de novo 
e desceu os degraus no movimento lento e resoluto de uma geleira, deixando que Logan sasse do caminho dela ou ento corresse.
      Parceiro permaneceu atrs, sobre o degrau da varanda, mas deu um suspiro curto, triste de ver Cassie ir embora.
      Logan abriu a porta do carro dela, como um cavalheiro. Por que motivo Cassie no comprara algo mais decente para dirigir estava alm do seu entendimento - 
ela recebia um bocado do lucro do cassino local duas vezes por ano, assim como os outros 40 e tantos membros de sua tribo.
      - Da prxima vez que eu vir voc - disse ela, apontando o dedo para ele -  bom que me diga que falou com Dylan e Tyler. E no seria m idia barbear-se e 
vestir algo com colarinho e botes. - Ela parou para puxar a camiseta dele. - No meu tempo, essas coisas eram roupa de baixo.
      Logan riu.
      - Senti falta de voc, Cassie - disse ele, inclinando-se para beijar-lhe a bochecha. - Amanh, Parceiro e eu vamos lhe fazer uma visitinha. Vou lev-lo ao 
veterinrio e tenho uma reunio com meu empreiteiro. Posso prometer barba feita e uma camisa abotoada at embaixo, at mesmo um corte de cabelo. Mas, se vou ligar 
para meus irmos ou no... Bem, isso veremos.
      - Quanto mais voc adiar, mais difcil vai ficar - disse Cassie, sem se mover para entrar no carro. - Voc veio para ficar, Logan, ou est apenas de passagem 
para cuspir no tmulo de seu pai, ou vender sua parte no terreno a algum ator?
      - Espero que voc no fique a parada, fingindo ser a presidente do f-clube de Jake Creed - implicou Logan.
      - Ns tivemos nossas rusgas, Jake e eu - admitiu Cassie. - Mas ele era seu pai, Logan. Do jeito doido dele, Jake amava vocs.
      - Sim, era bem "famlia Doriana" o jeito como a gente vivia - caoou Logan. Havia uma nota de respeito em seu tom de voz, mas era por Cassie, no por Jake. 
- Acho que voc se esqueceu do dia em que ele cortou a rvore de Natal ao meio com uma motosserra. E aquele maravilhoso dia de Ao de Graas, quando decidiu que 
o peru estava queimado e o arremessou pela janela da cozinha?
      Cassie suspirou, ps a mo sobre o ombro de Logan.
      - E aquele dia em que voc e Dylan decidiram fugir de casa e se perderam l na floresta? Foi em novembro, e o moo do tempo previa recorde de temperaturas 
baixas. O xerife suspendeu as buscas quando o sol se ps. Mas Jake... Ele continuou procurando. Encontrou vocs e os trouxe para casa.
      - E nos arrastou para a cabana de madeira.
      - Se ele tivesse desistido, vocs teriam sido arrastados para o necrotrio. Sei que ele deu uma coa em vocs, e eu o teria impedido se estivesse l. Mas no 
foi a raiva que o fez bater em vocs, Logan Creed. Foi o simples e velho medo de sempre.
      - Hoje, chamam isso de maus-tratos contra criana - assinalou Logan.
      - Hoje - contraps Cassie - h tiroteio nas escolas e, na hora de se formar, as crianas no podem fazer provas porque isso poderia causar danos a autoestima 
delas. Chamam os assistentes sociais se a tela de TV no quarto delas  muito pequena, ou se o computador no  rpido o bastante. No estou bem certa se uma boa 
surra no seria um favor que se faria a alguns desses jovens marginais que passam o tempo atrs do ginsio da piscina quando deveriam estar em sala de aula.
      - Isso  to politicamente incorreto - disse Logan, embora no ntimo concordasse.
      - Eu no tenho de ser politicamente correta - retrucou Cassie, fungando.
      Era verdade. No precisava. E no era. Ela afundou no banco do motorista. - Bem-vindo de volta, Logan - disse ela, observando-o atravs da janela aberta. - 
Estou vendo que voc vai ficar.
      Ele pensou em Briana Grant, em seus filhos espertos e na cadela gorda e preta. A idia de ficar no pareceu to desanimadora como antes.
      - Acho que Dylan est de volta - arriscou ele. - H tempo o bastante para contratar um caseiro, de qualquer forma.
      Cassie apenas assentiu cora a cabea, enquanto esperava.
      - Ele est... Dylan e Briana esto...?
      Os olhos castanhos de Cassie se aqueceram com humor e compreenso.
      - Juntos? - disse ela. - Foi isso que voc quis dizer?
      - Sim - resmungou Logan, pois sabia que ela o deixaria ali esperando se ele no respondesse. - Foi isso o que eu quis dizer.
      Ela encolheu um ombro.
      - Voc conhece Dylan. Quando ele est atrs de uma mulher...
      As articulaes de Logan doeram quando ele agarrou a extremidade inferior da janela do carro de Cassie. Cassie sorriu e acariciou uma das mos dele.
      - Se voc quiser saber algo sobre Dylan e Briana - disse ela com doura deveria perguntar a um deles. Sou apenas uma velha senhora, s voltas com meus prprios 
problemas. Como poderia saber o que est... ou no est... acontecendo entre esses dois?
      - Voc sabe de tudo - rebateu Logan. Se ele no estivesse de camiseta, estaria suando no colarinho. - Sobre todo mundo em Stillwater Springs e num raio de 
oitenta quilmetros em todas as direes.
      Cassie suspirou. Engatou a marcha  r.
      -  melhor voc se afastar - disse ela - se no quiser que eu passe por cima dos seus dedos.
      Como no era bobo, Logan deu um passo para trs.
      Ele observou Cassie fazer com rapidez a curva e, veloz, voltar para a estrada com o pequeno carro de motor barulhento, que soltava uma fumaa azul pelo cano 
de descarga e chacoalhava peas frouxas. Quando ela chegou ao topo da subida e sumiu de vista, ele olhou para o papel que ela lhe dera.
      O telefone de Dylan. O de Tyler.
      Parceiro desceu os degraus da varanda e roou a perna de Logan, como que insistindo para que ele resolvesse logo aquele problema.
      Cassie estava certa, claro. No ia ficar mais fcil.
      Ele pegou seu celular e discou o nmero de Dylan, torcendo para que casse na caixa postal.
      - Al - disse Dylan, ao vivo e em pessoa. - Dylan Creed. Logan sentou no degrau da varanda, exatamente no lugar onde Cassie sentara antes. Limpou o pigarro 
da garganta.
      - Voc conferiu o identificador de chamadas antes de falar? - perguntou ele.
      Silncio.
      - Logan?
      - Sou eu - disse Logan, precavendo-se contra o que viesse. Preparado tanto para uma reao violenta, com xingamentos, como para que lhe batessem o telefone 
imediatamente na cara.
      No aconteceu nem uma coisa nem outra. Dylan pareceu aturdido, to sem palavras como Logan.
      - Quem diria! - disse Dylan finalmente. - Onde voc est?
      - No rancho - respondeu Logan, aliviado.
      - O que est fazendo a? - Agora havia irritao no tom de voz de Dylan, ele parecia ligeiramente suspeito.
      - Nada demais, no momento - disse Logan, coando a orelha de Parceiro. - O lugar est caindo aos pedaos. Pensei em ajeit-lo um pouco. A minha parte dele, 
pelo menos.
      Houve outro silncio, pulsando com todas as coisas que nenhum deles ousava expressar.
      - O que andou tramando, Logan?
      Era interesse fraterno, aquela pergunta, ou uma acusao? Logan decidiu conceder a Dylan o benefcio da dvida.
      - Larguei os rodeios, me casei e me divorciei algumas vezes, abri um negcio. E voc?
      - Coisas parecidas - revelou Dylan em voz baixa. - Tambm parei de participar de rodeios. No tenho esposa, nem atual nem ex. Mas tenho, sim, uma filha de 
2 anos. O nome dela  Bonnie... ou era, da ltima vez que ouvi. A me dela o mudou uma dezena de vezes desde que a criana nasceu.
      Logan fechou os olhos. Seu prprio irmo tinha uma filha, sua sobrinha, e ele nem sabia que a menininha existia.
      - Da ltima vez que voc ouviu? Voc no v a Bonnie, Dylan?
      Por um instante, a ligao pareceu cair, ento Dylan tomou flego.
      - No muito - admitiu. - Era para Sharlene compartilhar a guarda, mas ela no compartilha.
      - Talvez eu possa ajudar voc nisso - Logan se ouviu falando.
      - Sim - retrucou Dylan, e a irritao voltou a sua voz. - Voc  advogado. Sempre esqueo.
      Tambm sou seu irmo.
      - Olhe, se voc resolver ter aconselhamento jurdico,  s me ligar. Mas, se no quiser, tudo bem. S liguei porque...
      - Por que voc ligou, Logan? - Um desafio. Aquilo era bem de Dylan: supor que Logan tinha de estar tramando algo para entrar em contato depois de tanto tempo.
      - Acho que voltar para casa me deu um pouco de nostalgia, s isso - disse Logan.
      - Para casa? - repetiu Dylan, de pavio curto. - Onde ela fica?
      Logan no disse nada.
      - O que voc quer?
      As palavras magoaram Logan bem mais do que ele admitiria.
      - Nada - confessou. - S achei que podamos conversar.
      - Voc est planejando vender sua parte no rancho, no est?  por isso que est contratando empreiteiros e comprando tbuas. Para poder afanar uns milhes 
de algum tipinho de Hollywood?
      Ah, as fofocas, pensou Logan. Dylan sabia que ele estava ajeitando a casa do rancho, porque ainda tinha suas fontes na cidade. Perguntar onde Logan estava 
fora uma mera formalidade.
      - No estou vendendo - disse ele sem alterar o tom da voz. ? Vim para ficar. E se voc est pensando em liquidar sua parte do lugar, cubro a oferta de quem 
quer que seja. - Essa linha de raciocnio levou-o a Briana Grant, j que ela estava morando na casa de Dylan. E seguir esse raciocnio criou problemas para Logan. 
Demorou o tempo de uma pulsao para que ele percebesse que havia dito a coisa errada.
      - Se eu fosse vender meus quatro mil hectares... e no vou...  certo como o diabo que no deixaria voc comprar minha parte.
      Vai comear, pensou Logan.
      - Por que isso?
      - Voc sabe. Por causa das coisas que disse do nosso pai.
      - Eu estava errado, certo? Eu devia ter sido mais respeitoso, devia ter guardado minhas opinies para mim mesmo. Desculpe, Dylan.
      Mais silncio. Dylan estava preparado para um contra-ataque, mas o pedido de desculpa inesperado o desconcertou um pouco,
      - Dylan? Voc ainda est ai? Dylan suspirou alto.
      - Estou aqui.
      - E "aqui" fica onde?
      - Los Angeles - disse Dylan. - Tive uma reunio com meu agente e um pessoal do estdio. Estou trabalhando como dubl num filme. Vo filmar l em Alberta, a 
partir da semana que vem.
      - Voc gosta desse tipo de trabalho? - perguntou Logan. Ele no conseguia imaginar como algum podia gostar.
      -  um jeito de ganhar a vida - respondeu Dylan. - E paga a penso alimentcia.
      Logan foi fundo, embora soubesse que a profundidade pudesse ser grande.
      - Estou pensando em criar gado no rancho. Em comprar alguns cavalos tambm. Talvez voc queira ser meu scio.
      - Ns no nos entenderamos nem por dez minutos - sentenciou Dylan, mas havia algo de nostlgico no modo como ele disse essas palavras.
      Logan riu.
      - Ns nunca nos entendemos - respondeu ele. - Mas nos divertimos muito entre uma briga e outra.
      Mais silncio.
      Ento Dylan tambm riu.
      -  mesmo - admitiu ele.
      Foi a primeira coisa em que eles concordaram numa dcada.
      - Voc vai ligar para o Ty? - perguntou Dylan.
      - Em algum momento.
      - Bem, v devagar quando ligar. E no d meu nome como referncia. No momento, ele est bem irritado comigo.
      - Por qu? - quis saber Logan, embora pudesse imaginar mil motivos.
      Mas Dylan o cortou.
      - Assunto pessoal - disse friamente. Isso  entre mim e Ty. Voc fica do lado de fora, olhando para dentro. - Veja, Logan, foi bom ter notcia de voc, mas 
preciso desligar. Tenho um encontro.
      - Certo - respondeu Logan. Ele e Dylan haviam sido corteses um com o outro. Quando visse Cassie na manh seguinte, Logan podia dizer, honestamente, que tentara. 
- Boa sorte no filme.
      Dylan agradeceu e desligou.
      Logan olhou para Parceiro, que o olhava com sentimento.
      - Um j foi, falta o outro - disse ele ao cachorro. Parceiro choramingou.
      Logan consultou de novo as anotaes de Cassie, ento discou o nmero rabiscado ao lado do nome de Tyler. Um toque. Dois. Trs.
      Depois, a mensagem gravada.
      - Aqui  Tyler Creed. Estou ocupado agora, mas retorno a ligao, a no ser que voc esteja vendendo algo. Nesse caso, voc est sem sorte. Aguarde o bipe 
e desembuche.
      Logan riu entre os dentes, aguardou o bipe.
      - Aqui  Logan - disse ele. Deixou seus dois nmeros de celular e o novo, do rancho. - Me ligue. No estou vendendo nada. Uma ova que no estava!
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO TRS
      
      
      
      
      
      Solenemente, Alec presenteou Briana com um pedao amassado de papel de bloquinho de anotao. As marcas a lpis que formavam o nmero do telefone de Vance 
estavam marcadas com fora, como se Alec tivesse tido medo de que desaparecessem se ele no anotasse com toda a sua fora.
      A tristeza sentida por Briana naquele momento pesou em seu corao. Mesmo Alec, o f mais leal de Vance, sabia que os algarismos naquele nmero de telefone 
eram esquivos. Como seu pai.
      Lgrimas esquentavam o fundo de seus olhos, e ela tocou o pingente que ela sempre trazia em volta do pescoo - ela mesma o fizera, escaneando uma velha foto 
de seu pai, redimensionando-a, moldando-o em resina. Ele tambm fora um viajante, um famoso palhao de rodeio que fazia o circuito dos rodeios durante a temporada, 
estacionando seu trailer na casa da irm dele em Boise quando no havia rodeios onde se apresentar. A diferena era que ele levava Briana nas viagens depois da morte 
da me dela. Tinha ento a idade de Alec, 10 anos.
      Sua tia Barbara se opunha, claro, s viagens e ao fato de Briana fazer seus trabalhos escolares por correspondncia em vez de ir a uma escola de verdade. Uma 
menina precisava de amigos, argumentava Barbara. Precisava de aulas de dana, de catecismo aos domingos e de estabilidade.
      Sempre que voltavam a Boise, a tia de Briana, amvel ainda que autoritria, a empurrava para testes na escola. Briana sempre provava estar bem acima do nvel 
de sua srie. De fato, ela terminou o ensino mdio aos 15 anos. Imediatamente, Bill a inscreveu em cursos para ingressar na universidade. E ela tirou nota mxima 
nestes tambm, com a ajuda dele.
      Ela guardava como um tesouro a lembrana deles dois sentados junto  pequena mesa dobrvel no trailer, com a luminria lanando por sobre suas cabeas uma 
aurola dourada, os dois curvados sobre um ou outro manual de estudo.
      Agora, com os filhos otimistas diante dela, ela sentia a falta do pai mais pungentemente do que nunca. Certo, ele a arrastara pelos Estados Unidos naquele 
velho trailer, mas fora firme como uma rocha tambm. Estava l ao lado dela, no importava o que viesse.
      Seu maior arrependimento, no que dizia respeito aos filhos, era no ter dado a eles o tipo de pai que Bill fora para ela. Em vez disso, ela fora arrebatada 
pela boa aparncia, o charme e a fala macia de Vance.
      - Voc vai ligar para papai? - perguntou Alec, com voz mida.
      Briana sorriu.
      - Sim - disse ela. - Mas s para perguntar quanto tempo ele vai ficar.
      Alec ficou incrivelmente aliviado. Seu olhar se desviou para o pingente, para o cordo de couro simples e a imagem de Bill McIntyre, o Louco, com roupa de 
palhao.
      - Voc tem saudade do vov, hein?
      - Um bocado - admitiu Briana. Seu pai se afastara dos rodeios logo depois de ela se casar com Vance, trocando seu amado trailer por uma casa modesta a uns 
poucos quarteires de Barbara e da famlia dela, dizendo que estava totalmente preparado para pescar todo dia e esperar seus netos aparecerem.
      Um ms mais tarde, ele morreu de repente, depois que um caso grave de gripe que se transformou em pneumonia.
      A ironia do caso ainda aborrecia Briana. Seu pai levara chifrada de touro, fora pisoteado por cavalos xucros durante sua longa carreira de palhao de rodeio, 
e no fim morrera de um desconforto que uma simples injeo poderia ter evitado. Alec inclinou-se e deu um beijo no rosto de Briana.
      - Boa noite, me - disse ele - e obrigado. Briana esperou at que Alec e Josh entrassem em casa, mantendo-se ocupada com a arrumao da cozinha, lavando a 
loua que deixara na pia desde aquela manh, fazendo uma lista do supermercado, checando mais de uma vez sua escala de trabalho da semana seguinte. Finalmente, com 
as mos molhadas de suor, tirou o telefone do gancho e ligou para Vance.
      - Este nmero - respondeu um operador automtico, depois de trs toques - est fora de servio.
      Claro que estava, pensou Briana, colocando o fone no gancho com uma leve pancada. E sentindo-se ao mesmo tempo aliviada e contrariada. Vance tinha de ter comprado 
mais minutos para manter aquela linha particular funcionando. Em vez disso, simplesmente comprara outro telefone numa outra loja de convenincia, com um nmero novo 
que ele no se preocupara em informar a ela.
      Briana raramente tinha algo a dizer a Vance. Mas e se um dos meninos ficasse doente, ou se machucasse? Como  que ela iria encontr-lo?
      Resignada, Briana suspirou e conferiu no relgio sobre o fogo. Cedo demais para ir dormir, ainda mais com toda aquela cafena correndo por seu corpo. E ela 
no estava a fim de ver televiso ou navegar na internet.
      Passando pela sala de estar, se esforou para olhar atravs da cortina de renda em direo  casa principal do rancho. Viu suas luzes atravs das rvores do 
pomar pela primeira vez desde que se mudara para a casa de Dylan como caseira residente.
      A vista era reconfortante, fazia com que se sentisse menos isolada, menos sozinha. No que pensasse em tornar-se simptica demais com Logan Creed - ele estava 
bem  vista, e ela gostara dele desde que o viu, mesmo a tendo deixado nervosa. Mas ele era um caubi. Como Vance.
      Ele fora trazido por um vento vadio, como um daqueles tufos de arbustos secos que rolam ao lu no velho oeste. E era provvel que ele sumisse com o vento de 
novo, quando a brisa certa chegasse.
      Mordendo o lbio inferior, Briana saiu da janela. Na distncia, o telefone tocou.
      Ela correu para atender, batendo com a canela numa das cadeiras da cozinha. Com um gesto de dor, agarrou o fone e disse:
      - Al? Vance? Silncio.
      - Al? - repetiu Briana. -  Logan - disse seu vizinho em voz baixa.
      - Oh - disse Briana.
      - Vou ser rpido, j que voc est esperando uma outra ligao - respondeu Logan afavelmente. - Verifiquei a cerca do pasto de Dylan e no acho que ela segure 
aquele touro se ele resolver atacar. Como j estou planejando fazer um bocado de servios naquele lugar, vou colocar novos moires e sarrafos. Apenas pensei em avisar 
a voc antes de as equipes de trabalho chegarem.
      No estou esperando outra ligao. Foi o que Briana quis dizer. Mas no conseguiu revelar que estava contente por ele ter telefonado, contente por ouvir a 
voz de outro adulto numa noite escura de vero. Ele iria pensar que ela estava carente se o fizesse. Disponvel no mercado.
      - Voc pediu a autorizao do Dylan? - perguntou ela em vez disso, massageando a canela machucada. Foi ento que quis ter ido pelo caminho da carente, sem 
se importar. Teria sido melhor do que o modo impertinente como levantou a questo.
      Logan esperou o tempo de uma pulsao antes de responder, para que ela notasse que ele registrara o tom dela:
      - No vejo como ele se oporia, j que estou pagando a conta. Se aquele touro escapasse e causasse algum estrago, o Dylan  que teria de se esconder dos advogados, 
no eu.
      A imagem de Cimarron fora de si, correndo atrs de Josh e Alec afastou imediatamente da mente de Briana todas as preocupaes com o modo como suas palavras 
teriam soado a Logan. Como assistira a centenas de rodeios, ela testemunhara touros jogarem caubis e palhaos para o alto, em saltos-mortais, e furarem suas caixas 
torcicas quando eles aterrissavam.
      - Voc acha mesmo que ele poderia se soltar? Refiro-me ao Cimarron.
      - Sim - respondeu Logan.
      - Ai, meu Deus - murmurou Briana, fechando os olhos. Era difcil encontrar quem cuidasse de crianas em Stillwater Springs. Assim, quando ela no podia levar 
os meninos consigo para o trabalho, onde os deixava estudando ou jogando videogame na lanchonete do cassino, ela os deixava brincando, estudando ou fazendo as tarefas 
em casa. Eles tinham ordens estritas para telefonar a qualquer sinal de problema, mas eram garotos, afinal de contas. Espertos e aventureiros. Ela sabia que eles 
provavelmente exploravam a maior parte do rancho quando ela no estava por perto.
      - H algo errado? - perguntou Logan com sensatez.
      - Preocupaes - disfarou Briana tentando sorrir, embora no conseguisse entender por que, j que estava sozinha na cozinha e Logan no podia v-la. - Coisa 
de me.
      - Vou cuidar da cerca ? assegurou-lhe Logan. - Enquanto isso, cuide para que os meninos fiquem longe de Cimarron. - Pausa. - Dylan no avisou voc sobre os 
ursos, avisou?
      Briana engoliu em seco.
      - Ursos?
      - Eles gostam de invadir o pomar de vez em quando - revelou Logan.
      - Em dois anos - disse Briana, com o estmago revirando lentamente - no vi um nico urso.
      - Eles esto por a - respondeu Logan. - Na maioria, ursos pardos ou negros. Mas de vez em quando aparecem tambm os cinzentos, e eles so desagradveis.
      - Os Grandes Cinzentos? - repetiu Briana, estupefata. Logan suspirou.
      - Dylan deveria ter contado a voc - disse ele.
      Briana mal conhecia Dylan Creed, mas tinha toda razo para ser grata a ele, j que lhe dera um lugar para ficar quando ela mais precisou, alm de um estoque 
generoso de mantimentos e uma velha caminhonete. E a nota ligeiramente crtica na voz de Logan colocou-a na defensiva.
      - Acho que o assunto nunca veio  baila - disse friamente.
      - Com Dylan - retrucou Logan secamente - os assuntos mais importantes freqentemente no vem  baila.
      - Vou tomar cuidado com o Cimarron e com os ursos - falou Briana.
      Havia mais coisa que Logan queria dizer, ela podia sentir, mas ele devia ter aplacado o impulso.
      - Bom - disse ele, depois de muitos segundos. Nada mais, apenas Bom.
      Um homem de poucas palavras, portanto. Chamada em espera ligada. Como Briana no tinha identificador de chamadas, e como seus anjinhos bons haviam sussurrado 
que Logan a avisara e que ele no tinha razo de ser hostil, ela ignorou os bipes.
      - Talvez voc queira se juntar a ns para o jantar amanh - sugeriu ela, para compensar seus maus modos.
      Um rubor subiu por seu pescoo enquanto ela esperava pela resposta de Logan.
      - Posso levar alguma coisa? - perguntou ele de pronto.
      - No precisa - disse ela, estranhamente exultante por ele ter aceitado tacitamente o convite. Era apenas um jantar, uma cortesia de vizinho para vizinho. 
No era grande coisa. - O Parceiro tambm  bem-vindo, claro. Seis e meia? Chego do trabalho por volta das cinco e quinze e vou precisar de tempo para tomar uma 
ducha, cozinhar e tudo mais.
      Mais informaes do que ele precisava, pensou Briana, ficando ainda mais ruborizada. O que havia com ela?
      - Seis e meia - concordou ele, com um sorriso na voz. Era como se ele soubesse que ela estava vermelha da garganta at a raiz dos cabelos.
      Eles se despediram e desligaram. E, no instante em que a ligao terminou, o telefone tocou de novo.
      - Al - atendeu Briana. Ser que Logan j mudara de idia quanto ao jantar? Teria lembrado um compromisso anterior?
      - Oi - disse Vance. - Acabei de tentar falar e... Briana soltou um longo suspiro.
      - Eu estava numa outra conversa.
      - Voc ouviu minha mensagem?
      - Sim. Voc est pensando em fazer uma visita. - Baixou a voz, j que o quarto dos meninos ficava perto, e ela no botava a mo no fogo por eles, que bem poderiam 
estar colados do outro lado da porta com os ouvidos ligados em banda larga. - Alec vai ficar seriamente desapontado se voc no aparecer.
      - E quanto a voc, corao? - disse Vance com voz arrastada, caprichando no nmero de caubi que a sugara para a rbita dele da primeira vez. - E voc ficaria 
desapontada se eu no aparecesse?
      A presso sangnea de Briana subiu repentinamente. Ela esperou que a presso fosse  mxima e baixasse antes de responder:
      - Nem um pouco. Estamos divorciados, Vance. D-I-V-0-R-C-I-A-D-O-S.
      De modo atpico, ele recuou. Estava pegando leve, o que significava que ele queria algo.
      - O que h, Vance? - perguntou ela, to calmamente quanto pde. Se chegasse forte demais, ele iria simplesmente bater o telefone na sua cara. Mas ela tambm 
no ia aturar. - Voc no veio a Stillwater Springs quando Josh operou as amdalas no outono. Voc no deu as caras no Natal, no dia de Ao de Graas e nos aniversrios 
dos meninos. O que h de to importante para voc se dispor a viajar para to longe do circuito para dormir no sof da minha sala?
      Por debaixo da resposta de Vance, ouviu-se um suspiro longo e reticente de pacincia muito sofrida. Ele era to mal compreendido...
      - Eu s quero conversar com voc cara a cara, s isso. E ver os meninos.
      E ver os meninos.
      Como sempre, as observaes atrasadas.
      - Sobre o qu? - Briana quis saber, ainda lutando para manter a voz baixa. - Vance, me poupe, espera livrar-se de pagar a penso alimentcia de novo...
      - No se trata disso - ele interrompeu, fazendo-se de vtima. - Por que tudo sempre acaba em dinheiro com voc, Bri?
      - Se comigo tudo "acabasse em dinheiro", Vance Grant, voc estaria na cadeia neste instante. Josh e Alec so seus filhos. No se sente responsvel por eles?
      - Eu os amo - disse, passando de vtima a profundamente magoado.
      - Falar  fcil - replicou Briana.
      - Voc quer que eu v ou no? Posso chegar no sbado.
      - Eu trabalho no sbado.
      - Est bem - respondeu Vance, ento magnnimo. - Posso passear com os meninos at voc chegar em casa.
      Briana pensou em Alec, seu rosto to cheio de esperana. Depois era Josh, que ameaara fugir se Vance cumprisse a promessa de visit-los.
      - Alec vai ficar excitado - disse ela, a bem da verdade. - Boa sorte com Josh, no entanto.
      - O que h com meu camarada Josh?
      - Eu diria que ele v voc por dentro, Vance - respondeu Briana. Josh no precisava de um companheiro, precisava de um pai, conceito este bem alm da capacidade 
de compreenso de Vance.
      - E isso quer dizer o qu? - perguntou Vance, furioso. Esse  o Vance que conheo, pensou Briana. Acabou o sr.Rapaz Simptico.
      Pare de ati-lo, disse seu anjo da guarda.
      s vezes, tinha vontade de estrangular o anjo da guarda.
      - Descubra - disse ela.
      - Olhe, no preciso disso. Talvez fosse melhor se eu simplesmente permanecesse afastado.
      Briana fechou os olhos, mas a imagem de Alec continuava presente, ansioso por uma visita do pai que ele adorava. Ela teve de parar de pensar sobre o que ela 
mesma queria - nunca mais ter de olhar de novo para Vance - e levar em conta as necessidades de seus filhos. Certo ou errado, Vance era o pai deles, e assim como 
protestava, Josh queria uma relao com o pai tanto quanto Alec.
      - Desculpe - disse ela, quase engasgando com a palavra.
      - Sabe o que h de errado com voc? - retrucou Vance. Ele mudara de ttica de novo, girando o boto at a posio "charme". - Voc precisa de sexo.
      Imediatamente, Logan Creed veio  mente. O peito dele seria peludo ou macio, quando ele tirasse a camiseta? Briana deu uma sacudida em si mesma, por dentro.
      - Talvez eu precise - admitiu. - Mas no com voc. Portanto, no me venha com idias. Voc vai dormir no sof.
      - Meus planos eram esses mesmo - disse Vance. - Isso me faz lembrar... o sof  dobrvel?
      Ele fizera a mesma pergunta na mensagem que deixara na secretria eletrnica. Briana ficou confusa. E um pouco assustada.
      - Sim - confirmou devagar. ? Por que a pergunta? Vance riu entre os dentes, o que soou falso.
      - Fui jogado do lombo de muitos cavalos nos meus tempos - respondeu, - Preciso pensar nas minhas costas, agora que estou ficando velho.
      - Certo - disse Briana, ainda curiosa, mas sem querer levar o assunto adiante. Ela j havia, por assim dizer, conversado demais com Vance. Vinte minutos de 
sua vida jogados fora, e ela nunca mais os teria de volta.
      - Vejo voc no sbado - despediu-se Vance com alegria, como se ela estivesse ansiosa com a chegada dele, em vez de apreensiva, com todas as fibras de seu ser.
      - Vejo voc no sbado - repetiu ela, com desalento. Ento desligou o telefone.
      
      
      
      
      - Eu devia lhe dar um soco - disse Jim Cavalo Selvagem na manh seguinte, quando Logan foi atrs dele no Cassino Council Fire. Logan sorriu.
      ?Tambm fico muito feliz em ver voc de novo, amigo velho - ironizou ele, puxando uma cadeira junto a uma das mesas da lanchonete e fazendo sinal para que 
a garonete trouxesse um caf. Como Parceiro ficara do lado de fora, na caminhonete, ele no estava pensando em demorar muito tempo. Ia tomar o caf e partir. Deu 
uma olhada no fino terno preto de Jim. - Voc subiu na vida - disse Logan. - Gerente geral. Quem ia imaginar?
      - Quem ia imaginar - repetiu Jim, suavizando um pouco, mas no muito - que voc deixaria a cidade sem dizer "adeus" a seu melhor amigo? No telefonou. No 
mandou e-mails. Nada.
      - Quando o juiz relaxou minha priso depois da briga com Tyler e Dylan, ele disse que eu no desse as caras em Stillwater Springs antes de me acalmar.
      - Levou 12 anos para voc se acalmar?
      - Filho de peixe... - disse Logan, enquanto aprovava com a cabea o caf, servido numa xcara descartvel, e pegava a carteira.
      Jim fez sinal com a mo, dispensando a garonete e o dinheiro.
      - Voc pode dizer isso de novo. - Jim franziu o cenho, ainda ameaador. Ele ficou em p ao lado da mesa, sem dar sinal de que iria sentar-se, os grandes punhos 
fechados na cintura, como se fosse levar a cabo a ameaa inicial. - Voc  to louco quanto seu pai foi.
      - Estou de volta - anunciou Logan, depois de um gole cauteloso da infuso fumegante. - E exceto pela compra da comida no supermercado e por levar meu cachorro 
ao veterinrio, para fazer um checkup, esta  minha primeira parada.
      - Ser que h algum elogio escondido a? - perguntou Jim, franzindo o cenho.
      - Sente-se. Voc est projetando uma sombra do tamanho de uma montanha com o sol atrs de voc.
      - Estou trabalhando - frisou Jim. Mas puxou uma cadeira e sentou.
      - Voc  prioridade. Eis um elogio a voc.
      - Nossa, obrigado. Casei-me, nenhum parceiro do jardim de infncia para ser meu padrinho. Divorciei-me, ningum com quem encher a cara para esquecer. E sou 
uma "prioridade"?
      -  pegar ou largar - disse Logan. -  o melhor que posso fazer.
      Jim cedeu, afinal. Um sorriso escapou e iluminou de lado a lado seu rosto de ndio esculpido a cinzel.
      - Voc est apenas de passagem, talvez procurando briga com um de seus irmos? Ou finalmente caiu em si e decidiu que algum deveria voltar para c e cuidar 
do rancho?
      Logan deixou sobre a mesa uma gorjeta para a garonete, que, do lado de l do balco, os observava atentamente. Durante a frao de segundo que levou para 
que ele colocasse o dinheiro sobre a mesa, o rosto de Jim mudou. Ficou novamente sombrio.
      - Voc no vai vend-lo a algum caipira do cinema, vai? Logan fez que no com a cabea.
      - Vou ficar para sempre. - Esse refro estava se tornando familiar, como um anncio que se ouve com muita freqncia no rdio ou na tev.
      De novo, o sorriso deslumbrante. Aqueles dentes brancos e todo aquele papo de beleza selvagem certamente haviam funcionado com as mulheres quando eles eram 
jovens e saam atrs delas. Talvez ainda funcionassem, pensou Logan.
      - Voc est falando srio? - perguntou Jim.
      - Estou falando srio.
      - Voc tambm falou srio quando prometeu ser padrinho em meu casamento - observou Jim.
      - Eu estava no Iraque - disse Logan.
      - Voc esteve no Iraque?
      - No foi o que acabei de dizer?
      - S porque voc diz algo, Creed, isso no significa que seja verdade.
      - Quando minhas tralhas chegarem aqui, vou mostrar a voc a documentao. Dispensa honrosa. At algumas medalhas.
      Jim assobiou baixo.
      - Ento foi por isso que abandonou os rodeios. Voc sempre aparecia no canal de esportes na tev. Ento, de repente, sumiu. Voc foi convocado?
      - Eu me alistei - disse Logan. - Ser que podemos deixar de lado a conversa sobre o Iraque, agora mesmo?
      Jim franziu o cenho, claramente confuso. Ele mesmo era um veterano de guerra, e entre parceiros, os rapazes trocavam histrias de guerra.
      - Por que no?
      - Porque preciso beber muito at mesmo para pensar em combate, que dir falar sobre isso. E, dada minha gloriosa histria, para no mencionar a alta incidncia 
de alcoolismo no cl dos Creed, tento me limitar a uma cervejinha de vez em quando.
      - Oh - disse Jim. - Ruim, hein?
      - Ruim - admitiu Logan.
      - Voc era das Foras Especiais, certo?
      - Isso mesmo. E isso  falar sobre o Iraque. Estou sbrio como uma pedra e gostaria de continuar assim.
      - Tudo bem - concordou Jim rapidamente, levantando ambas as mos, com as palmas viradas para fora. - Tudo bem.
      Logan levantou-se.
      - S dei uma passada para dizer "ol" e que voltei. Meu cachorro est na caminhonete e tenho de me reunir com alguns empreiteiros. Alm disso, prometi passar 
na casa de Cassie antes de tomar o rumo de casa.
      Jim sorriu, levantando-se tambm.
      - Voc tem um cachorro e uma caminhonete? Voc est virando mesmo um caipira.
      - No - disse Logan, acenando para a garonete quando ela se virou para ir embora. - Ainda tenho meus dois dentes da frente.
      - No por muito tempo - brincou Jim - , se um de seus irmos estiver se coando para voltar, como voc voltou.
      Jim estava apenas zombando, mas as palavras acertaram um lugar ferido de Logan. Era demais esperar que os caminhos pessoais de Dylan e Tyler fizessem a volta 
e ventassem no rumo de casa, e que os trs pudessem chegar a algum tipo de acordo, mas Logan tinha esperana de que isso acontecesse, apesar de tudo.
      Seu amigo o acompanhou at a porta de entrada do cassino. Mquinas caa-nqueis piscavam e tilintavam ao redor deles. Logan perguntou a si mesmo como algum 
conseguia trabalhar naquele lugar, com todo aquele barulho.
      - Saio do trabalho s seis - disse Jim. - Quer jogar bilhar, tomar uma cerveja e recuperar o tempo perdido?
      - Esta noite no - respondeu Logan, lembrando o convite inesperado para jantar na casa de Briana. Ela ficara obviamente irritada quando ele mencionou Dylan. 
Depois, mudou de assunto e ofereceu-lhe um jantar. Mulheres eram imprevisveis. - J tenho planos.
      - At logo, ento - despediu-se Jim. - Prometo: nada de papo sobre guerra. Isto , a no ser que voc considere meu divrcio uma histria de guerra.
      Logan riu e deu um tapinha nos ombros de Jim.
      - A qualquer hora depois de hoje  noite - disse. - Voc sabe onde moro. Passe por l quando der.
      Jim anuiu com a cabea. Ento Logan dirigiu-se  caminhonete. Jim voltou para o cassino para fazer o que gerentes gerais desses lugares faziam.
      
      
      
      Ento, Brett Turlow pensou, logo ao entrar em seu carro depois de uma noite inteira de um pquer feroz no qual perdeu as calas: ele no era o nico a retornar 
 velha cidade natal depois de uma longa ausncia. A diferena era que ele voltara com o rabo entre as pernas. Logan Creed parecia um pouco animado demais para se 
achar que o caso dele fosse o mesmo.
      Brett afundou no banco do motorista do Corolla amassado que pegara emprestado com sua irm. Observou quando Creed subiu numa caminhonete consideravelmente 
maltratada, fez festa nas orelhas de seu cachorro e ligou o motor.
      O mais provvel era que Logan tivesse a inteno de vender o rancho, j que ningum se importava com o lugar, e levar a vida.
      Isso seria uma coisa boa, se ele fosse embora. Se, por outro lado, ficasse, seria um problema, pura e simplesmente.
      Com cara de sono, quase doente porque estava h doze horas sem comer e porque torrara no jogo grande parte de seu seguro-desemprego, Brett pensou em fazer 
algumas perguntinhas. Para descobrir quais eram as intenes de Creed. Enquanto isso, precisava dormir.
      
      
      
      
      Briana no se aproximou da lanchonete at que Logan tivesse ido embora. Ento entrou l bem relaxada, para dizer um ol a Millie, que era a nica garonete 
no servio, e tomar um caf com leite desnatado para manter-se firme durante a manh.
      Ela ficara acordada at tarde na noite anterior, tomando um caf atrs do outro, preocupada se Vance apareceria no sbado, preocupada se no apareceria. Precisava 
de cafena, rpido. Para rebater, por assim dizer.
      Os meninos ainda estavam em casa, advertidos, sob pena de morte, a se manterem afastados de Cimarron e do pomar, onde poderia haver ursos.
      - Voc viu aquele sujeito conversando com Jim? - entusiasmou-se Millie, comeando mecanicamente o preparo do caf com leite. - Muito lindo.
      Briana sentiu uma irritao de dona contrariada e um estmulo a seu estado de nimo, as duas coisas de uma s vez.
      - Os lindos so mortais - filosofou com leveza.
      - Sim ? respondeu Millie, de costas para Briana e olhando para ela por cima do ombro, enquanto o leite espumava sob o bico de vapor da sofisticada mquina 
de caf -  mas que jeito de ser. Vou perguntar ao Jim o nome dele.
      - No precisa - disse Briana. -  Logan Creed. Millie arregalou os olhos.
      - O do rancho Stillwater Springs?
      - Ele mesmo - confirmou Briana. Assim como ela, Millie estava na cidade fazia pouco tempo. Ela ouvira sobre os irmos Creed, no entanto. Eram quase heris 
do povo.
      Famosos por criarem confuso, principalmente, pelo que Briana sabia.
      - Ento voc o conhece? - perguntou Millie, passando o caf com leite.
      - Eu moro no rancho - lembrou Briana  amiga. - Isso faz de ns vizinhos. - Ela resumiu bem o resto da histria, que Logan iria jantar com ela e os meninos 
naquela noite, como se fosse um delicioso segredo de adolescente.
      Tola.
      Naquele instante, o rdio de Briana, preso a seu cinto, deu sinal de vida. Uma voz incorprea a informou de que algum acabara de ganhar uma bolada nas mquinas 
caa-nqueis - hora de ir at o trabalho.
      Ela agradeceu a Millie pelo caf com leite e partiu apressada.
      O prmio acumulado era dos grandes. Uma senhorinha de cabelos azuis que viera no nibus dos idosos tirara a sorte grande numa mquina, e Briana passou os 45 
minutos seguintes tratando da papelada.
      Na condio de gerente, Jim pagou o prmio em notas de cem dlares estalando de novas, sorrindo para a cmera bem  frente com a sortuda ganhadora.
      Depois que tudo terminou, Briana puxou seu chefe de lado para uma conversa.
      - Preciso de uma folga no sbado, se for possvel - disse ela.
      Jim franziu o cenho. Ele era um homem bom, levava o trabalho a srio e era focado em seus objetivos. Havia at um boato de que concorreria ao cargo de xerife, 
se o velho Floyd Book se aposentasse antes da hora por causa de problemas cardacos.
      - Os sbados so bem movimentados - lembrou Jim a Briana.
      - Eu sei - disse ela.
      Ele ento abriu para ela aquele sorriso que fizera muitas mulheres carem de joelhos. Jim e Briana haviam sado algumas vezes, depois de seus respectivos divrcios, 
mas no houve aquela fasca. Assim, quando ele foi promovido ao posto mais alto, os dois decidiram parar de se encontrar e ser amigos.
      - Ei - disse ele eu conheo voc. Se est pedindo uma folga,  porque  importante.
      Era importante? Vance chegaria no sbado, e ela estava nervosa com o fato de ele passar o dia com os meninos, sem ela. No havia perigo fsico - Vance nunca 
levantara a mo para ela ou para os filhos mas Alec e Josh podiam ser magoados to facilmente de outras maneiras.
      - Meu ex-marido vai voltar nesse dia - confidenciou. O sorriso de Jim desapareceu.
      - Oh.
      Percebendo o que ele estava pensando - que havia uma reconciliao para um futuro prximo - , Briana ruborizou.
      - No  nada disso - apressou-se em dizer. - S estou preocupada com o fato de os meninos ficarem sozinhos com ele o dia inteiro. Alec est sofrendo de um 
caso grave de adorao a um heri, e sabe Deus que idias Vance poderia enfiar na cabea dele. E Josh me disse que preferiria fugir...
      Jim levantou uma das mos.
      - Voc pode tirar folga no sbado - interrompeu. - Eu mesmo vou substituir voc. Mas voc fica me devendo um turno extra.
      Briana assentiu com a cabea, profundamente aliviada.
      - Obrigada, Jim.
      Ele sorriu, mas seus olhos escuros estavam preocupados.
      - Josh ameaou fugir?
      Jim conhecia os filhos de Briana, j que eles iam  lanchonete do cassino com tanta frequncia, e fora notavelmente tolerante com a presena deles. Muitos 
chefes no teriam sido to compreensivos, mas Jim tambm tinha um filho. Sam, de 4 anos, morava com a me em Missoula, e no o visitava com freqncia.
      Briana acariciou os braos dele.
      - No acho que Josh v realmente cair na estrada por conta prpria, mas prefiro no dar chance.
      Jim soltou um longo suspiro, passou a mo nos longos cabelos negros.
      - Crianas fazem bobagens s vezes - disse ele.
      Briana lembrou-se do touro no pasto de Dylan, e os ursos que aparentemente se alimentavam no pomar de vez em quando. Ela olhou de relance seu relgio. Era 
quase hora do almoo, ia telefonar para casa da sala de estar dos empregados, que ficava atrs de um dos trs restaurantes do cassino, para certificar-se de que 
Alec e Josh estavam seguindo suas ordens.
      - Sim - concordou ela, com atraso - , s vezes, elas fazem.
      Ela e Jim saram, ela rumo  sala de estar, direto para o telefone pblico. Ela precisava de um celular, mas isso no estava no oramento.
      Josh atendeu ao terceiro toque.
      - O Alec  um bobalho - disse ele, sem prembulo.
      - Mesmo se fosse verdade - respondeu Briana, acostumada s discusses interminveis entre os filhos ele  seu irmo. O que vocs esto tramando?
      - Alec est fazendo o doce de matemtica, e eu estava na internet at voc ligar. A Wanda comeu uma toupeira, ou coisa parecida. E est soltando uns peidos 
nojentos.
      - Sinto seu sofrimento, Josh - disse Briana bem-humorada. - E como foi que a Wanda conseguiu comer uma toupeira?
      - Eu disse "coisa parecida" - frisou Josh. Briana sorriu.
      - Joshua?
      - Tudo bem, foi o salsicho que sobrou de anteontem - disse Josh. - No foi idia minha dar a ela. Foi Alec quem deu.
      Tudo na mesma.
      - Voc vem pegar a gente? perguntou Josh. - Fica chato aqui, quando a gente nem pode ir l fora.
      - Sem tempo - disse Briana. - Vocs vo ter de agentar at eu chegar em casa. Vou dar uma parada no supermercado depois do trabalho. Ento, pode ser que eu 
me atrase alguns minutos.
      - O Alec est pensando mesmo que papai vai vir no sbado. Briana fechou os olhos.
      - Talvez - alertou ela, sem alterar o tom da voz. - Talvez ele venha no sbado.
      - Com papai  sempre "talvez" - disse Josh.
      -  bem verdade. Mesmo assim, me faa um favor. Evite os comentrios. Isso realmente aborrece o Alec.
      - Ele vive no mundo da fantasia.
      - Voc  o irmo mais velho - disse Briana. - Seja gentil com ele.
      Josh suspirou, fazendo drama.
      - Tudo bem, mas s at voc chegar em casa - respondeu ele. - Depois, a sorte est lanada.
      - Muito justo - disse Briana com um sorriso. Josh reagiu com um gemido de nojo.
      - O qu? - perguntou Briana, com ansiedade, pensando que a casa tivesse pegado fogo, ou que um assassino estivesse tentando arrombar a porta dos fundos.
      - A Wanda acaba de soltar um - reclamou Josh.
      - De novo! - Ao fundo, Alec gritou com prazer frentico.
      - Bobalho! - berrou Josh.
      - Sem xingamento, Josh - ralhou Briana. - Voc prometeu.
      - Est bem - retrucou Josh - , mas se voc no estiver aqui s cinco e meia, vou ter de mat-lo.
      - S tenho uma palavra para voc, Joshua Grant.
      - Qual?
      - Bab - respondeu Briana. Ento ela disse tchau e desligou o telefone.
      
      
      
      
    
    
    CAPTULO QUATRO
      
      
      
      
      
      Havia dois carros estacionados em frente  casa em runas de Cassie, nas cercanias da cidade. E ela rabiscara Com cliente na placa branca pregada ao lado da 
porta de entrada. Logan pegou o lpis amarrado a um cordo para embalagem esfarrapado, e acrescentou Estive aqui.
      Isto feito, deu meia-volta e se lanou pela propriedade. Parceiro farejava em torno da cabana, a coisa mais prxima de uma atrao turstica que Stillwater 
Springs, Montana, tinha a oferecer. Era autntica, construda  moda antiga, pelo pai de Cassie, de galhos de rvores e pele de alce, e ela cobrava 50 centavos por 
visita.
      Logan se aproximou, deixou cair duas moedas de 25 centavos na lata enferrujada que servia de caixa registradora - Cassie acreditava no sistema baseado na honestidade, 
e ele tambm - e entrou na fria penumbra onde ele, Dylan e Tyler haviam brincado quando meninos.
       Exceto pelo crculo feito de pedras cobertas de fuligem que ficava no centro do cmodo e era reservado ao fogo nos longos invernos, a cabana estava vazia. 
Os cobertores esfarrapados de que Logan se lembrava haviam sumido, assim como a concha para a cuia, o balde de madeira, as panelas de barro. No havia sinal tampouco 
das peles de urso imundas.
      Ele se sentou de pernas cruzadas, de frente para o lugar onde se acendia o fogo, a lareira, e imaginou as chamas danando na frente dele. Parceiro sentou-se 
a seu lado, um pouco inclinado sobre seu ombro.
      Talvez o animal soubesse que nos velhos tempos fazia parte do cardpio do jantar.
      Logan abraou o cachorro, deu-lhe um aperto tranquilizador.
      - Est tudo bem, garoto - disse ele. - Ningum vai cozinhar voc com feijo.
      Ao sentar-se, Logan dispersou-se numa espcie de meditao. Lembrando outras visitas, s vezes sozinho, s vezes com seus irmos. Eles sempre acendiam um fogo, 
enchendo a casa com uma fumaa que cheirava a couro e tirando as camisetas. s vezes, at pintavam seus peitos e rostos com a maquiagem esquecida por alguma das 
mes dos trs.
      Jake nunca jogava nada fora.
      Exceo feita, claro, s trs mulheres e aos trs filhos.
      Algo apertou dentro de Logan, e Parceiro pareceu sentir aquilo, como se os dois fossem ligados por alguma corda intangvel. O cachorro soltou um uivo gutural.
      O prprio tecido do tempo parecia esgarar-se com Logan sentado ali, esperando. Esticava e depois se contraa, at que, finalmente, ele no conseguisse mais 
medir a passagem dos segundos, dos minutos ou mesmo das horas.
      Do lado de fora, portas de carro bateram.
      Motores foram ligados.
      Parceiro afastou-se com cuidado do lado dele e, inquieto, foi at o lado de fora para dar uma olhada.
      Ainda assim, Logan no se mexeu.
      Ele sabia que a sombra volumosa na entrada era Cassie, mas no levantou os olhos para falar.
      - Vai ter de fazer as pazes com ele, voc sabe - disse ela em voz baixa.
      Logan no reagiu, nem para assentir com a cabea. Tampouco a olhou nos olhos. Ele sabia que ela se referia a Jake, o homem que ambos amavam e odiavam, com 
tal intensidade que, na maioria das vezes, ele no conseguia separar uma emoo da outra.
      - Ele no vai descansar enquanto voc no fizer as pazes - prosseguiu Cassie. Ento ela entrou na cabana, sentou-se no cho de frente para ele, com graa apesar 
de seu tamanho.
      Logan piscou, saiu da meditao, ou do que fosse aquilo. Sorriu.
      - Ainda fazendo adivinhaes. Entendo - observou ele, referindo-se ao cliente com quem ela estava quando ele chegou.
      -  como ganho a vida - admitiu ela, encolhendo os ombros e com sorriso meio tmido.
      - Voc no precisa ler cartas para ganhar uns trocados, Cassie - ele assinalou, como j fizera centenas de vezes antes. - Voc recebe com regularidade um cheque 
do conselho tribal.
      - Talvez no seja pelo dinheiro - insinuou Cassie com doura, rindo um pouco quando Parceiro deu uma focinhada nela e tentou sentar-se no seu colo largo.
      - O que voc diz a eles? - perguntou Logan. - A seus clientes?
      - Depende do que eu achar que eles precisam ouvir. - Ela o olhou com uma intensidade inquietante de to intensa. - Voc ligou para Dylan e Tyler?
      - Sim - respondeu ele. - Dylan basicamente se livrou de mim. Deixei uma mensagem pro Ty, mas ele no ligou de volta. - E sorriu. - Fora do gancho - concluiu.
      - Isso porque voc quer - disse Cassie.
      -  esta a parte em que voc vai me dizer o que acha que preciso ouvir?
      - Sim - respondeu ela, sucinta.
      Ele bufou.
      Parceiro se aconchegou nas coxas largas de Cassie, e ela no o empurrou. Em vez disso, acariciou as costas dele com indolncia, embora sua ateno ainda estivesse 
voltada para Logan, cem por cento.
      - Jake no vai descansar at que voc aceite ser filho dele - disse Cassie.
      Logan ficou furioso.
      - O que voc quer dizer com "ele no vai descansar"? Ele est morto, foi-se, passou pro lado de l, no importa. Talvez o tenham deixado entrar no cu, mas 
aposto que ele apanha sua correspondncia no inferno.
      - Que amargura - criticou Cassie, num tom de enfado, - Ningum  de todo mau, Logan. Inclusive Jake Creed.
      - Ele era um filho da me. Cassie franziu o cenho.
      - Errado. Sua av era uma mulher distinta.
      Logan no disse nada. Ele no conhecera a av, tampouco o av. Ambos haviam morrido muito antes dele nascer. E Jake no contava histrias sobre os pais, nem 
mantinha por perto fotos deles.
      - As pessoas vm para esta vida com uma misso a cumprir, Logan - disse-lhe Cassie em voz baixa. - s vezes, ela  simples. Outras vezes, complicada. Jake 
fez o que tinha de fazer.
      - O qu? Arranjar confuso?
      - Ele fez de voc um forte. Voc, Dylan e Tyler. Vocs so duros, resistentes como as paredes desta cabana, todos os trs.
      - Teria sido mais fcil - disse Logan - se ele tivesse simplesmente me dado o nome de Sue.
      Cassie riu.
      - Mais fcil no  necessariamente melhor - frisou ela. Logan quis refutar a afirmao, mas mesmo com toda sua prtica jurdica, no conseguiu pensar num argumento 
slido.
      - Liguei para meus irmos - disse. - A bola est com eles. O que se pode fazer alm disso?
      - Voc no esteve no tmulo de Jake, esteve? Logan ficou tenso. Com a cabea, disse que no. Cassie, parecia, olhava para tudo: arbustos, rvores, paredes. 
De algum modo, ela sempre soubera o que ele havia e o que no havia feito. Pior, ela acreditava ter o direito de tecer comentrios sobre isso.
      - As coisas dele continuam empacotadas e guardadas, tambm.  conveniente, no ? Porque assim voc no tem de lembrar to facilmente.
      - Eu voltei, no voltei? Mais uma vez, Cassie encolheu um ombro.
      - Voc no vai ficar se no acertar as coisas com o Jake - sentenciou ela. - Eu sei qual  seu sonho: fazer o nome Creed significar algo de bom. E posso lhe 
dizer que  mais que apenas um sonho.  uma busca... a coisa mais importante que voc jamais far. - Nesse momento, ela fez uma pausa e olhou para cima e em volta 
dentro da cabana, como de os seus antepassados rondassem pelo ar ou coisa assim. Quando seu olhar castanho se encontrou com o de Logan, ele se sentiu como uma borboleta 
de asas presas com alfinetes a uma moldura. - Voc vai fracassar se no souber quem voc ... por inteiro. No apenas o diploma de direito e as sofisticadas fivelas 
de cinto prateadas que ganhou nos rodeios, ou todo aquele dinheiro que finge no ter. Voc tem de aceitar que  carne da carne de Jake Creed, osso do seu osso, sangue 
do seu sangue, e que nada vai mudar isso.
      Logan mudou de posio, levantou-se.
      - Ele era um patife - criticou. - Se eu pudesse ser filho de qualquer outra pessoa, de qualquer outra, eu seria.
      - Bem - disse Cassie implacvel, tirando Parceiro com jeito de seu colo e ento aceitando hesitante a mo que Logan lhe oferecia para que levantasse - , voc 
no . Eis algo que sei com certeza.
      - Talvez voc devesse ter dito a ele - replicou Logan com o sangue fervendo. - Ele costumava dizer de outra maneira. Dizia que Teresa era uma prostituta. Voc 
sabia disso? Praticamente toda vez que ficava bbado, o que era freqente, ele me dizia que ela o traa e que eu provavelmente no era filho dele. - Ele se inclinou 
 frente, apesar do gesto de dor que notou no rosto largo e bondoso. - E o que voc sabe? Eu pedia a Deus que fosse verdade na poca, e peo o mesmo agora!
      Cassie defendeu sua posio, como sempre fazia. Era um trao que ele exaltava nela, mesmo quando odiava o que ela dizia.
      - Como  que isso vai se resolver, Logan? - perguntou ela em voz baixa. - Toda essa vontade?
      Ele cravou os olhos nela. Ela esperou.
      - Voc tem tanta certeza de que ele no estava dizendo a verdade uma vez naquela vida infeliz e intil que levava?
      - Teresa era fiel ao marido. Ela o amava. Ela amava voc. - Cassie inspirou fundo e meio ofegante. - Alm disso, voc tem a estrutura ssea do Jake. O temperamento 
dele, tambm. E aquele trao de enorme teimosia que deveria constar nos dicionrios sob o verbete "Creed".
      - Grande - disse Logan, cedendo um pouco por dentro, agora que desabafara. - E o que devo fazer com todas essas informaes, oh, grande feiticeira?
      - Quebrar a maldio - respondeu Cassie. - Faa escolhas diferentes das que Jake fez. Encontre uma mulher, ame-a de todo o corao, mente, corpo e alma. Tenha 
filhos com ela. Fique ao lado dela, e das crianas, para que dure. - Ela fez uma pausa e olhou-o com uma espcie de pena carinhosa, o que o irritou mais do que os 
desafios que ela acabara de lanar a ele. - Voc est fugindo desde o dia em que enterraram Jake - prosseguiu ela, tocando o brao dele. - Voltar para c foi um 
grande feito. Sei disso. Mas, enquanto no conseguir perdoar Jake... perdo-lo para valer... voc continuar confuso, no importa aonde v ou o que faa.
      Logan passou uma das mos pelos cabelos.
      - No consigo - disse.
      - Ento voc e seu cachorro bem que poderiam entrar naquela velha caminhonete e seguir viagem, pois esto perdendo tempo aqui. - Lgrimas reluziram nos olhos 
sbios e castanhos de Cassie. - Para todos os efeitos, os que importam, Teresa era minha filha. Sei o que ela teve de passar com Jake... Maggie e a pobre Angela 
tambm. Tive de deixar tudo como estava, Logan... o dio, o desejo de vingana... porque aquilo estava me consumindo por dentro. D uma olhada em sua vida. Seus 
irmos so como estranhos para voc. Duas vezes, voc casou com a mulher errada. O rancho... seu legado, sua herana... est praticamente em runas. Voc no pode 
simplesmente ignorar tudo isso. Voc tem de consertar as coisas.
      - Como? - quis saber Logan, furioso porque tudo aquilo era verdade.
      Cassie sorriu.
      - Os casamentos j ficaram para trs - disse ela. - Voc continuou amigo de suas ex-mulheres?
      Amigos? Aquilo doeu em Logan. Ele amara Susan, ou pelo menos achava que amara. Quando no estavam fazendo sexo animalesco, eram indiferentes um com o outro. 
Agora, ela era feliz, casada com um dentista que estava ficando careca e que tinha uma barriguinha. E esperando o segundo filho. Ele fizera um acordo financeiro 
com ela quando sua empresa comeou a dar certo, muitos anos depois do divrcio. E a colocara no nome das crianas. Ainda assim, da ltima vez em que a vira, percebeu 
nos olhos dela que mal continha a vontade de cuspir na cara dele.
      - Nem tanto - admitiu. Ele ainda falava com Laurie de vez em quando. Em geral, quando ela precisava de algo. Ela usou o dinheiro do acordo do divrcio para 
abrir um salo de cabeleireiro em Santa Mnica, e da ltima vez em que haviam se falado, ela lhe contou tudo sobre sua recente cerimnia de casamento numa praia 
ao pr do sol.
      Ela se casara consigo mesma. Vestido branco, vu bolo e tudo mais.
      Ainda assim, aquilo era um avano em comparao com o fato de ter sido casada com ele, pensou Logan, com remorso. Exceto, como ele disse a si mesmo, pelo sexo.
      Isso tinha sido mais do que bom. Com ambas, Susan e Laurie.
      Era tambm tudo de que sentia falta na vida de casado.
      - Elas so felizes? - perguntou Cassie, indagando ostensivamente a respeito das ex-mulheres.
      Ele assentiu com a cabea.
      - Nada como se divorciar de um dos homens da famlia Creed para uma mulher melhorar suas perspectivas de vida - disse Logan.
      Cassie riu. Uma luz poeirenta se esparramou na cabana quando ela puxou para o lado a portinhola para sair. Parceiro foi na frente e Logan a seguiu.
      O sol o ofuscou, o fez catar seus culos de sol, que ele deixara sobre o painel da Dodge.
      Um outro carro entrou pelo caminho de acesso, estacionou ao lado da caminhonete.
      -  Elsie Black - disse Cassie, com um suspiro resignado. - Ela vai me perguntar se vejo um homem no futuro dela, como sempre faz quando vem para uma consulta. 
Eu deveria dizer que ela estaria em melhores condies se casasse consigo mesma, como a Laurie fez.
      Logan piscou os olhos.
      - Voc sabia disso?
      - Claro que sabia - respondeu Cassie com animao, e a forma como o dispensou foi to clara como se tivesse dito de pronto que se enfiasse na caminhonete e 
fosse para casa naquele instante. - Ela enviou o comunicado pelos correios, com um retrato dela de vestido branco. Mandei uma torradeira de presente para ela.
      Logan revirava os olhos enquanto Cassie se afastava.
      
      
      
      Entrando as pressas na cozinha, com uma sacola de supermercado em cada mo, Briana inspecionou seus domnios. As bancadas estavam arrumadas, exceto pelos vestgios 
do almoo - sanduches de queijo quente, ela supunha, por causa das cascas de po torradas. Os tnis estavam alinhados bem do lado da porta dos fundos e os dois 
meninos pareciam angelicais o suficiente para acender velas numa missa no Vaticano. S Wanda  que estava do mesmo jeito de sempre.
      - Tudo bem - disse Briana com desconfiana, fazendo malabarismo com as sacolas e se dirigindo  mesa sobre a qual as colocaria. - Meninos, o que vocs andaram 
aprontando?
      - Eu estava fazendo meu dever de casa de histria no computador - disse Josh com altivez. E qualquer que tenha sido a pgina da internet em que ele estivera 
pesquisando sumira no ciberesquecimento com o clique do mouse.
      - E eu varri o cho - disse Alec. - Depois de ter feito meu dever de casa, claro. Se no, esse cara-fedida no ia deixar eu usar o computador.
      - O que foi que eu disse? Sem xingamento. Os meninos trocaram olhares venenosos.
      - No faa isso - disseram em coro, com voz soturna. Briana vinha se preocupando com a possibilidade de Alec e Josh irem em direo ao pomar - ele estava cheio 
de ursos, pelo que Logan dissera - ou correrem at o pasto de Cimarron para brincar de toureiro no momento em que ela sumira de vista naquela manh. Ou ambas as 
coisas.
      - O que vai ter para o jantar? - perguntou Alec, quando Briana comeou a tirar as coisas das sacolas: leite, latas de sopa tamanho famlia, embalagens de hambrguer 
e de peito de frango, po e frutas frescas, batatas congeladas comprimidas em pequenos cilindros.
      - Um guisado - revelou ela.
      Alec franziu a testa em claro sinal de desaprovao quando Wanda arranhou, feliz, a porta dos fundos, pedindo para sair.
      ? Voc lembra que a gente tem visita hoje  noite?
      Briana sorriu com pressa, foi abrir a porta para Wanda, depois guardou tudo, exceto a sopa, quase um quilo de hambrguer sem gordura e a poro de batatas.
      - Sim, Alec - respondeu ela. - Eu lembro.
      - Acho que caubis comem bife - observou Josh, aproximando-se. Aquele guisado em particular era a especialidade de Briana, que seu pai a ensinara como preparar. 
E os meninos adoravam.
      Normalmente.
      - No, hoje  noite, eles no comem - retrucou ela, indo at a pia para lavar as mos antes de preparar a refeio. Ela tomaria uma ducha enquanto o prato 
estivesse no fogo. E passaria rimei e batom tambm. No daria tempo de lavar os cabelos. Portanto, os enrolaria e faria um coque na nuca, bem preso, e torceria para 
tudo dar certo. - Hoje  noite vai ser a Caarola do Louco ou nada.
      Alec fez uma careta.
      - O Josh est certo - concordou ele, num tom de odeio-ter-de-admitir. - Caubis gostam de bifes e coisas do tipo.
      - Desculpem - disse Briana, soando meio agitada. Wanda continuava a arranhar a porta. - No tem bife. Algum a bote a cachorra para dentro, por favor.
      Josh fez as honras da casa, depois de uma rpida encarada em Alec.
      - E d comida a ela - acrescentou Briana.
      - Ficamos o dia inteiro enjaulados dentro de casa - reclamou Josh, parecendo um escravo carregando material de construo para uma pirmide quando enfiou a 
tina de Wanda no saco de rao, trazendo-a de volta bem cheia e colocando-a no cho. - E estava torcendo para que a gente fizesse outro piquenique no cemitrio.
      - Eu disse o que o sr. Cre... Logan disse sobre os ursos.
      - Quando foi que voc viu um urso pela ltima vez, me? - insistiu Josh.
      Briana suspirou. Ela nunca vira um urso, pelo menos no nos arredores de Stillwater Springs, o que provavelmente foi o motivo por que Dylan no a advertira 
quando ela e os meninos se mudaram para a casa. Ele lhe dissera, em uma de suas raras conversas telefnicas, que o cho do poro estava ruindo em vrios lugares, 
que a fornalha precisava de bons reparos para estar funcionando bem quando a temperatura enregelante do inverno chegasse, e que ela devia deixar o vizinho alimentar 
Cimarron e se manter longe dele.
      Se ursos fossem uma ameaa, ele no teria dito algo?
      Jim Cavalo Selvagem ou uma das dezenas de outras pessoas na cidade no teriam dito algo?
      O humor dela, j ligeiramente desequilibrado, ficou um pouco mais sombrio. Ou Logan estava paranico com relao aos ursos, ou simplesmente no queria que 
ela e os filhos administrassem a propriedade.
      Por um instante, desejou no t-lo convidado para vir naquela noite ou em qualquer outra. Que outros medos ridculos ele colocaria em sua cabea?
      - Quando, me? - perguntou Josh, porque ele nunca deixava qualquer assunto de lado antes de estar certo de t-lo esgotado por inteiro.
      - Tudo bem - falou ela. ? Ns ainda podemos ir ao cemitrio fazer piqueniques, mas no essa noite. No vou levar uma caarola quente atravs do riacho.
      Josh e Alec bateram as mos num gesto de rara concrdia.
      Rapidamente, ela jogou o hambrguer em uma frigideira de metal, enxugou-o, misturou-o com um molho feito a base de sopa de cogumelos e algumas cebolas desidratadas, 
derramou uma preparado de batatas por cima e colocou no forno.
      O telefone tocou quando ela saa do banho.
      Seria Vance, ligando para dizer que chegaria mais cedo ou que no viria?
      Logan, declinando o convite para o jantar?
      A porta do banheiro se abriu e a cabea de Alec surgiu pela abertura, os olhos fechados com firmeza.
      - Me!
      Briana, enrolada na toalha, riu com a viso.
      - Que foi?
      - Ns ganhamos uma semana de frias no lago Tahoe - falou Alec. - A gente s precisa escolher a data e ver um vdeo. Eles vo pagar at a viagem de avio!
      - Isso  enganao, s propaganda - disse Briana, pegando o roupo com a mo livre. - Desligue.
      - Mas eu disse ao moo que voc estava no banho e que eu ia vir chamar voc. Me a gente ganhou.
      Briana j vestira o roupo e apertara o cinto firmemente.
      - Voc pode abrir os olhos agora, Alec - avisou ela. - J estou vestida. Volte l, diga ao "moo" que no estamos interessados e desligue.
      Alec foi at a cozinha fazer o que mandara - assim esperava Briana - e ela entrou no quarto para vestir roupas de baixo limpas, short de jeans e uma camiseta 
branca. Calou sandlias, prendeu o cabelo, ps um pouco da lavanda que os meninos lhe deram no Natal e examinou seu reflexo no espelho embaado da escrivaninha.
      Estava definitivamente precisando de rimei e de gloss, pensou.
      O cheiro apetitoso da caarola preenchia a cozinha quando ela entrou. Ficou plida, um pouco abalada, ao ver Logan sentado  mesa da sozinha, com Josh sentado 
a seu lado direito e Alec ao esquerdo.
      - Cheguei cedo - disse ele, com um olhar de desculpas, ao se levantar da cadeira. Trouxera flores silvestres em um recipiente de lata e uma garrafa de vinho 
leve, os quais repousavam sobre a mesa.
      Ela apreciou as boas maneiras. Mas ele estava muito bem em seu jeans novo e sua camisa engomada, aberta no colarinho. O cabelo negro ainda estava molhado do 
banho e havia pequenas protuberncias por onde ele passara a escova.
      A porta dos fundos estava aberta e, atravs da tela, Briana viu Parceiro dormindo contente no alpendre. Precisara desviar os olhos de Logan um instante para 
acalmar os nervos, mas agora voltara a encar-lo.
      - Tudo bem - falou ela, com muita vivacidade e um pouco tarde demais. - O jantar est pronto.
      - O cheiro est timo - elogiou Logan. Ele parecia tmido. Ela sabia que ele no era. Estaria representando?
      -  um prato maravilhoso, tpico do Louco ? explicou Alec com orgulho, tendo evidentemente superado sua fixao anterior para que fosse servido bife.
      Logan, sentando-se de novo a partir de um aceno de cabea de Briana, ergueu uma sobrancelha e um leve sorriso entortou o canto de sua boca.
      - Quem  o Louco? - perguntou ele.
      - Nosso av - respondeu Josh. - Ele era um palhao de rodeio famoso.
      - Ah - falou Logan, sem tirar os olhos do rosto de Briana. - Esse Louco.
      - Voc o conhecia? - perguntou Alec, superintrigado. A expresso dele parecia dizer que aquilo era melhor do que "ganhar" uma viagem para o lago Tahoe. At 
suas sardas pareciam mais vivas.
      - Eu o vi atuar algumas vezes, quando tinha mais ou menos sua idade - respondeu Logan, passando os olhos para Alec e, de alguma maneira, conseguindo manter 
Josh em seu campo de viso tambm. - Eu queria ser McIntyre, o Louco, quando crescesse. Acabei sendo eu mesmo.
      Briana estava ocupada pondo a mesa. Logan provavelmente j comera nos mesmos pratos que usariam naquela noite, pensava ela ocasionalmente, quando ele e Dylan 
eram como irmos normais. Se  que eles algum dia foram irmos normais.
      - A gente tem um lbum cheio de fotos dele! - disse Alec.
      - Depois do jantar - falou Briana com um sorriso de lbios um tanto apertados.
      Os garotos no perceberam.
      Logan, sim. O olhar dele permaneceu colado ao rosto dela, antes de voltar para Alec, fazendo com que cada clula do corpo de Briana saltasse.
      - Gostaria multo de ver - disse Logan. - Na hora certa. Briana ordenou-se a se acalmar e parar de tolices, mas foi intil. Seria apenas um jantar entre vizinhos, 
e s, mas parecia haver algo mais.
      Parecia uma espcie de comeo.
      Briana no gostava de comeos, porque eles inevitavelmente acabavam se transformando em fins. Se lhe fosse dado escolher, permaneceria o resto da vida em paz, 
longe das grandes emoes. O presente, ainda que tivesse seus problemas, era um terreno que ela conhecia.
      Tinha seus filhos e um lugar para morar, e um emprego que pagava suas contas.
      E isso era suficiente, no era?
      A caarola foi um sucesso. Logan comeu dois pratos, embora sem tocar no vinho. Quando ele abrira a garrafa a certa altura, Briana aceitara uma taa, tomou 
dois goles nervosos e resolveu que ficaria melhor se no bebesse. Mesmo que fosse pouco.
      A verdade era que ela j estava confusa o bastante sem o lcool para aumentar a confuso. Talvez Vance estivesse certo ao acus-la de estar carente.
      Passara semanas sem pensar em fazer amor.
      Agora, com Logan Creed sentado  mesa, parecendo incrivelmente belo em sua roupa de caubi, algo primitivo estava atiando certas partes da anatomia de Briana.
      No daria certo.
      Assim que todos terminaram de comer, Briana se levantou e comeou a se mover, limpando a mesa. Normalmente, fazia Alec e Josh lavarem os pratos, mas naquela 
noite ela precisava se manter ocupada.
      Ento comeou a se mexer pela cozinha como uma abelha presa dentro de um pote de gelia. At Wanda a olhava com curiosidade.
      Logan tentou ajud-la com os pratos, mas ela meio que o afastou com os ombros. Tudo o que no queria era aquele homem ao seu lado na pia ou em qualquer outro 
lugar. O cheiro da colnia dele - se  que era isso o que estava usando - fazia com que Briana se sentisse embriagada. Logan tinha odor de roupas secas ao sol, grama 
recm-aparada e sol.
      Josh pegou o lbum de fotos de seu lugar solene na sala de estar e o abriu sobre a mesa recm-esvaziada.
      - Esse  ele - falou o garoto para Logan, apontando para uma velha fotografia em preto e branco com o dedo indicador. - Esse  meu av, Bill McIntyre, o Louco.
      Briana havia tempos se acostumara ao fato de que seus filhos jamais conheceriam de verdade o av. Mesmo assim, seus olhos arderam de repente e a garganta ficou 
apertada.
      O ngulo da cabea de Logan, inclinada sobre o lbum, tocara em algo tnue dentro dela. Ela queria que ele simplesmente se levantasse e partisse. Queria com 
mais fora ainda que ele ficasse.
      Estava ficando louca.
      Como se percebesse que ela o olhava, Logan ergueu os olhos.
      - Mame diz que os palhaos so os homens mais valentes do rodeio - falou Alec, um tanto orgulhoso.
      - Ela est certa ? confirmou Logan, ainda olhando para Briana. - Eles salvaram minha... vida uma ou duas vezes.
      Briana tentou ao mximo desviar os olhos e percebeu que no conseguia.
      - Viu? - falou Josh, maravilhado ao ver que estava certo. - Eu disse a voc que Logan era um caubi!
      As bochechas de Briana arderam. Desvie os olhos, implorou em silncio, porque eu no consigo.
      - Voc lutou na guerra? - perguntou Alec, impressionado de novo. Ou ainda.
      - Sim - afirmou Logan. A voz dele saiu spera e ele limpou a garganta. - No teve muita importncia para mim.
      No teve muita importncia para mim. A prpria maneira como ele dissera as palavras marcavam o efeito atenuante da passagem do tempo.
      - A gente normalmente leva Wanda para um passeio depois do jantar - falou Josh.
      Logan ficou claramente feliz pela mudana de assunto. Empurrou a cadeira para trs, sorrindo:
      - Parece uma boa idia - respondeu. - Parceiro e eu podemos ir junto?
      - E se a gente topar com um urso? - perguntou Briana, erguendo as sobrancelhas. Terminara de lavar os pratos, pusera o pano de prato sobre eles, os copos e 
os talheres no secador.
      Logan riu.
      - Bom - disse ele ? eu no recomendaria correr. Um urso pode alcanar um cavalo rpido. Subir em uma rvore tambm no, porque eles tambm so geis nisso. 
Acho que teria de lutar mano a mano com ele, como o velho Daniel Boone.
      - A gente  parente de Daniel Boone - disse Josh.
      - Mas isso todo mundo  - brincou Logan. Josh gargalhou.
      Logan abriu a tela da porta e todos saram, Briana por ltimo.
      Ela seria capaz de jurar que Logan a estava olhando - bem, para suas costas - quando passou por ele.
      Parceiro e Wanda trotavam  frente, felizes com a perspectiva de uma caminhada, e os garotos iam logo atrs.
      - Eles gostam de voc - disse Briana a Logan.
      - Isso  bom, no ?
      Ela virou a cabea para olhar o rosto dele:
      - Depende - falou. - Eles sentem falta do pai. Seria fcil para eles...
      - O qu? - perguntou calmamente Logan.
      - Acabar gostando muito de voc - respondeu Briana, envergonhada.
      - Eu sou inofensivo - disse Logan.
      - No acho - respondeu Briana.
      Caminharam em silncio um pouco, observando os dois garotos e os dois cachorros saltitando mais  frente.
      Ainda que o sol fosse permanecer no cu por pelo menos mais uma hora, as primeiras estrelas comeavam a despontar e a lua estava visvel. O ar do campo cheirava 
a feno, capim e terra frtil.
      Ou era Logan?
      Ela mal tocara no vinho, mas Briana Grant se sentia moderadamente embriagada.
      - Por que voc me disse para ter cuidado com os ursos? - perguntou ela. - Quase fiquei com medo de deixar os garotos sarem de casa.
      Ele no pegou a mo dela, mas se aproximou, os ns de seus dedos se encontraram e um arrepio passou pelo corpo inteiro de Briana.
      - No foi para assust-la - disse Logan. - Os ursos se alimentam geralmente no aterro sanitrio, do outro lado da cidade. Mas de vez em quando vm ao pomar. 
Eu diria que o motivo disso  as pessoas terem invadido seu hbitat, mas o fato  que eles escalam pereiras e macieiras sempre que os frutos comeam a brotar. Isso 
desde os tempos do velho Josiah Creed.
      Briana estremeceu, abraou o prprio corpo, embora a noite estivesse quente.
      - Os ursos so como a maioria dos animais selvagens - continuou Logan. - S so perigosos caso se sintam ameaados, e isso acontece quando so pegos de surpresa.
      - Acho que vou bater com uma colher no fundo de uma panela ou algo do tipo - falou Briana, sria. - Quando formos ao cemitrio, quero dizer. No h motivo 
para passarmos pelo pomar.
      Logan sorriu.
      - Voc pode fazer isso - disse ele. Ele estava rindo dela? Briana empinou o corpo um pouco. - No quero que meus meninos tenham medo - falou ela. Nem mesmo 
de ursos.
      - Um pouco de medo  algo saudvel s vezes - respondeu Logan. - Especialmente quando se trata de ursos. E daquele touro velho de Dylan.
       Ela olhou de lado para Logan, mas o que quer que tenha transparecido em sua voz quando citou o irmo no surgiu no rosto ou na postura.
      - Nunca tivemos problema com Cimarron - afirmou Briana.
      - Seja como for, s Deus sabe por que ele continua com aquele touro - brincou Logan, com um balanar distrado da cabea. - Ele no cria gado. S faria sentido 
se ele tivesse vacas.
      - Voc no gosta muito dele, no ?
      - Cimarron? - perguntou Logan, esquivando-se.
      - Dylan - falou Briana.
      - Eu no diria isso.
      - O que voc diria, ento?
      - Que tivemos um desentendimento h muito tempo - contou Logan. O tom da voz era duro; ela extrapolara. - Acontece entre irmos.
      Briana olhou mais  frente, para os garotos, e sentiu a onda imensa de amor incondicional que geralmente surgia ao v-los.
      - Alec e Josh brigam o tempo todo - confessou ela. - Mas eu no agentaria se eles se odiassem quando crescessem.
      Logan ficou calado durante alguns segundos antes de responder:
      - Eu no odeio Dylan.
      Briana olhou para ele, viu que seu maxilar estava rgido. Como j falara demais, resolveu conter a lngua. No havia sentido em fazer mais perguntas.
      Logan assobiou, o som saiu baixo e distintamente masculino, e os dois garotos, juntamente com os cachorros, voltaram ao ouvir o sinal, correndo a seu encontro.
      - Obrigado pelo jantar - falou Logan. -  melhor Parceiro e eu irmos para casa agora. Amanh ser um dia e tanto.
      Briana apenas fez um sinal positivo com a cabea.
      Logan se despediu dos garotos e ento ele e Parceiro seguiram na direo do pomar. Se algum dos dois estava com medo de encontrar um urso no demonstraram, 
pela maneira tranqila como passeavam pela vereda campestre.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO CINCO
      
      
      
      
      
      
      O telefone celular de Logan tocou quando ele atravessava o pomar. O cachorro pulava alegremente a seu lado. Ele fez uma careta ao olhar para o mostrador do 
telefone, engoliu em seco e pressionou a tecla para atender.
      - Oi, Ty - disse ele.
      A frieza que veio em resposta foi sentida em uma frao de segundo, saindo de Tyler at algum satlite, voltando diretamente para a orelha direita de Logan 
e ressoando por toda a sua cabea.
      - Voc deixou recado? - perguntou Tyler. A voz dele estava grossa. Da ltima vez que se falaram ela ainda estava mudando.
      Logan reprimiu um suspiro.
      - Precisamos nos falar - disse ele.
      - Talvez voc precise falar, irmo mais velho - respondeu Tyler - , mas eu no tenho nada para falar com voc.
      Logan parou no meio do pomar e olhou para os galhos das rvores acima de sua cabea, para o caso de um urso estar prestes a cair sobre ele. O peso do que havia 
entre ele e Tyler era maior do que qualquer coisa que pudesse cair de uma rvore, no entanto.
      - No desligue, sim? - pediu ele. Foi preciso engolir um pouco de seu orgulho antes de dizer essas palavras.
      - D-me um motivo bom o bastante para no faz-lo - respondeu Tyler na hora, mas ao menos permaneceu na linha. Ainda escutando. Se  que aquele silncio de 
pedra podia ser considerado escutar.
      - Porque ns somos irmos.
      Ty riu, mas no havia humor em seu tom, apenas a profunda frieza que recepcionara o primeiro "oi" de Logan e que se expandia como uma neblina rasteira sobre 
um terreno encharcado de chuva.
      - Foi uma boa tentativa - ironizou Tyler. - E ns somos meio-irmos. Adivinhe que parte da famlia prefiro?
      - Esse  muito fcil - disse Logan, voltando a andar vagarosamente. Parceiro estava olhando para ele a cada passo, daquele seu jeito assustado. - A parte que 
no tem a ver comigo.
      - Exato. O que voc quer, Logan? No pode ser dinheiro, voc tem bastante. Se  minha assinatura em um contrato para a venda do rancho, pode esquecer.
      Logan seguiu em frente, rangendo os dentes.
      - No falei nada sobre venda de rancho - disse ele, soltando ar pelo nariz. - Dylan reagiu do mesmo...
      - Voc falou com Dylan?
      - Sim, ontem.
      - Se voc falar com ele de novo, diga que ele  um medroso. Apesar de tudo, Logan sorriu. Ele e Parceiro deixaram o pomar para trs e o cachorro seguiu adiante 
para cheirar um amontoado de madeira para cerca, toras e outros materiais de construo que deviam ter sido entregues enquanto ele estava jantando com Briana e as 
crianas.
      - Diga isso a ele voc mesmo - falou Logan.
      Houve um segundo instante de silncio. Depois, Tyler repetiu a pergunta pertinente:
      - O que... voc... quer?
      Logan pensara muito sobre o assunto desde que ele e Dylan tiveram uma conversa semelhante. No sabia exatamente o que responder, ento inventou algo:
      - Estou pensando em fazer uma reforma na casa do rancho, construir um novo estbulo. Trocar algumas cercas. J que voc e Dylan possuem partes iguais do rancho, 
pensei que talvez voc quisesse dar uma olhada. Aprovar as mudanas.
      Outro silncio.
      - Voc ainda est a? - perguntou Logan por fim, rouco. Chegara  entrada da frente enquanto isso, mas no estava pronto para entrar, ento se sentou na escada. 
Parceiro perseguia um inseto que voava baixo sobre a grama, abrindo e fechando a boca sem conseguir peg-lo.
      - No tenho nenhuma opinio a dar sobre a reforma da casa - disse Tyler, aps uma longa pausa. Sua voz parecia equilibrada, mas carregada de ressentimento. 
- Construa o estbulo, se quiser. Voc nunca precisou de minha aprovao antes, ento por que isso agora?
      - Estou com planos de criar gado - respondeu Logan. - Para impedir que eles fujam, preciso colocar cercas ao redor do pasto, e parte desse terreno  seu.
      - E se eu no quiser que voc crie gado em minha parte do terreno?
       um brigo, pensou Logan, rindo amargamente.
      - Ento  melhor vir at aqui e tentar me impedir - rebateu ele. - E, quando for dizer a Dylan que ele  um medroso, conte sobre a reforma.
      Tyler soltou um xingamento. Mas ainda assim no desligou.
      Logan se perguntava se aquilo era um bom sinal ou se o irmo mais novo estava simplesmente tentando arrumar briga, mesmo a longa distncia. Talvez as pessoas 
com quem ele andava agora fossem muito boazinhas e no lhe dessem oportunidade para isso.
      No parecia ser o caso.
      - No quero cercas, Logan - exigiu Tyler. - Pelo menos em minha parte do terreno, no.
      - Tarde demais - respondeu Logan. - O material j est aqui e j contratei o pessoal. Eles comeam a trabalhar amanh de manh bem cedo.
      - No quero cercas. Est ouvindo, Logan? Se constru-las, vou fazer voc derrub-las de novo.
      - Fala grossa para um irmo mais novo - provocou Logan, sabendo muito bem que aquelas palavras teriam o mesmo efeito de um fsforo aceso jogado em um tanque 
de gasolina. - Eu sou advogado, lembra? Quando voc conseguir se livrar de toda a burocracia da Justia, j vou ser o maior criador de gado do estado de Montana.
      - Droga, Logan...
      Logan se espreguiou confortavelmente, soltando um suspiro proposital.
      - Foi bom falar com voc, Ty. D lembranas a Dylan.
      - Logan...
       Logan bocejou.
      - Sou dono de rancho agora - disse ele. - Ns nos levantamos cedo, se voc est lembrado. Ento acho que vou desligar.
      - No desligue na minha cara...
      Logan apertou a tecla para desligar o telefone. O celular imediatamente tocou de novo. Logan verificou quem era. Tyler. Ignorou o toque e assobiou para Parceiro. 
E os dois entraram.
      A velha casa parecia ecoar ao redor deles, sem a moblia, as fotografias e os objetos que vrias geraes haviam acumulado. As solas das botas de Logan provocavam 
um rudo solitrio sobre as tbuas de madeira do piso.
      O telefone parou de tocar e comeou de novo. Mais uma vez, Logan olhou para o pequeno visor. Parceiro virava a cabea para os lados, mordiscando as orelhas. 
Podia estar sozinho h muito tempo - como Logan esperava, o veterinrio no encontrara um microchip - , mas sabia que um telefone tocando devia ser atendido. Sentindo-se 
culpado por deixar o cachorro confuso, Logan desligou o celular e o deixou sobre a cornija da lareira.
      - Est tudo bem - falou para Parceiro, apertando o interruptor que estava perto da porta que levava  sala de jantar. A plida luz apenas fez a casa parecer 
mais triste.
      Pensou no lbum que Alec e Josh lhe mostraram na casa de Briana mais cedo naquela noite. E o sentimento de solido cresceu dentro dele.
      Sua me e as duas madrastas adoravam fotos. Havia dezenas, seno centenas delas, retratando a infncia dele, de Dylan e de Tyler.
      Onde estava tudo aquilo?
      Guardara a maior parte da moblia em um galpo um ano depois da morte de Jake. Ser que os lbuns e a caixa cheia de documentos da famlia estavam l tambm?
      No conseguia se lembrar, se  que sabia a resposta, para comeo de conversa.
      Tinha a chave do galpo, que ficava na cidade, mas no se sentia com vontade de dirigir at l e remexer em um monte de coisas velhas Com uma lanterna. Queria 
ter as fotos, no entanto, porque de repente se sentia estranhamente sem substncia, quase como se no tivesse passado, como se no existisse.
      Ele e Parceiro podiam ser fantasmas, um par de fantasmas, rondando aquela arruinada casa de rancho. S faltavam correntes para fazer barulho e algum para 
assustar.
      Sabendo que no dormiria to cedo, Logan resolveu procurar as fotografias no sto. Foi at os fundos da casa, com Parceiro a seu lado. Aparentemente, ele 
ainda tinha medo de perder Logan de vista.
      A escada para o sto estava escondida atrs de uma portinhola no teto da cozinha.
      Por mais que fosse alto, Logan precisou saltar para alcanar a corda da ala e abri-la.
      Choveu poeira do buraco quando a pesada escada retrtil tocou o solo, o que fez Parceiro recuar com um pulo, alarmado, e Logan tossir at ficar com os olhos 
cheios d'gua.
      - Fique aqui - disse Logan para o cachorro, antes de comear a subir os degraus, baixando a cabea para evitar bat-la contra a pesada borda de madeira que 
emoldurava a passagem. Parceiro ignorou a ordem e o seguiu rapidamente. Logan passou o antebrao sobre o rosto. Devia ter trazido uma lanterna, pensou, mas como 
teria de descer a escada de novo e voltar at a caminhonete, desistiu da idia. Como havia coisas no poro!
      Caixotes. Caixas. Um longo escorrega de plstico com uma rachadura no meio. Uma velha rvore de Natal de alumnio, refletindo os fracos raios de luz que vinham 
de fora.
      Pelo menos o velho no conseguira serrar aquela rvore ao meio, refletiu Logan. Ele mesmo a comprara quando tinha 12 anos, com o dinheiro que economizara aparando 
grama e limpando neve na cidade, e fazendo os piores trabalhos nos ranchos vizinhos. Fora direto na loja e gastara todo o dinheiro. Comprara at mesmo aquelas luzes 
engraadas que giravam, lanando na rvore um brilho vermelho, depois verde, em seguida dourado. Como Dylan e Tyler adoraram aquela rvore!
      Eles j eram grandes demais para acreditar em Papai Noel - e, tendo Jake Creed por pai, provavelmente nunca acreditaram - , mas Logan ainda agora podia ver 
o brilho que aquela rvore maravilhosa lanara nos olhos deles como se tivesse voltado no tempo.
      Ele sentiu uma dor torturante na garganta juntamente com a lembrana.
      Naquela poca, ele e os irmos eram muito prximos. Tinham de ser, pois eram os trs contra o velho e a dureza do mundo.
      Claro, brigavam uns com os outros como todo garoto, mais por brincadeira do que por uma hostilidade especfica, mas quando havia algum problema - e sempre 
os havia - eles o enfrentavam lado a lado.
      Quando isso mudara?
      Deve ter sido antes do enterro de Jake, ou eles no teriam se atritado com tanta violncia, mas por tudo o que era mais sagrado, Logan no conseguia se lembrar 
do momento da mudana.
      - Deixe para l - falou para si mesmo em voz alta. As palavras, como tantas outras coisas, eram uma herana indesejada de Jake.
      Deixe para l, garoto. Era a resposta de Jake para tudo.
      O brao quebrado de Dylan, na quinta srie, to grave que o osso atravessou a pele.
      Os gritos de Tyler, tendo pesadelos, depois que o xerife Book veio dizer que a me deles fora encontrada morta no quarto de um hotel distante.
      A operao de apendicite de Logan, na noite do baile de graduao. Ele quase morrera na ambulncia,
      Deixe para l, garoto.
      - Desaparea, velho - disse Logan. - Desaparea.
      No fundo de sua mente ele pensou ter ouvido Jake gargalhar. Comeou a abrir caixas e caixotes.
      Jornais. Dirios to velhos que as pginas estavam se desfazendo. Feitos, mapas e o que parecia ser uma rvore genealgica da famlia, enrolados em forma de 
canudo e amarrados com um lao em processo de desintegrao.
      Deixou essas coisas de lado e prosseguiu. Viera em busca dos lbuns que Teresa, Maggie e Angela montaram, e se podiam dizer alguma coisa dele  que era uma 
pessoa determinada.
      Encontrou os grossos livros dentro de recipientes de plstico com tampa de presso, a palavra fotos rabiscada na lateral com um marcador preto. A caligrafia 
arredondada e inclinada era de Jake.
      Logan no se permitiu pensar - ao menos no conscientemente - sobre se aquilo tinha algum significado, o fato de Jake ter aparentemente tentado conservar os 
lbuns que sempre tratara com sarcasmo. Mesmo sem refrescar a memria com uma olhada, Logan sabia que ele provavelmente no encontraria uma nica fotografia de Jake 
sorrindo para a cmara, como todo mundo faz. Ele sempre tinha que fazer caretas, franzir a testa ou sair de quadro um segundo antes de o flash ser acionado.
      Sempre estragava as coisas de alguma maneira.
      Logan atribua a ardncia em seus olhos  grande quantidade de poeira que ele e Parceiro levantavam a cada movimento. Depois de piscar os olhos algumas vezes, 
suspendeu - para sua surpresa - o pesado recipiente onde grande parte da vida dele, de Dylan e de Tyler se comprimia e comeou a descer a escada.
      Na cozinha, colocou a caixa de plstico na nica pea da moblia original deixada no lugar: a mesa redonda de carvalho e cadeiras de outro material que pertencera 
a todas as geraes dos Creed, desde Josiah.
      As unhas das patas de Parceiro provocaram um som seco no linleo quando ele saltou os ltimos degraus, fez uma espcie de acrobacia e finalmente endireitou 
o corpo de uma forma que parecia dizer: "Eu quis fazer isso", de um modo to claro quanto se houvesse expressado aquilo com voz humana.
      Logan riu bastante e se inclinou para acariciar as orelhas do cachorro.
      - No tenho certeza se estou preparado para isso - disse Logan.
      No mesmo instante, o telefone de parede tocou. Era muito antigo, ele no podia ver quem estava ligando. Talvez fosse Briana apavorada com os ursos em seu quintal. 
Ou ento Cimarron havia escapado do pasto e estivesse causando distrbio, ento Logan atendeu.
      A voz de Dylan soou imediatamente:
      - O que est fazendo a? - perguntou.
      Logan sorriu. Dylan e Tyler podiam estar brigados por algum motivo, mas Tyler claramente passara a notcia do erguimento das cercas ao redor do pasto para 
o irmo.
      - Nesse exato momento? Estou de p em minha cozinha.
      - Tyler falou que voc vai pr cercas ao redor do rancho inteiro para criar gado - acusou Dylan.
      -  isso mesmo - disse Logan. - Talvez at crie algumas vacas para seu touro, j que ele no parece servir para outra coisa, alm de estragar muito capim e 
terra frtil.
      - Voc  dono de um tero do rancho, no do rancho inteiro!
      - Qual  o problema das cercas? - perguntou Logan, abrindo a tampa da caixa de plstico por um dos lados e olhando para um velho lbum coberto de poeira. Tinha 
a frase Nossa Famlia estampada na capa em descascadas letras douradas. - Ser uma melhoria e no pedi que voc ou Tyler contribussem com um centavo.
      - S quero que voc deixe meu tero do rancho em paz, tudo bem?
      - Eu at poderia fazer isso, se no fosse pelo seu touro. - Ele fez uma pausa, deixando que o irmo compreendesse o significado do que acabara de dizer, com 
entrelinhas e tudo o mais. - No deveria ter que lhe dizer, Dylan, mesmo levando em conta o quanto seu crebro foi afetado por pancadas em rodeios, que se Cimarron 
escapar e ferir algum, haver processos. Se acontecer em qualquer lugar da propriedade, ser responsabilidade nossa, j que somos os donos conjuntamente. Talvez 
voc no se importe com o risco, mas eu me importo.
      Dylan ainda estava com raiva, mas a meno de um processo deve t-lo refreado um pouco, como acontecia com a maioria das pessoas.
      - Pago duzentos dlares por ms para que Chet Fortner tome conta de Cimarron - falou ele. Sua voz estava menos rspida.
      - Bom - respondeu Logan - , Chet no tem consertado as cercas. Por duzentos dlares, no o culpo. Seja como for, as tbuas esto velhas e algumas podres. Alguns 
coices ou cabeadas e aquele touro vai escapar, causando problemas por toda parte e no vai ser difcil.
      Dylan devia ter gastado toda a sua raiva.
      - Quanto lhe devo? Pela cerca, quero dizer.
      - No saberei at que o trabalho esteja concludo - mentiu Logan. Ele tinha uma estimativa precisa e fizera por onde o empreiteiro entendesse que no gastaria 
nem um centavo a mais. Qualquer gasto extra seria problema dele, no de Logan. Mas Logan no queria que Dylan pagasse; queria que ele viesse para casa, nem que fosse 
s pelo tempo suficiente para saber o que estava acontecendo.
      - Ah - disse Dylan.
      - Vi seu cavalo - contou Logan. Esse tambm era um comentrio calculado, com a inteno de despertar a raiva do irmo com relao a certa vizinha muito bonita. 
- Briana est tomando conta dele muito bem.
      Dylan no disse nada. Logan sabia que ele estava meditando sobre a informao, resolvendo se deveria ficar zangado ou no. Com Dylan, podia acontecer uma coisa 
ou outra.
      - Al? - disse Logan.
      - Voc j est visitando Briana? - perguntou Dylan. - Que rapidez!
      - Quem hesita est perdido - falou Logan alegremente, mas por dentro ele sentia tanto desconforto quanto antes, nos velhos dias terrveis, quando Jake demorava 
a chegar em casa no dia do pagamento e a madrasta da vez tentava enfeitar a situao. Se Dylan tinha alguma coisa com Briana, tudo mudava de figura, e no para melhor.
      - Ela  uma boa mulher, Logan - disse Dylan, furioso de novo. - Faa um favor a ela e a deixe em paz.
      - Voc parece estar querendo proteger algo que  seu.
      - Eu mal a conheo. Mas ela  decente e trabalha duro, e pelo que ouvi dizer, j esgotou a cota de problemas com homens. Se est em perfeito juzo, afaste-se 
dela.
      - No h a mnima chance - disse Logan.
      Dylan soltou um xingamento e desligou o telefone. Logan sorriu para Parceiro, que o estava observando com interesse o tempo todo.
      - At agora, tudo est correndo bem - falou Logan. Parceiro ganiu. Parecia no concordar.
      Logan colocou uma tigela de rao para ele no cho, depois foi at a pia da cozinha para limpar o rosto, as mos e os braos. Feito isso, enxugou-se com toalhas 
de papel e voltou ao trabalho de antes.
      Retirou a tampa da caixa, imaginando a cena em um dos filmes de Indiana Jones, quando algum abria a Arca da Aliana. No conseguia se livrar do sentimento 
de que acabara de libertar uma srie de fantasmas e espectros uivantes.
      Logan tirou o lbum em que estava escrito Nossa Famlia do topo, abanando a cabea para o otimismo ingnuo que aquele ttulo expressava.
      Abriu a capa e sentiu uma pinada no corao com a inscrio que achou na primeira pgina. Para Jake e Teresa, no dia de seu casamento. Com amor, Cassie.
      Ento Cassie fora a otimista que comprara o lbum de Nossa Famlia. Ela morou em Stillwater Springs a vida inteira, logo devia saber como era Jake. Talvez 
naquela poca ela acreditasse que os desejos podiam virar realidade.
      Sentindo a garganta apertada, Logan puxou uma cadeira e sentou, sabendo que no conseguiria olhar para as fotografias daquele lbum de p.
      Parceiro descansou o queixo na coxa de Logan e soltou um som de compaixo.
      Logan se preparou para o que tinha pela frente e virou a primeira pgina.
      Imediatamente ele viu que estava enganado: havia ao menos uma foto de seu pai sorrindo. Jake, muito novo e bastante parecido com Dylan, trajando terno - que 
ele descreveria como "roupa de garom" pelo resto da vida - , lanava um olhar alegre em uma fotografia barata de casamento. Ao lado dele, Teresa sorria de felicidade, 
uma beleza morena, orgulhosa do novo marido e de seu vestido de noiva feito por encomenda.
      Os olhos de Logan semicerraram de novo.
      Curvou os dedos da mo direita e tocou o rosto dela, quase esperando sentir o leve calor de carne viva. Teresa no teria mais de 17 anos, se tanto. Estava 
grvida de seu primeiro e nico filho, mas se ela ou Jake se arrependiam disso, seus sorrisos no davam mostras.
      Naquele dia, ao menos, ambos esperavam ter uma vida longa e feliz juntos.
      Teresa provavelmente acreditava que seu amor transformaria Jake, o inspiraria a deixar os modos rudes.
      Talvez Jake acreditasse nisso tambm.
      Engolindo em seco, Logan virou a pgina.
      Havia mais fotos do casamento, retratos antigos, amarelandos nas pontas, alguns coloridos, outros em preto e branco, todos apagados, desintegrando-se lentamente.
      Por mais que fosse doloroso olhar para algumas daquelas imagens - Logan mal o conseguia sem franzir o rosto - , sabia que no devia deix-las se perderem. 
Assim que seu laptop e o scanner chegassem, preservaria cada uma delas e as armazenaria digitalmente.
      Por enquanto, tudo o que podia fazer era olhar.
      J vira aquelas fotografias antes? Em caso afirmativo, no se lembrava.
      Lentamente, virou outra pgina, e mais outra.
      Teresa em um vestido leve de bolinhas, posando ao lado de uma rvore, com uma enorme barriga de grvida.
      Jake, sorrindo, lavando um calhambeque, o jato de gua congelado para sempre no papel.
      E a primeira foto do beb.
      Logan olhou para sua imagem como beb, careca e nada memorvel. Teresa estava na foto tambm, ainda no leito da maternidade, segurando a criana e sorrindo 
com extrema felicidade, como se houvesse dado  luz um segundo Messias.
      O brao de Jake estava visvel - devia ser dele, a mo repousada no ombro de Teresa.
      Querido e velho pai, pensou Logan. J desviando os olhos da foto.
      Depois desse, no conseguiria ver outros retratos.
      Fechou o lbum, percebendo que estava cheio no comeo e vazio nas ltimas pginas. Colocou-o de volta na caixa e fechou a tampa, como se enjaulasse os fantasmas 
de novo, presos no plstico.
      Mas no havia mais como conter os fantasmas do passado agora, e ele sabia disso. Eles haviam escapado para valer e tinham a inteno de assust-lo.
      Desejando jamais ter voltado para o Rancho Stillwater Springs, nunca ter aberto aquela caixa fantasmagrica, Logan empurrou a cadeira e se levantou. Passou 
um antebrao sobre o rosto, quase tropeou em Parceiro, que estivera o tempo todo deitado pacientemente a seus ps, esperando o que viesse depois.
      O solavanco serviu para pr as coisas em perspectiva.
      Se ele no tivesse voltado para casa, no teria encontrado o cachorro. E por mais que a relao deles fosse curta, Logan no conseguia imaginar como sobrevivera 
sem Parceiro a seu lado.
      Ele franziu a testa. Briana chamava sua cadela de Wanda. Talvez Logan tambm devesse ter dado nome de pessoa para aquela criatura, como Gus ou Bob. Algo, digamos, 
mais amigvel
      Logan ainda no sentia sono, fora despertado pelo jantar com Briana, a conversa telefnica com os irmos e as fotografias que vira. Como o computador, a TV 
ainda no chegara. Bom, no que estivesse disposto a assistir. Apenas lamentava no ter opo.
      Encontrou sua mochila, procurou dentro dela e achou o livro de espionagem e suspense que comprara em alguma parte, durante o caminho de volta para casa, e 
se esparramou no saco de dormir que estava sobre o piso do velho aposento.
      A casa podia estar prestes a desmoronar, mas era enorme. Ele, Dylan e Tyler tinham cada um seu prprio quarto, ainda que, quando pequeno, Ty se infiltrasse 
no quarto de Logan no meio da noite e se aninhasse no tapete, perto da cama do irmo mais velho, da mesma forma que Parceiro teria feito se houvesse uma cama. Para 
no falar no tapete.
      A lembrana deixou Logan emocionado de novo e, ainda que se sentisse sozinho, ficou contente por estarem ali apenas ele e Parceiro. Se algum estivesse por 
perto para lhe perguntar o que se passava, talvez amolecesse e contasse tudo. Ou simplesmente comeasse a chorar. Parceiro se enroscou nas pernas dele. Logan abriu 
o livro, encontrou uma posio confortvel e comeou a ler.
      A certa altura, caiu no sono, mas durante toda a noite os fantasmas o despertaram. Numa delas, sabendo que estava dormindo, vira Jake - o Jake jovem do lbum 
- olhar para ele do corredor, sorrir e fechar a porta de novo.
      Pela manh, deixando o cachorro sair e depois permitindo sua reentrada e comeando a passar o caf, Logan se lembrou do sonho da forma clara como um mstico 
relembraria a materializao de um esprito.
      - Por que voc foi incapaz de nos amar, velho? - perguntou para o sol nascente, de p no terrao dos fundos e observando tons de luz da cor da pra sobre montes 
a leste.
      Ele no sabia a resposta, mas tinha uma teoria a esse respeito. Jake Creed no amara as esposas ou os filhos porque no amava a si mesmo.
      
      
      
      
      
      
      O empreiteiro que construiria as cercas e seu pessoal chegaram s sete, no exato momento em que Logan terminava o caf da manh, e comearam a trabalhar. O 
caminho fretado chegou s 9h30 e causou grande excitao em Parceiro. Dois homens desceram para descarregar o computador, a cmera, os livros, a cama com acessrios, 
roupas e toda espcie de coisas para a casa.
      Ele estava no cho do quarto com uma chave de fenda, aparafusando a armao de metal que seguraria o colcho e o estrado, quando ouviu vozes vindas da sala 
de estar.
      Parceiro, um pouco vagaroso quando se tratava de fazer as vezes de co de guarda, empinou o corpo e deu alguns latidos hesitantes.
      - Logan?
      Ele reconheceu a voz. Era Josh, o filho mais velho de Briana.
      - Aqui! - gritou ele. - No final do corredor,  direita! Passos foram ouvidos ao longo do corredor e Josh e Alec apareceram no vo da porta aberta, acompanhados 
de Wanda.
      - Est tudo bem? - perguntou Logan. Dada a hora, a me deles devia estar trabalhando. Aqueles garotos perambulavam sozinhos o dia inteiro, com nada alm de 
uma cachorra gorda e velha como proteo?
      Voc fazia a mesma coisa, disse uma voz na mente dele. A lembrana o fez sorrir.
      - Sim - disse Alec. - A gente veio visitar voc, s isso. Tudo bem, pode ser?
      - Claro - respondeu Logan. - Contanto que a me de vocs no se oponha.
      Os garotos trocaram olhares culpados. Logan resolveu fingir no ter percebido.
      - Vocs vieram pelo pomar? - perguntou ele casualmente, concentrado em apertar o ltimo parafuso. quela noite, dormiria em sua confortvel cama. As coisas 
comeavam a melhorar.
      - No - falou Alec, prestativo. - Mame disse que a gente podia encontrar ursos por l ou que Cimarron podia se soltar e pegar a gente, ento a gente veio 
pela estrada principal.
      - Talvez vocs devessem ligar para o trabalho da me de vocs. Para dizer que esto aqui.
      - A gente no deve incomodar mame, a no ser que um de ns dois esteja ferido ou se sentirmos cheiro de fumaa - informou Josh.
      - Parece razovel - respondeu Logan, pondo-se de p. - Vamos ver como a nova cerca est ficando, depois vamos tratar do almoo.
      Os garotos pareciam encantados.
      Vendo o celular sobre o consolo ao entrar na sala de estar, lotada de caixas trazidas do caminho fretado, Logan o apanhou e voltou a lig-lo.
      Cinco mensagens. Trs de Dylan, duas de Tyler.
      Ele sorriu e enfiou o telefone no bolso do jeans.
      Ia deix-los esperando por um tempo.
      - Mame disse que vamos ter um telefone celular quando ela conseguir um aumento ou ganhar na loteria - falou Alec.
      - Ah - disse Logan. A situao devia estar apertada se Briana no podia ao menos adquirir um celular. At crianas no jardim da infncia usavam celulares hoje 
em dia!
      - Ela no vai ganhar na loteria, babaca - disse Josh, empurrando o irmo com o ombro. - Ela no compra os bilhetes.
      - Voc me chamou de nome feio - protestou Alec. - Eu vou contar.
      Logan assobiou por entre os dentes, um mtodo seguro para conseguir chamar a ateno deles.
      Os garotos olharam para ele entre surpresos e admirados. - Calma, meus rapazes - disse Logan. Depois apontou para a porta de entrada. - Vamos indo.
      
      
      
      Briana franziu a testa, olhando para o receptor do telefone, antes de desligar.
      Millie, fazendo uma pausa para o almoo, sentava-se em um dos sofs, folheando um exemplar antigo da revista People, mas, afora as duas, a sala destinada ao 
descanso dos funcionrios estava vazia.
      - Algum problema? - perguntou ela.
      Briana tentou ignorar a ponta de pnico que comeava a se transformar em um apertado n no corao.
      - Liguei para casa trs vezes desde que cheguei ao trabalho - murmurou Briana. - Ningum atende o telefone.
      - Talvez Josh esteja usando a internet - falou Millie. A maioria das pessoas tinha conexes de banda larga, mas Briana ainda usava a internet discada e s 
havia uma linha telefnica na casa.
      - Voc deve estar certa - admitiu Briana, pensando por que no imaginara aquela possibilidade absolutamente bvia.
      Porque pensara em Logan Creed e praticamente em nada mais desde a noite passada, eis por qu. Ela se revirara na cama e se retorcera, fora at a janela da 
sala de estar duas vezes - quando deveria estar dormindo - , na esperana de ver as luzes da casa dele brilhando por entre as rvores.
      Ainda assim, sentira-se incomodada, e se j no houvesse extrapolado ao pedir a Jim folga no sbado, iria rapidamente em casa, s para confirmar que no havia 
nada errado.
      E tantas coisas podiam estar erradas!
      Os garotos podiam ter sado de casa, entediados com os afazeres, a programao da TV ou o computador, e ido at o pomar, imaginando que poderiam enfrentar 
qualquer urso que aparecesse pela frente.
      Podiam ter ido ao pasto, dar uma olhada no touro. Ou, sabendo que ela estava no trabalho, Vance podia ter vindo para roub-los dela. Sem dvida, essa ltima 
possibilidade era remota, j que seqestrar Alec e Josh significaria ter de aliment-los e vesti-los, mas coisas estranhas acontecem.
      Vance adorava irrit-la, e raptar as crianas certamente faria com que ela perdesse a calma.
      Briana cruzou os braos e mordeu o lbio inferior com fora. Custasse o que custasse, compraria um telefone celular assim que seu turno terminasse.
      O iogurte que Briana trouxera no carro a caminho do trabalho coalhara e lhe dava nsia de vmito, no parecia querer passar pela garganta.
      - Bri? - afligiu-se Millie. - Voc no parece estar bem. Quer que eu diga a Jim que est doente e pea para liber-la?
      Briana ficou tentada a aceitar, mas em ltima anlise, no conseguia mentir para Jim, mesmo que de forma indireta. Ele a promovera duas vezes e lhe dera folga 
no sbado, embora sempre faltasse mo de obra nos finais de semana. Ele no merecia ser enganado.
      Briana abanou a cabea, respirou fundo e se dirigiu ao piso do cassino para pagar os vencedores, trocar dinheiro e manter os olhos atentos a qualquer confuso.
      Estava perto da entrada. De um lado, ouvia idoso reclamar que as mquinas caa-nqueis estavam viciadas e, de outro, estava preocupada com os filhos, que podiam 
estar naquele momento na velha picape de Vance, indo sabe Deus para onde. Foi ento que viu Logan entrar no restaurante, a poucos passos dela, pela entrada "de famlia".
      Alec e Josh estavam com ele, ambos sorrindo alegremente.
      A primeira coisa que Briana sentiu foi alvio. Os filhos estavam salvos, to perto que poderia v-los e toc-los.
      A segunda coisa foi uma fria imperiosa que a fez tremer dos ps  cabea e, em seguida, percorreu suas veias como veneno.
      Quem Logan Creed pensava que era, levando os filhos dela a qualquer lugar sem seu conhecimento ou permisso?
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO SEIS
      
      
      
      
      
      
      - L vem ela - falou Josh, olhando por cima do cardpio.
      Logan j vira Briana com o canto do olho, fumegando de raiva como um trem de carga descendo uma montanha. Ele sorriu um pouco, esperando a inevitvel coliso, 
que soltaria fascas por todos os lados.
      - Acho que vou querer panqueca - disse ele. Alec se remexeu na cadeira, sentindo desconforto:
      - Mame parece furiosa - sussurrou.
      Briana cruzou o vasto vo da porta da parede de vidro que separava o restaurante mexicano do resto do cassino. Logan fechou o cardpio calmamente. Levantou-se.
      Briana o fulminou com os olhos, depois, com as mos nos quadris, se virou para os meninos, os quais estavam escondidos atrs dos enormes cardpios, os olhos 
arregalados, meio temerosos, pouco preparados para o enfrentamento.
      - O que foi - comeou ela - que j disse a vocs sobre entrar no carro de pessoas estranhas?
      - Logan no  um estranho - falou Josh. - Ele  nosso vizinho.
      Uma garonete se aproximou cautelosamente, mantendo-se a uma distncia segura.
      - Quer almoar conosco? - perguntou Logan a Briana. As bochechas dela enrubesceram. Ela sempre fora linda, mas v-la furiosa fez com que Logan desejasse fazer 
amor com Briana imediatamente.
      Mas, pelo visto, aquilo no aconteceria to cedo.
      Se  que aconteceria.
      - Estou trabalhando - falou ela.
      - E isso significa que no pode comer?
      Claramente enfurecida, ela se voltou para os filhos de novo:
      - Vocs deviam estar em casa - lembrou. - Conhecem as regras.
      - A gente se sentiu sozinho - explicou Josh.
      -  duro ficar em casa sem mais ningum - acrescentou Alec. Ele faria fortuna em qualquer ramo de negcio que envolvesse enganar com desculpas esfarrapadas. 
Seria um timo advogado ou poltico.
      - A a gente foi at a casa de Logan para ver o que ele estava fazendo - continuou Josh, como se Alec no houvesse falado.
      - Ficamos bem longe de Cimarron e do pomar - acrescentou Alec, com tom e expresso que passavam franqueza. - Fomos pela estrada.
      Briana consultou o relgio e o movimento de seu brao foi pouco mas brusco. Comeou a dizer alguma coisa, depois parou. Suspirou.
      - Voc no vai me fazer sentir culpada, no adianta - falou ela para Alec, um tanto atrasada.
      Pelo contrrio, pensou Logan. O comentrio de Alec sobre a solido dos dois acertou bem no alvo.
      Ela olhou para o rosto de Logan e ele percebeu dor em seus olhos. Dor, medo e um tipo de cansao que nem mesmo frias prolongadas poderiam curar.
      ? Preciso trabalhar - disse Briana.
      E Logan desejou t-la nos braos, abra-la. Dizer a ela que tudo ficaria bem.
      Ele no tinha nada que fazer essas coisas, ento apenas ficou quieto.
      - No aconteceu nada - falou Logan calmamente. - Quando os garotos apareceram l em casa, achei que a melhor coisa a fazer seria traz-los para c. At voc.
      Ela resfolegou e seus ombros rgidos relaxaram um pouco.
      - Obrigada - respondeu Briana, sem muita convico. E depois olhou para o relgio de novo. -  melhor eu voltar para onde estava - disse. O orgulho substitura 
a dor em seus olhos.
      - S largo s cinco. Alec e Josh no podem esperar num restaurante at que eu saia.
      Logan fez um sinal de positivo com a cabea, percebendo que ela no confiava nele para cuidar das crianas pelo resto do dia e compreendendo a precauo. Ele 
era um estranho para ela; a cautela era mais que razovel.
      - A gente pode voltar para o rancho com Logan? - perguntou Josh. - No tem graa ficar sentado numa lanchonete de cassino o dia todo.
      - Acho que vocs deviam ter pensado nisso - falou Briana - , antes de desobedecer a regra nmero um: quando no estou em casa, vocs no devem ir alm do quintal. 
- Fez uma pausa.
      - E onde, pelo amor de Deus, est Wanda?
      Alec abriu um sorriso largo:
      - Em casa. A gente a deixou l antes de vir para a cidade, mas Parceiro est na caminhonete. Ele tem at um prato com gua.
      - Voc no pode mesmo almoar com a gente? - A voz de Josh tinha um tom apelativo.
      - Estou lhe devendo uma refeio - disse Logan, referindo-se ao jantar da noite anterior.
      Mas Briana apenas abanou a cabea. Ento, depois de fitar cada um deles com um olhar ameaador - primeiro Josh, depois Alec, por fim Logan, ela se virou e 
voltou ao trabalho.
      Os garotos ficaram um tanto quietos depois disso, mas pediram panquecas, tal como Logan, e as comeram como se estivessem presos e sem comida durante uma semana.
      Tinham quase terminado o almoo, e Logan se preparava para deixar os garotos no cassino - coisa que achava duro de fazer - , quando viu Brett Turlow observando-o 
de uma mesa do outro lado do restaurante.
      Turlow desviou os olhos imediatamente.
      Ele estava sentado sozinho, parecia mais baixo do que nas lembranas de Logan. Na metade dos 40 anos, o velho Brett no estava envelhecendo bem. Claramente 
passava por dificuldade desde que passara a administrar o negcio da famlia, levando-o  falncia.
      Logan sabia de tudo isso porque mantivera a assinatura do Correio de Stillwater Springs, depois de sair de casa a primeira vez, e tambm porque tinha inmeros 
motivos para no gostar de Brett Turlow.
      Eles se conheciam h muito tempo, Brett e Logan, apesar dos dez anos de idade que os separavam.
      Muito, muito tempo.
      Logan pagou a conta do almoo, deixou uma gorjeta para a garonete e levou Alec e Josh at a lanchonete, para esperarem pelo fim do turno de trabalho de Briana. 
Mesmo preocupado com Parceiro, que ficara na caminhonete com vidros parcialmente abertos e uma pequena quantidade de gua, Logan arrumou tempo para voltar at o 
restaurante e trocar uma palavra com Brett.
      Surpreendendo de certa forma Logan, Turlow ainda permanecia  mesa, sentado, restos de comida repousando a sua frente, bem como um copo de cerveja.
      Turlow ergueu a cabea para olhar para Logan e o velho ar mesquinho apareceu nos olhos dele. Nos velhos tempos, ele era um canalha, que vivia infernizando 
os outros, o filho do patro. Agora, a pele do rosto estava flcida e balanava sobre os ossos.
      Ele batera bastante em Logan certa vez. E ento Jake batera ainda mais nele.
      Turlow quisera que o pai demitisse Jake na hora.
      Mas, fosse quem fosse em outros aspectos, Jake Creed era o melhor lenhador da rea. Ele derrubava trs rvores no mesmo tempo em que os outros derrubavam uma, 
e no tinha medo de nada. Nem dos pinheiros gigantes que tinham o apelido de "criadores de vivas", porque se partiam de alto a baixo e podiam esmagar qualquer homem 
que estivesse em seu caminho, nem, com certeza, do filho de Deke Turlow. Sempre pensando nos lucros, Deke deu ordens para que Brett se mantivesse afastado da floresta 
em vez de Jake.
      Ele s voltaria ao trabalho depois que Deke teve um acidente com uma retroescavadeira e morreu, e mesmo ento, o testamento do velho o impediu de se livrar 
de Jake. Deve ter sido duro de engolir, trabalhar dia aps dia com um homem que o espancara diante de metade de Stillwater Springs.
      - Voc veio at aqui para gozar a desgraa alheia? - perguntou Brett, cansado.
      - Por que eu faria isso? - respondeu Logan.
      - Voc sabe que perdi a madeireira. A competio estrangeira, os ambientalistas sempre criando confuso por qualquer ninharia...
      ? Esse tipo de coisa acontece - disse Logan. Como aquela corrente que se abriu na hora errada, pensou ele, e despejou algumas toneladas de madeira do caminho 
sobre Jake, esmagando-o completamente.
      - Voc e seus irmos receberam o dinheiro do seguro - lembrou Brett, como se isso resolvesse tudo e compensasse a maneira como Jake morrera. Ele permanecia 
vivo sob toda aquela madeira quando os outros lenhadores chegaram at ele, segundo o xerife. A dor deve t-lo consumido como o fogo, mas ele rira. Olhara para o 
velho Floyd Book, todo ensanguentado, e rira.
      -  assim que tudo termina, velho amigo - dissera a Floyd. -  assim que tudo termina.
      Eles quitaram os dbitos pessoais de Jake com o cheque do seguro, e ele, Dylan e Tyler dividiram o restante. Logan usara o dinheiro para pagar os emprstimos 
que tomara para cursar a universidade.
      - Voc estava l naquele dia, no estava, Brett? ? perguntou Logan. - No dia em que aquela corrente quebrou?
      Turlow fez uma careta de estranhamento, depois afastou a cadeira e se levantou.
      Logan era uma cabea mais alta que ele e no se moveu para deix-lo passar.
      - Eu estava l - confirmou Turlow. - E da? Os outros oito homens da equipe tambm estavam.
      - Eles ainda estavam na floresta.
      O rosto de Turlow ficou de um vermelho opaco e doentio. Seu hlito tinha um cheiro de podre e ele exalava o fedor de cerveja do dia anterior por cada poro.
      - Houve uma investigao - falou ele. - Tudo ficou esclarecido.
      - Ele estava dormindo com sua namorada - disse Logan. - Jake, quero dizer.
      O rubor de Turlow aumentou, ficando de um escarlate escuro.
      - Ela era uma vadia.
      Logan ergueu um ombro e permaneceu firme como um totem:
      - Talvez - concedeu. - Mas, mesmo assim, voc deve ter ficado furioso. Sua garota, dividindo a cama com um homem que tinha o dobro de sua idade...
      - Logan?
      Distrado, ele se virou. Viu o xerife Floyd Book de p atrs dele. Falando no diabo...
      Turlow passou por ele e disparou na direo da porta.
      - Se eu achasse que iria fazer alguma diferena - ponderou Book, enfiando os polegares no cinto de policial - , diria a voc para se manter afastado de Brett 
Turlow, em nome da paz. - Floyd sempre tivera uma barriga grande. Agora ela estava mais baixa e pressionava os botes da camisa de seu uniforme marrom. O distintivo 
mais brilhante que nunca, no entanto, e quando tirou o chapu de abas rgidas e arredondadas, Logan viu que ele ainda tinha um cabelo grosso e da cor do ao.
      - No se preocupe, xerife - falou Logan. - Eu disse o que queria dizer.
      - No quero confuso por aqui - prosseguiu Book, parecendo cansado at os ossos. - As coisas tm se mantido relativamente calmas em Stillwater Springs desde 
que seu pai... que Deus tenha pena de sua alma odiosa... foi assassinado e voc e seus irmos desapareceram do mapa. E, correndo o risco de soar como um personagem 
de um filme piegas de caubi, em preto e branco, eu gostaria de que as coisas permanecessem assim.
      Logan sorriu. Sempre gostara de Floyd Book, achava que ele era uma pessoa boa. Agora, porm, estava preocupado com Parceiro, sozinho na caminhonete. Brett 
Turlow provavelmente no incomodaria seu cachorro, mas Logan no queria correr o risco.
      - Vou me comportar - afirmou, comeando a se afastar. Book se sentou a uma mesa ali perto e deu adeus com um aceno de cabea.
      - V l no trabalho quando tiver tempo - convidou ele. - A gente bate um papo.
      Logan retribuiu o aceno com a cabea e saiu.
      No estacionamento, Parceiro o recebeu ansioso, enfiando o focinho pela abertura da janela e latindo para dar as boas-vindas, em xtase.
      Logan sentiu uma onda de alvio ao abrir a porta da caminhonete, empurrar o cachorro para o lado e se sentar ao volante. Ele achava que se encontrar com Brett 
Turlow seria inevitvel, dado o tamanho de Stillwater Springs, mas a experincia o apanhara de surpresa mesmo assim. Trouxera de volta muitas lembranas incmodas.
      Voltara a Montana s pressas quando a notcia do acidente com o pai chegara at ele, e encontrara Jake na UTI de um hospital em Missoula, na verdade segurando-se 
 vida com as pontas dos dedos.
      No havia um nico pedao de Jake que no estivesse machucado, de um prpura rosado. Suas pernas e costelas haviam sido esmagadas pelo peso da madeira e o 
estrago era visvel mesmo sob a coberta. Tubos e fios saam dele em todas as direes, ele parecia preso neles, como uma mosca presa na teia de uma aranha.
      Apenas os olhos de Jake, de um azul rspido e carregados de orgulho e obstinao, permaneciam os mesmos.
      Jake no conseguia falar - a laringe e quase todos os ossos e rgos de seu corpo haviam sido quebrados ou rompidos mas os olhos diziam muito.
      Voc chegou tarde demais.
      Estou decepcionado com voc. Como sempre.
      Sim, eu vou morrer.
      Deixe para l.
      - Deixe para l - repetiu Logan em voz alta.
      Jake mantivera sua promessa no manifesta. Morrera antes que Dylan e Tyler conseguissem chegar l, e foi ento que as acusaes comearam. Ambos ficaram furiosos 
com Logan por ele ter permanecido no quarto de hospital quando Jake soltara seu ltimo suspiro, talvez porque no pareceria correto lanar toda aquela raiva sobre 
um homem morto.
      Especialmente quando esse homem morto era o pai deles.
      Parceiro ganiu.
      Logan estendeu a mo para acariciar suas orelhas. E ento seguiram de volta para o Rancho Stillwater Springs, seu lugar. Seria mesmo?
      Naquele momento, Logan no tinha mais certeza sobre qual era seu lugar.
      
      
      
      
      O restante do dia passou arrastado para Briana.
      Ela fazia visitas breves, mas regulares  lanchonete, para ter certeza de que os garotos ainda estavam l, e Jim at mesmo disse que ela poderia sair mais 
cedo. J que estava prestes a fazer uma compra que no cabia em seu oramento, diminuir seu salrio no parecia ser a melhor idia do mundo.
      s 5h10, Briana pegou os meninos, agora reticentes e irritados por causa das horas que passaram sentados na lanchonete, entrou na caminhonete que Dylan deixara 
no rancho e deu partida, enquanto esperava que Alec e Josh afivelassem os cintos de segurana. Podia dirigir o velho carro se conseguisse faz-lo funcionar, Dylan 
dissera, e ela aceitara a oferta e conseguira, com a maior parte do primeiro salrio que recebeu do cassino e muita ajuda de um mecnico da cidade, mas depois de 
dois anos, mant-lo funcionando era o desafio.
      Briana vinha economizando para comprar um carro usado decente, mas dava trs passos  frente, voltava dois para trs. Toda vez que se adiantava um pouco, alguma 
despesa inesperada surgia: contas de remdio e veterinrio quando Wanda rompeu um ligamento de uma pata traseira; a janela que Josh quebrou, jogando beisebol com 
Alec no jardim lateral; uma doao no trabalho quando um dos empregados perdeu tudo em um incndio.
      Aquilo nunca tinha fim.
      E agora ela precisava comprar um telefone celular. Josh e Alec poderiam ligar para ela diretamente, em vez de passarem pelas atendentes do cassino. Eles eram 
bons meninos, e provavelmente a teriam contatado antes de ir at a casa de Logan pela estrada, onde podiam ter sido atropelados, seqestrados ou atacados por um 
animal selvagem.
      Eles provavelmente teriam ligado.
      - O que vocs fizeram hoje no foi nada bom - disse ela, falando pela primeira vez desde que haviam deixado o cassino, ao parar no estacionamento do Wal-Mart. 
Fazia muitas compras l, mas cada visita trazia lembranas dolorosas da noite em que Vance a abandonara, bem como aos meninos e Wanda.
      - Desculpe, me - disse Alec.
      - No foi nada de mais - argumentou Josh.
      Ela se virou no assento, olhando para ele no banco de trs.
      - Foi, sim, Josh - falou Briana. - E, Alec, "desculpe"  pouco. Vocs esto de castigo at eu disser que podem sair.
      - At parece que isso vai mudar nossas vidas - disse Josh. - A gente est de castigo o tempo todo, porque voc nos obriga a ficar em casa quando no est. 
 como se a gente fosse nenm ou coisa parecida.
      O que ele dizia fazia sentido, mas, alm de coloc-los em perodo integral, o que no apenas acabaria com as economias para a compra do carro, os faria tremendamente 
infelizes, ela no sabia o que fazer.
      Alec olhou para ela, depois concordou com o irmo, um fato raro.
      -  - falou ele. - A gente j est de castigo. Quando papai chegar aqui, aposto que ele vai nos levar para um monte de lugares.
      Vance. Ele estaria na cidade no sbado, dissera, o que queria dizer amanh. O humor de Briana, j abalado, ficou completamente sombrio.
      ? Esperem no carro - disse ela. - No vou demorar.
      - Me, a gente sempre fica esperando - reclamou Josh. - A gente acabou de passar a tarde toda esperando na lanchonete!
      Briana soltou um suspiro e baixou a guarda.
      - Tudo bem, mas nada de perambular por a. Se eu tiver que andar a loja inteira procurando por vocs, no vou ficar nada satisfeita.
      - E qual  a novidade? - perguntou Josh, abrindo sua porta e pulando para o cho antes que ela mudasse de idia. - Voc nunca est satisfeita.
      -  - concordou Alec, embora cautelosamente. Briana revirou os olhos.
      - Vamos logo de uma vez, assim a gente volta para casa e d comida a Wanda, certo?
      - Certo - concordou Josh, como se sua opinio tivesse algum peso. - E o que  que a gente veio fazer aqui, exatamente?
      - Vou comprar um telefone celular - disse Briana. Eles estavam na faixa de pedestres agora, o mesmo lugar em que Vance lhe dissera para sair do carro e levar 
os meninos e o cachorro com ela, porque ele tinha coisas melhores a fazer do que escutar uma mulher irritante.
      Ela queria parar para comprar galeto, porque seria mais barato do que ir a um restaurante, e ela e os garotos estavam fartos de hambrgueres. Poderia dizer-se 
que isso era irritante?
      Alec a fez voltar ao presente com um grito de alegria:
      - Ns vamos ter um celular?
      - Eu vou ter um celular - corrigiu Briana. - E vocs dois vo ligar para ele e me pedir permisso antes de sair por a pela estrada sozinhos.
      Quando eles eram mais novos, Briana segurava as mos deles at entrarem, mas os dois mantinham distncia, como se fossem adultos, hoje em dia.
      - Todos os meninos da turma de natao tm celulares deles - falou Josh.
      Briana engoliu a resposta de sempre - ns no temos condies - , porque estava cansada demais dessa frase, e os garotos tambm.
      Dentro da loja, foi direto ao departamento de eletrnicos. Josh e Alec no sentiram vontade de perambular por outras prateleiras, provavelmente porque ficariam 
fascinados com a quantidade televises de tela plana, laptops, tocadores de DVD e coisas do tipo.
      Tudo aquilo estava fora da capacidade financeira de Briana. Ela compara o computador deles numa dessas lojas populares, em prestaes mensais bem baratas, 
porque era necessrio para a educao dos meninos, e fora um fracasso. E hoje, aquela eterna pobreza a deixava mais triste do que nunca.
      Alec e Josh queriam comprar o modelo mais novo, com cmera, MP3, jogos e tela sensvel ao toque.
      Briana escolheu o modelo mais econmico: tudo o que fazia era ligar e receber ligaes. Nada de extraordinrio, apenas isso.
      Tinha uma qualidade que o redimia, no entanto. Vinha com um outro celular gratuito, e isso satisfez os garotos um pouco. Eles prometeram dividir o telefone, 
mas ela sabia que brigariam pela coisa antes mesmo de chegarem em casa.
      Soltando o milsimo suspiro do dia, Briana empurrou o carrinho at a seo de alimentos, para comprar rao de cachorro para Wanda e uma garrafa de leite. 
Esquecera as duas coisas no dia anterior, quando fora at ali comprar os ingredientes do jantar que preparara para Logan. Depois de esperar na fila para pagar, foram 
embora.
      Milagrosamente, chegaram era casa sem que os garotos brigassem no banco de trs. Depois de levar a rao e o leite para dentro de casa e deixar Wanda sair 
por uns minutos, Briana colocou o que restara da caarola no forno para esquentar, Alec checou as mensagens da secretria eletrnica e Josh se sentou  mesa com 
os novos celulares, lendo as instrues.
      - A gente precisa carreg-los primeiro - falou ele. - Isso vai levar um tempo.
      - No tem problema - disse Briana, lavando as mos na pia.
      - Voc disse que a gente podia fazer piquenique no cemitrio hoje  noite - lembrou Alec. - Noite passada, quando estava preparando a caarola, voc disse 
isso.
      - No disse, no - respondeu Briana. - Eu disse que a gente podia fazer isso algum dia.
      - No  justo.
      - Sinto muito. Mas  assim que vai ser.
      - Por qu?
      - Porque estou dizendo.
      - Isso tambm no  justo. Por que os meninos sempre tm que fazer as coisas s porque os adultos dizem?
      Briana riu, sentindo-se melhor agora que estavam em casa, fazendo coisas normais do dia a dia, como dar comida a Wanda e esquentar sobras de comida.
      - Porque ns somos maiores do que vocs - disse ela.
      - Um dia eu vou ser maior que voc - prometeu Alec.
      - Sem dvida - concordou Briana. - Mas, quando esse dia chegar, voc vai ser uma pessoa gentil e nunca vai discutir comigo.
      - Duvido - respondeu Alec.
      - Aprontem-se para jantar, vocs dois - disse Briana.
      - No estou com fome - respondeu Alec.
      - Voc est  com raiva porque papai no deixou nenhum recado - falou Josh para o irmo.
      - Parem com isso agora mesmo! - interrompeu Briana, enfiando-se entre os dois como um juiz em jogo de futebol. - Se essa discusso continuar, nenhum dos dois 
vai usar o celular extra. Nunca.
      - Daria mais certo se voc conseguisse assobiar como Logan - comentou Josh, olhando para ela com uma segurana solene. - Isso sim, faz a gente calar a boca 
na hora.
      - Do que  que voc est falando? - perguntou Briana, espantada.
      - Hoje, no restaurante mexicano do cassino - respondeu Josh, sentindo-se importante - , eu e Alec entramos e Logan assobiou. Pelos dentes da frente. Foi bem 
alto.
      - E isso  bom?
      - Funcionou - disse Alec, como quem d de ombros. - Se eu j no tivesse um pai, seria legal ser filho de Logan.
      Briana se sentou em uma cadeira, antecipando-se ao inevitvel comentrio sarcstico de Josh, antes que ele pudesse diz-lo, com um olhar expressivo.
      - Voc acha que Logan tem filhos, me? Ela precisou de alguns segundos para se recuperar. Por que as palavras de Alec a abalaram daquele jeito? Se eu j no 
tivesse um pai, seria legal ser filho de Logan. - Ahn?
      - Voc acha que Logan tem filhos? - repetiu Alec pacientemente. Ele provavelmente usaria esse mesmo tom de voz quando ela estivesse velha, esquecendo-se das 
coisas. Briana esperava viver tempo suficiente para ficar caduca.
      - No tenho a menor idia - respondeu Briana.
      - Da prxima vez que ele vier jantar, vou perguntar - disse Josh.
      - Pode no haver uma prxima vez - respondeu ela. - S convidei Logan para jantar na noite passada porque  uma coisa educada quando se tem novo vizinho.
      Alec fechou a cara.
      - Voc est com raiva porque ele levou a gente para a cidade hoje. Voc devia estar com raiva de ns, no dele.
      Alec levou um encontro de ombro de Josh pelo que acabava de dizer.
      - Voc est certo. Eu devia estar com raiva de vocs. - Ela ficou sria. - Mas no estou.
      - Mesmo? - Alec parecia impressionado. Ora, ela no perdia a calma normalmente, pensou Briana, indignada. Se podiam dizer alguma coisa dela, era ser indulgente, 
perdoando-os com muita facilidade. Ento, por que a surpresa? 
      - Mesmo - respondeu Briana. 
      - No insiste, bobo - aconselhou Josh. Briana fulminou o filho mais velho com outro olhar.
      - Desculpe - falou Josh, humilde. O telefone tocou enquanto estavam jantando e Alec saltou da cadeira para atend-lo.
      Seu rosto se alegrou por inteiro quando disse: - Pai! Oi!
      Briana esperou, sentindo-se desconfortvel, como Josh. Se o histrico passado fosse levado em conta, Vance estaria prestes a ir em frente e dar alguma desculpa 
para no vir visit-los. Ela ficaria aliviada, Alec ficaria arrasado. Ainda no sabia qual seria exatamente a reao de Josh.
      - Voc j est quase em Stillwater Springs? - Alec quase gritou de felicidade. - Claro, claro, vou chamar... Me! Ele quer que voc ensine o caminho!
      Briana se levantou da cadeira lentamente, atravessou o cmodo, tirou o telefone do gancho e levou  orelha. Precisou limpar a garganta antes de falar.
      - Ento... Voc est quase aqui.
      - Ns estamos - respondeu Vance. Ns?
      - Diga como chegar em sua casa, Bri. Estou ansiosssimo para ver meus filhos.
      Alec estava saltitando e dando voltas na cozinha.
      Josh provavelmente se enfiara no quarto. Teria de ter passado por ela para sair pela porta dos fundos.
      Calmamente, Briana explicou ao ex-marido as entradas que teria de fazer e que caminhos tomar.
      Ela estava gelada ao desligar o telefone.
      Foi direto para o quarto dos garotos.
      Como pensara, Josh estava na cama, uma salincia sob a coberta de chenile que ele odiava, porque tinha um ursinho e isso era coisa de beb.
      - Josh? - Briana se sentou cuidadosamente na beira do colcho, deitando a mo sobre as costas do filho. - Quer sair e conversar comigo um minuto?
      - No. - A palavra saiu abafada. - Posso ficar na casa de Logan at papai ir embora?
      - Querido, ele  seu pai.
      Josh soergueu o corpo sobre o colcho e olhou furioso para Briana, nariz e testa franzidos de nojo.
      - Ele  um banana! Abandonou a gente no Wal-Mart, me!
      - A gente vem se saindo bem desde ento, no ? - perguntou Briana com muita doura.
      - E se ele ficar?
      - No vou deix-lo ficar, Josh. Seu pai e eu estamos divorciados.
      - Ele devia ter ido embora para sempre. Ele quer alguma coisa, me.  por isso que est vindo aqui. - O lbio inferior de Josh tremeu. - E se ele resolver 
nos levar, Alec e eu, embora?
      - Ele no vai fazer isso, Josh - afirmou Briana, como se um pedao do corao estivesse se partindo. H quanto tempo Josh tinha medo de que aquilo acontecesse? 
- Eu tenho a guarda legal de vocs. Isso quer dizer que voc e Alec vo ficar comigo at terem idade para sair de casa por conta prpria.
      Naquele momento, Josh fez algo que no fazia desde a noite em que Vance fora embora. Atirou os braos e enlaou-lhe o pescoo com toda a fora.
      Briana o abraou fortemente. Beijou-lhe o topo da cabea. O cabelo cortado rente espetou os lbios dela e isso a fez sorrir, ainda que os olhos estivessem 
cheios de lgrimas.
      - Foi assustador termos sido abandonados daquele jeito - disse Briana depois de um longo tempo. - Sinto muito que tenha acontecido. Mas ns estamos bem agora, 
voc, eu, Alec e Wanda. Temos um bom lugar para morar e eu tenho um emprego, e...
      Josh recuou.
      - No deixe que ele nos leve embora, me - pediu ele. - Ele pode ficar irritado e nos levar para algum lugar, como fez antes, s que dessa vez voc no estaria 
l para tomar conta da gente...
      Briana estava quase chorando tambm, mas no ousou demonstrar. Precisava ser forte por Josh e por Alec tambm. No podia se permitir chorar, da mesma forma 
que no podia se permitir comprar uma TV de tela grande, ou um computador de ltima gerao, ou um celular com as melhores funes e aplicaes.
      - Prometo que isso no vai acontecer, Josh. Ele fungou, querendo acreditar nela. Lutando para acreditar.
      - Jura?
      - Juro.
      - O que a gente vai fazer agora?
      Briana sorriu, arriscou-se a lhe dar um beijo na testa e ficou feliz quando Josh no se afastou para evit-la.
      - Vou voltar para a cozinha e preparar caf, e voc vai para o banheiro lavar o rosto.
      Josh concordou com a cabea, mal-humorado. Briana colocou o caf para passar e apanhou colcha nova, um lenol e travesseiros para o sof-cama. Vance dissera 
ns, o que provavelmente significava que estava trazendo um de seus amigos de rodeio para servir de proteo, evitar que a ex-mulher o criticasse. Bom, ele podia 
perfeitamente dividir o fino colcho do sof-cama com o companheiro, porque no havia mesmo onde mais coloc-lo.
      Vance dirigia a mesma van velha. Briana reconheceu o som do cano de descarga.
      - Ele chegou! - berrou Alec, abrindo a porta dos fundos e disparando para fora da casa, com Wanda logo atrs, latindo como uma alucinada.
      Cachorra volvel.
      - Grande coisa - murmurou Josh, triste, sentado diante do computador.
      Briana lanou um olhar compassivo para ele e se forou a ir at a porta.
      Estava quase escuro, mas no tanto que no pudesse ver Vance sair da van, pisando o cho com aquele sorriso largo no rosto, para olhar para Alec e gir-lo 
no ar.
      Quando a outra porta se abriu, no entanto, Briana perdeu o flego.
      Uma mulher - uma garota, na verdade - contornou a frente da van, sorrindo nervosamente. Ela era bem magra, vestia um daqueles tops estreitos, que quase no 
cobrem nada, jeans apertado e botas. Uma pequena argola de prata pendia de seu umbigo e o cabelo era descolorido, preso em algo que parecia ser um rabo de cavalo, 
parecendo jorrar do alto de sua cabea.
      Vance devolveu Alec ao cho, ergueu a cabea e seus olhos se encontraram com os de Briana. Ao mesmo tempo, ele estendeu um brao na direo da garota e ela 
correu at Vance, apertando o corpo contra a lateral do dele. Olhou para Briana com olhos enormes e assustados.
      - Voc est bem, Bri - disse Vance.
      Ela no conseguia falar. No a incomodava saber que Vance tinha uma namorada, isso era notcia velha. O que a incomodava era que ele houvesse trazido a mais 
nova conquista para casa e estivesse claramente pretendendo dormir com ela sob o mesmo teto que os filhos.
      - Essa  Heather - disse Vance. - Heather, minha ex-mulher, Briana. Esse  meu filho Alec. - Ele franziu a testa, inclinando o corpo ociosamente para acariciar 
a cabea de Wanda. ? Onde est Josh?
      - L dentro - conseguiu dizer Briana.
      - Oi, Briana - disse Heather. Ela parecia to desesperada para agradar que Briana sentiu pena. A pobre menina provavelmente no tinha a menor idia da enrascada 
em que estava se metendo com Vance.
      - Entrem - convidou Briana.
      Todos entraram na cozinha, e os minutos seguintes foram extremamente desconfortveis. Josh no fez um movimento para dar as boas-vindas a Vance, e tanto ele 
quanto Alec olhavam para Heather como se ela fosse uma curiosidade dessas que se exibem em circos ou zoolgicos.
      - Essa  Heather - disse Vance pela segunda vez. Heather ruborizou, parecendo querer que o cho se abrisse sob seus ps.
      A compaixo de Briana se transformou em misericrdia.
      - Voc quer um caf, Heather? - Em seguida, com atraso, acrescentou: - Sente-se. Por favor. Sente-se.
      A luz da cozinha, ela podia ver que Heather era mais velha do que parecera quando estava l fora. Tinha mais de 21 anos, pelo menos, o que era bom, porque 
Briana estava disposta a ligar para o xerife se ela no tivesse.
      - Obrigada - falou Heather, meio que se deixando cair na cadeira.
      Ela ajeitou o cabelo e foi ento que Briana percebeu a aliana de casamento na mo esquerda.
      Vance estava inchado de orgulho:
      - Heather - anunciou ele para Alec e Josh ?  a nova madrasta de vocs.
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO SETE
      
      
      
      
      
      
      - Voc no vai ao menos dizer "ol" para o seu velho pai, garoto? - perguntou Vance, virando-se para Josh, que permanecia diante do computador, no canto mais 
afastado da cozinha, com expresso de surpresa e fria.
      - Ol - disse Josh, seco.
      Alec, enquanto isso, estava sentado no colo de Vance, mas mesmo ele, o perptuo otimista, parecia um pouco abalado com o anncio de que agora tinha uma madrasta.
      Vance suspirou. Lanou um olhar de cumplicidade para Heather:
      - Acho que preciso consertar algumas coisas por aqui - disse.
      - Acho que sim - concordou Heather imediatamente. Ela provavelmente concordaria com qualquer coisa que Vance dissesse quela altura. Aquilo, Briana sabia, 
mudaria com o tempo.
      Sua mo tremeu um pouco ao servir caf para Heather e Vance. Ela se ofereceu para preparar algo para o jantar, mas eles declinaram da oferta, disseram j ter 
comido no caminho.
      - Ah, j ia me esquecendo - falou vagarosamente Vance, acarinhando o topo da cabea de fios curtos e pontudos de Alec com os ns dos dedos. - Ns trouxemos 
presentes.
      A irritao tomou conta de Briana, fez as terminaes nervosas dela se torcerem. Presentes? Vance nem ao menos pagava a penso das crianas a maior parte das 
vezes. No comprava os sapatos, jeans e camisetas que constantemente ficavam pequenos nos garotos. No enviava cartes de aniversrio.
      Como podia comprar presentes?
      Mas, claro, presentes fariam com que ele ficasse bem aos olhos dos meninos. Ele evidentemente considerava necessidades que no recebiam agradecimentos como 
responsabilidade dela.
      O rosto de Alec se iluminou com a meno aos presentes, claro, e mesmo Josh parecia intrigado.
      - Eles esto na van - disse Vance. - O que vocs acham de irmos peg-los? - Ele se virou e sorriu largamente para Josh. - Podamos contar com a ajuda de vocs.
      Alec j estava de p e correndo para a porta. Josh o seguiu, mas s depois de um sinal silencioso feito por Briana. Vance se levantou tambm e os trs saram. 
Heather se mexeu na cadeira, sentindo desconforto:
      - Compramos bicicletas para eles - disse timidamente. - Compramos de segunda mo numa pequena cidade nos arredores de Las Vegas, mas Vance as consertou e parecem 
novas.
      O corao de Briana saltou no peito. Bicicletas. Havia anos os garotos pediam bicicletas a cada Natal e aniversrio. Ela jamais conseguira o dinheiro para 
compr-las. Quanta ironia havia no fato de que fosse Vance o responsvel por tornar aquele sonho antigo e persistente em realidade.
      - Voc no se incomoda, no ? - perguntou Heather. Briana piscou os olhos, confusa.
      - Incomodar-me?
      - Por Vance ter me trazido para c. No vamos ficar muito tempo... s at amanh de tarde.
      Briana se incomodava, na verdade, mas no era m a ponto de dizer isso a Heather. A mulher estava morrendo de medo.
      L fora, Alec gritava de alegria. As bicicletas haviam sido reveladas, ento.
      - Para onde vocs vo depois? - perguntou Briana, apenas para dizer alguma coisa.
      A bela garota levou algum tempo para entender, ento deixou Briana completamente surpresa.
      - Ah, a gente est planejando ficar aqui mesmo em Stillwater Springs - falou Heather alegremente. - Vance tirou a sorte grande numa mquina de pquer em Las 
Vegas um dia desses, e disse que era um sinal de Deus para que se estabelecesse em algum canto. - Provavelmente consciente dos atrasos no pagamento da penso, a 
esposa de Vance ruborizou e mordeu o lbio inferior. - No  muito dinheiro - apressou-se em acrescentar - , mas o suficiente para pagar um aluguel e o seguro fiana, 
e nos mantermos enquanto procuramos emprego.
      - No h muitos em Stillwater Springs - disse Briana, sentindo-se enjoada. A vida. Podia continuar a mesma durante anos, ento de repente dava um giro de cento 
e oitenta graus. - Empregos, quero dizer.
      Heather a contradisse imediatamente.
      - Ns paramos em uma oficina mecnica da cidade para comprar velas novas para o carro - disse ela - , e havia uma placa "Temos vagas" na porta. Precisam de 
um mecnico e Vance  bom nisso. O homem pediu que ele voltasse amanh para uma entrevista.
      Briana resistiu ao impulso de fechar os olhos e abanar a cabea. Vance morando em Stillwater Springs? Trabalhando oito horas por dia em vez de seguir o rodeio?
      Alec ficaria encantado. Josh provavelmente se acostumaria. Mas tudo iria mudar. Tudo.
      Briana ainda estava digerindo a notcia quando Vance apareceu no vo da porta, de p no terrao dos fundos.  luz que vinha do exterior, ele parecia o mesmo 
de sempre, mas diferente.
      Ele virara religioso ou alguma coisa do tipo? Se fosse at a van, ela encontraria um adesivo com os dizeres "Jesus  fiel"?
      - Venha ver as bicicletas - disse ele.
      Briana no tinha idia se ele estava se dirigindo a ela ou a Heather. Mas esperou at que ela e Heather sassem antes de segui-los e se deter no terrao.
      Alec e Josh pedalavam suas "novas" bicicletas em crculos amplos e incertos.
      - Aprenderam rpido - dizia Vance, orgulhoso, olhando para eles.
      Os garotos andavam nas bicicletas de outros meninos sempre que tinham chance, mas no o faziam havia algum tempo. Evidentemente, andar de bicicleta era de 
fato algo que nunca se esquecia totalmente.
      - Trouxe algo pra voc tambm, Bri - falou Vance para ela.
      Heather foi at a van para pegar sua valise.
      - O qu? - perguntou Briana cuidadosamente.
      Vance a levou de volta para dentro e ficaram na cozinha, momentaneamente sozinhos. Ele tirou a carteira e depositou vrias cdulas novas de cem dlares na 
mo de Briana.
      Ela ficou olhando.
      - A penso das crianas.
      - Ah - disse Briana, abobada. Como conhecia Vance, sabia que ele provavelmente pediria a mesma quantia emprestada antes que o final de semana acabasse. O banco 
ficava aberto aos sbados at o meio-dia, porm, e ele pretendia ir at l assim que abrisse as portas na manh seguinte. - Obri-obrigada.
      - Isso nos deixa quites, no deixa? - perguntou Vance, observando-a de perto.
      O que ele esperava? Lgrimas de agradecimento? Que ela fosse ao cho e abraasse os joelhos dele, chorando de alegria e alvio? Ele devia aquele dinheiro a 
ela e demorou muito para pagar.
      - Obrigada - repetiu Briana, dobrando as cdulas rapidamente e as enfiando no bolso da cala que usava para trabalhar. - Sim. Isso nos deixa quites. - Por 
enquanto. - Heather falou que vocs esto pensando em ficar em Stillwater Springs.
      Vance fez que sim com a cabea, lanando um longo olhar atravs da porta. Seu rosto mudou enquanto observava os meninos tentando andar nas bicicletas, expressando 
uma emoo que Briana jamais vira antes.
      - Eu agi mal com Alec e Josh, e com voc - disse ele, sem olhar para ela. - Ainda tenho a chance de consertar as coisas com os meus filhos.
      Briana sentiu como se estivesse engolindo uma pedra. Quando conseguiu falar, disse:
      - No d esperanas a eles, Vance. No os faa pensar que voc vai ficar e fazer parte da vida deles, est bem?
      Antes que Vance pudesse fazer algo alm de olhar para ela com a expresso de um homem que acabara de levar um tapa no rosto, Heather entrou, carregando a valise 
e uma bolsa volumosa.
      - Tudo bem se eu tomar um banho? - perguntou ela a Briana.
      - Claro ? falou Briana, mas olhando para Vance.
      Ele passou por ela e foi ao terrao, disse aos garotos para deixarem as bicicletas perto de casa e entrarem.
      Em vez disso, eles a trouxeram pelos degraus e as estacionaram na cozinha.
      Briana fechou a porta devagar, o olhar indo de um garoto para o outro e de uma bicicleta para a outra. At Josh parecia cautelosamente encantado, e Alec estava 
maravilhado.
      - Elas podem ser roubadas se a gente as deixar do lado de fora - disse Alec. A bicicleta dele era vermelha, os guidons brilhavam e a tinta parecia fresca. 
A bicicleta de Josh era azul, tinha pontos metlicos na pintura e adesivos de bicicletas de corrida.
      - Coloquem-nas no quarto de servio por enquanto - disse Briana. - E tenham cuidado para no arranhar a lavadora e a secadora.
      Os filhos aquiesceram e levaram as bicicletas para fora da cozinha.
      Depois disso, as coisas ficaram incmodas de novo.
      Heather disse que estava cansada depois do banho e ajeitou o sof-cama para deitar.
      Os garotos se sentaram  mesa, ouvindo Vance, que lhes contava as ltimas aventuras. Conhecera Heather em Butte, falou ele, em um rodeio, e soubera de imediato 
que estava apaixonado. Casara-se com ela antes de deixar a cidade.
      Briana suspirou por dentro.
      Josh ainda parecia cauteloso; estava se segurando. Dois anos mais velho que o irmo, tivera mais experincia com Vance e suas altas promessas, mas a bicicleta 
o deixara um tanto mexido tambm. Briana percebia que ele queria acreditar em Vance, mas no tinha coragem.
      O corao de Alec estava totalmente aberto. Tudo fora claramente perdoado. No que ele algum dia houvesse guardado rancor do pai. Ele sempre vira algo em Vance 
que escapava a Briana.
      - Vamos ao supermercado comprar comida amanh - disse Vance para ela, calmo, quando j era bem mais de meia-noite. Ele levara Alec e Josh para o quarto e at, 
talvez, os tivesse coberto.
      Ser que Vance ouvira uma palavra do que ela dissera a respeito de no lhes dar muita esperana?
      Ele tinha alguma idia de como ficariam arrasados quando ele no cumprisse a palavra, como sempre fazia?
      - Claro - disse Briana. - timo.
      Vance cruzou o cmodo, levou as mos aos ombros dela, girou-a, deixando-a de costas para a pia, onde estivera enchendo a garrafa trmica para a manh, e olhou 
bem nos olhos dela.
      Briana moveu os ombros, se libertando das mos dele e se afastou de seu alcance.
      Na sala de estar, Heather ou dormia felizmente longe deles no sof-cama ou estava bem acordada, escutando.
      - Briana, eu s... - A voz de Vance soava grosseira, irritada. - Eu no ia fazer nada.
      - Voc podia ter falado de Heather quando ligou, Vance. Ter me dado uma chance de preparar os garotos.
      - Os garotos - disse Vance, um msculo tremendo em seu queixo quadrado - parecem ter lidado bem com a situao. E isso  o tipo de coisa que um homem tem que 
fazer pessoalmente, no pelo telefone.
      Briana desviou o olhar. No falou nada. Se Vance achava que ela estava chateada porque ele casara de novo, morreria de decepo.
      -  melhor eu ir para a cama - disse Vance para ela. - Boa noite, Bri.
      Briana continuava sem falar, continuava sem encar-lo. Apenas concordou com a cabea.
      Vance seguiu para a sala de estar, murmurou algo carinhoso para Heather, que suspirou meio adormecida em resposta.
      Meu Deus, pensou Briana, passando pelo vo da porta em direo ao quarto, com Wanda logo em seus calcanhares, eles no vo fazer amor, vo?
      Se iriam, ela com certeza no queria saber.
      Depois de vestir uma camisola de algodo e sair para o corredor para usar o banheiro, com vontade de tapar os ouvidos com as mos para no ouvir algo embaraoso, 
voltou para o quarto e ligou o rdio baixinho.
      Wanda, aninhada no lugar habitual do colcho, com o traseiro encostado no espelho da cama, lhe lanou um olhar curioso, ganiu e se acomodou para dormir.
      Briana entrou debaixo das cobertas tambm, mas no conseguiu dormir, apesar do cansao.
      Alm do fato de que os meninos poderiam ouvir algum rudo, ela teria alguma outra preocupao quanto a Vance e a mulher fazerem amor?
      No.
      Ento, qual era o problema?
      Ela se virou para um lado, depois para o outro. Uma voz tnue sada do rdio, cantando o tipo de msica que fazia uma mulher desejar um homem, uma taa de 
vinho e luz de velas.
      Briana estendeu o brao para mudar de estao. Comentrios sobre o mercado futuro. Agora, sim. No havia nada romntico em comentrios sobre o mercado futuro.
      Fosse l o que fosse.
      Briana ouviu uma leve batida na porta do quarto. Ela se sentou, levando as cobertas at o pescoo. - Sim?
      A porta se abriu e Josh apareceu. Ela quase conseguia ver que o pijama no cabia mais nele.
      - Posso dormir aqui?
      Ela normalmente no permitia, mas a expresso no rosto de Josh a fez repensar.
      - Qual o problema, querido? Voc teve um pesadelo? Josh fez que sim com a cabea, engolindo em seco.
      ? Sonhei que papai levou a gente embora. Eu no conseguia lembrar do nmero do seu celular, porque ele  novo e...
      - X - disse Briana, dando tapinhas no colcho do lado de Wanda.
      A cachorra saiu e foi se acomodar mais abaixo no colcho, ento Josh pde se deitar ao lado de Briana.
      - Eu j sou grande para estar dormindo com minha me - lamentou Josh.
      - Uma vez no faz mal - disse Briana.
      - Eu posso ficar contente por ter ganhado a bicicleta? Os olhos de Briana arderam.
      - Claro. Pode, sim.
      - Voc acha que ele vai fazer a gente chamar Heather de "me"?
      ? Cabe a vocs escolherem como vo chamar Heather, contanto que seja de uma forma respeitosa - disse Briana com cuidado. O pensamento de Alec ou Josh chamando 
outra mulher de me pesou em seu peito como uma bigorna, mas ela estava determinada a ser justa.
      Alm de tudo, ela meio que - bem - gostava de Heather. Josh ficou deitado ali por uns minutos, silencioso, sob o raio de luz do abajur da mesinha de cabeceira, 
escutando a fala montona que vinha do rdio. Depois, perguntou:
      - Por que voc est escutando o noticirio de economia?
      O locutor estava dizendo que haveria uma grande venda de aes em Choteau no dia seguinte, quando Briana sorriu e desligou o rdio.
      - Eu s queria ouvir alguma coisa.
      - Ah - disse Josh, sentando e atirando as cobertas de lado. - Eu acho que estou bem agora - falou para ela.
      - timo - disse Briana, observando-o sair do quarto e seguir para a prpria cama. Impassvel, Wanda retomou seu posto no outro travesseiro.
      Briana desligou a luz e o quarto ficou no escuro.
      
      
      - O que eu preciso  de um cavalo - disse Logan para Parceiro, olhando atravs do para-brisa da caminhonete quando uma segunda equipe de trabalhadores se amontoou 
no estbulo nas primeiras horas da manh seguinte.
      Parceiro no deu sua opinio, no disse que sim, nem que no. Ele provavelmente estava esperando que fossem tomar caf da manh em alguma lanchonete da cidade 
ou outra visita a Alec, Josh e Wanda.
      - Sim, senhor - repetiu Logan, principalmente porque queria escutar a voz de algum, mesmo que esse algum fosse ele mesmo - , eu sem dvida preciso de um 
cavalo.
      Ele j fora verificar como ia o trabalho na nova cerca do pasto. Os operrios estavam um pouco assustados com Cimarron, mas at agora o velho touro mantivera 
distncia, olhando os trabalhos atravs de um bosque de btulas e escavando o cho apenas uma ou duas vezes. Em vez de dar tranqilizante  criatura e lev-la a 
outro lugar durante a construo, trabalhar perto dele parecia ser a opo mais vivel.
      At agora corria tudo bem.
      O estbulo no estaria pronto para receber cavalos por mais uma ou duas semanas, pelo menos, mas haveria um leilo em Choteau, cerca de 30km de distncia dali, 
e Logan no conseguiu resistir, tinha que ir.
      Quando criana e depois, no rodeio, ele cavalgara muito. Jake tinha dois pneis, Sombra e Dinamite, e ele, Dylan e Tyler quase cresceram no lombo deles. Logan 
sorriu, lembrando-se de como Tyler sempre se irritava por ter que ir na garupa de Logan ou Dylan. Ele odiava ser o mais novo, odiava sempre ter que seguir os outros, 
quando queria cavalgar sozinho.
      Sombra e Dinamite morreram de velhice, muito tempo atrs, mas a perda parecia recente naquela manh, como se eles estivessem esperando na porta do curral, 
prontos para receberem as selas.
      Logan engoliu o n da garganta e ps a caminhonete em movimento. Ele podia ficar sentado ali o dia todo se lamentando, ou fazer alguma coisa.
      Quase atropelou Alec e Josh  sada da estrada, onde a parte de cima do velho porto ainda era sustentada pela unio das mesmas trs correntes de sempre. Eles 
passaram de bicicleta e ele pisou no freio, simultaneamente estendendo o brao para impedir que Parceiro se chocasse contra o para-brisa.
      Alec e Josh diminuram a velocidade e fizeram uma ampla curva na estrada.
      Corao acelerado, Logan respirou fundo e baixou o vidro.
      - Vocs deviam ter mais cuidado - alertou ele.
      - Desculpe - falou Josh.
      O sorriso de Alec ia de orelha a orelha:
      - A gente ganhou bicicletas novas! - gritou. Logan riu:
      - Estou vendo - disse. - Bem legais.
      - Nosso pai comprou de segunda mo - explicou Josh.
      O pai deles. Era uma coisa perfeitamente normal que um homem visitasse os filhos e comprasse bicicletas para eles. Ento por que sentia vontade de ir at a 
casa de Briana e averiguar a situao?
      A situao, qualquer que fosse, no era problema dele.
      - A me de vocs sabe que vocs esto aqui? - perguntou Logan, se lembrando da confuso no dia anterior, quando os levou  cidade.
      - Ela ia tirar o dia de folga - disse Alec ? mas papai est tomando conta da gente, ento, afinal, ela acabou indo trabalhar. Depois da entrevista de emprego 
de papai, ele vai levar a gente para ver um lugar que est para alugar no jornal.
      Era muita informao para absorver, mas Logan tomara trs xcaras de caf forte pela manh, de maneira que seu crebro estava afiado.
      - Onde est o pai de vocs agora? - perguntou ele, no mesmo instante em que um homem alto fazia a curva a p. Usava botas velhas, jeans e uma camisa de cambraia 
azul,  moda do Oeste.
      Alec apontou com o polegar:
      -  ele - disse com orgulho.
      Logan forou um sorriso e saiu da caminhonete.
      - Esse  nosso vizinho, Logan Creed - falou Josh para o pai.  - Ele foi jantar l em casa duas noites atrs.
      - Ah, foi? - Os olhos azuis do outro homem examinaram Logan quando apertaram as mos. - Vance Grant - disse ele.
      - Prazer em conhec-lo.
      Logan apenas fez um aceno com a cabea. Grant no gostou do fato de ele ter feito uma visita a sua ex-mulher, Logan podia perceber. Havia um frio de desconfiana 
naqueles olhos gelados.
      - Estarei por perto de agora em diante - avisou Vance. - Se  que isso faz alguma diferena para voc.
      Logan levantou uma sobrancelha, consciente de que os garotos estavam perto, com as bicicletas novas, escutando.
      - Deveria fazer? - perguntou ele monotonamente.
      O sorriso de Vance no transpareceu nos olhos. Antes que pudesse responder, o celular de algum tocou.
      Josh rapidamente sacou um modelo dos mais simples do bolso da cala jeans e atendeu.
      -  mame - disse ele para os outros, revirando os olhos, embora Logan pudesse perceber que se sentia importante. - Sim, papai est aqui... Ele est com a 
gente, me. Logan tambm. - Uma pausa. - Heather ainda estava dormindo quando a gente saiu de casa.
      Quem seria Heather?, perguntou-se Logan.
      - A gente precisa ir para casa agora - disse Vance, quando Josh desligou o telefone, levando-o para longe do alcance de Alec por alguns segundos, depois colocando-o 
de volta no bolso. - Precisamos estar na cidade em meia hora.
      Alec e Josh se despediram e pedalaram de volta na direo da casa. Logan entrou na caminhonete, com o vidro da janela ainda baixo, e Vance se deteve mais um 
instante.
      - Meus filhos - disse ele - tm um pai.
      Logan sentiu as orelhas arderem. Jantara na casa de Briana uma vez e levara Alec e Josh  cidade no dia seguinte para almoarem e, como acabou acontecendo, 
esperarem pela me. Aquele sujeito estava pensando que ele estava tentando tomar seu lugar ou coisa parecida?
      Os garotos eram sem dvida de Vance. Eram iguais a ele.
      Mas Briana no era sua mulher. No que dizia respeito a ela, no havia "invaso de propriedade".
      - Veja - comeou Logan, descansando o brao na borda da janela e segurando o volante com bastante firmeza com a outra mo - , a gente acabou de se conhecer, 
ento vou dar-lhe o benefcio da dvida e no presumir que voc  um canalha irritadio e rancoroso. Alec e Josh so garotos legais. Voc tem sorte por serem seus 
filhos.
      Vance soltou a respirao e relaxou um pouco. Tirou o chapu para passar a mo pelo cabelo, fez meia-volta para seguir os garotos e depois se virou de novo.
      - Eu acho que sou um pouco irritadio - admitiu ele. - Cometi uma srie de erros e estou tentando consertar as coisas. Isso vai dar muito trabalho, e a verdade 
toda  que no quero enfrentar competio nesse momento.
      Logan no disse nada. Tinha a inteno de escutar, nada mais.
      Mas Vance no acrescentou nada ao discurso que acabara de fazer. Virou-se mais uma vez, viu que os garotos haviam desaparecido na curva e os seguiu.
      No quero enfrentar competio nesse momento.
      O que ser que isso queria dizer? Vance estava tentando reconquistar a famlia dele, inclusive Briana? Ou estava apenas falando em estabelecer algum tipo de 
relacionamento com os filhos?
      Dele era a palavra-chave, pensou Logan melancolicamente.
      O motor roncou um pouco quando ele engrenou a primeira, e os pneus cantaram quando alcanaram o pavimento da estrada.
      Ele mal conhecia Briana Grant. Se ela quisesse se reconciliar com o ex-marido, a escolha era dela.
      Mesmo assim, ao passar por Stillwater Springs e ultrapassar os limites da cidade, seguindo para Choteau, teve que fazer um esforo para no parar no cassino, 
encontrar Briana e perguntar a ela o que estava acontecendo. O que o impediu, na verdade, foi a lembrana de que Josh mencionara uma mulher.
      Heather.
      
      
      
      
      Ele foi at Choteau, encontrou o lugar do leilo e se inscreveu. Logan e Parceiro passaram pelos cercados, examinando gado e cavalos que estariam  venda naquele 
dia.
      Quando o leilo comeou de fato, os lances foram rpidos e furiosos. Quando colocou Parceiro na caminhonete de novo, depois de passar um cheque com um valor 
colossal para a empresa realizadora do leilo, era um dono de rancho de verdade, com 20 bezerros e quatro cavalos.
      O gado seria entregue em dez dias, os cavalos em um. Inclinando-se  frente no banco, Logan deu uma olhadela para o cu atravs do pra-brisa. O clima estava 
bom. Os cavalos ficariam bem no curral at que o estbulo estivesse habitvel.
      No entanto, teve de pagar um tanto extra para postergar a chegada do gado, j que a cerca do pasto ainda no estava acabada.
      Logan riu para Parceiro, resfolegando no banco do carona, enquanto a paisagem noturna passava por eles.
      - Voc  bom para arrebanhar gado, garoto? - perguntou ele ao cachorro.
      Parceiro apenas o observou, os olhos acesos de devoo.
      - Uma coisa  certa - continuou Logan. - Cimarron vai ficar muito contente.
      O celular dele tocou.
      Como estava ao volante, Logan atendeu sem olhar o visor para ver quem era.
      - Logan Creed - disse, por puro hbito. At recentemente, quando vendera a empresa, quase todas as ligaes que recebia eram para tratar de trabalho.
      Laurie riu, e o som belo e aconchegante o fez sentir falta de um relacionamento com uma mulher, ainda que no especificamente com ela.
      - A maioria das pessoas apenas diz "al" - falou ela para ele.
      - Tudo bem, al - disse Logan.
      - Mal-humorado.
      - Como vai o casamento? - perguntou ele, para tornar as coisas mais leves. E talvez para atazan-la um pouco, muito embora estivessem se tratando com amabilidade. 
Muita.
      - Estou pensando em me divorciar de mim mesma - contou ela. - Eu no me dou muito bem comigo.
      ? Fico triste em saber disso - respondeu Logan, mas no conseguiu evitar uma risada. Havia todas as pessoas normais e comuns do mundo. E havia Laurie.
      Quando ela no respondeu de imediato, ele pensou que era melhor continuar a conversa. No estava com vontade de conversar, e prosseguir falando era a melhor 
forma de termin-la de uma vez.
      - O que voc quer? - perguntou Logan.
      A voz de Dylan ecoou em sua mente, depois foi a vez da de Tyler.
      O que voc quer?
      Laurie comeou a chorar.
      Droga, pensou Logan.
      - Laurie?
      - No posso ficar com meu cachorro - disse ela.
      - O qu? - perguntou Logan, confuso.
      - Acabei de me mudar para um apartamento e eles no permitem que eu fique com o meu Querido.
      Logan olhou para Parceiro.
      - Isso  ruim - disse ele, sincero. Ela estava apenas desabafando? Ou esperava que ele fizesse alguma coisa?
      - Eu estava pensando em voc ficar com ele - sugeriu Laurie. -  um timo cachorro.
      - Laurie, voc mora na Califrnia e eu em Montana...
      - Eu poderia coloc-lo em um avio. Logan, voc precisa fazer isso por mim. No posso sair daqui agora e os vizinhos vo me evitar se eu no encontrar outro 
dono para Querido, e no posso entreg-lo a um estranho...
      - Querido? - repetiu Logan bobamente. Ele podia se sentir sendo sugado por um vrtice reservado a pessoas que amam cachorros. Todo tipo de cachorro: grande, 
pequeno e mdio.
      - Voc vai ficar com ele! - gritou Laurie, com tanta alegria que Logan no sabia o que dizer. - Voc ainda est na linha? - perguntou sua segunda mulher, agora 
casada consigo mesma.
      - Estou aqui.
      - Vou coloc-lo em um avio assim que possa.
      - Querido? - repetiu Logan.
      - Voc pode mudar o nome dele, se quiser - disse Laurie, parecendo magoada.
      - Laurie, ser que voc no poderia... Ela recomeou a chorar.
      - Por favor, Logan. Por favor. Ele suspirou:
      - Tudo bem - aceitou. - Que tipo de cachorro ...
      - Eu ligo para voc assim que tiver reservado o voo - interrompeu Laurie, fungando, a voz radiante de gratido. - Obrigada, Logan.
      E, dizendo isso, desligou.
      Logan fechou o celular, olhou pelo espelho retrovisor e encarou a si mesmo:
      - Bobo - falou.
      Parceiro deixou escapar um leve som da garganta.
      - Voc vai ganhar um irmo - contou Logan para ele. - Querido.
      O cachorro inclinou a cabea para um dos lados.
      -  - confirmou Logan. - Voc me ouviu direito. Eu disse Querido.
      
      
      
      
      
      
      
      - Papai conseguiu o emprego! - anunciou Alec no instante em que Briana pisou em casa naquela noite, depois do trabalho.
      - E a gente tambm achou um grande trailer onde eles vo morar!
      A van estava no quintal, mas no havia sinal do casal feliz.
      - Onde esto seu pai e Heather? - perguntou ela, curvando o corpo para acariciar Wanda.
      - Eles esto tomando banho - contou Alec. Por trs dele, Josh fez uma careta.
      - Juntos - disse ele.
      Eu vou matar Vance, pensou Briana, deixando a bolsa de lado e soltando ar pelo nariz.
      - Heather tambm conseguiu um emprego - continuou a tagarelar Alec, sem ter prestado ateno  questo do banho conjunto. Graas a Deus. - Ela vai ser cabeleireira 
no salo do shopping center.
      Heather era cabeleireira? Briana esperava sinceramente que o cabelo dela semelhante a palha no fosse tpico de seu trabalho.
      - Isso  timo - falou, porque Alec estava muito contente.
      - Eles s podem se mudar para o trailer amanh - comentou Josh, erguendo as sobrancelhas para dar  informao o peso adequado.
      - Mas a gente fez compras! - gritou Alec, abrindo a porta da geladeira para provar o que dizia. Briana viu uma caixa de cerveja, pratos de frios, ingredientes 
para salada e uma daquelas pizzas semiprontas.
      Bom, no final das contas, o mundo no estava completamente de cabea para baixo.
      Vance comprara cerveja. De longe, pde ouvir que o banho acabara e, minutos depois, Heather entrava na cozinha, vestida em um pequenssimo roupo de banho 
rosa, o rabo de cavalo no topo da cabea cado por causa do efeito do calor e da umidade.
      - Oi, Briana - cumprimentou ela alegremente. - Voc pode ir se deitar ou fazer qualquer outra coisa, porque vou preparar o jantar essa noite.
      Briana abriu a boca e em seguida a fechou de novo. No seria certo dizer  mulher para se vestir decentemente, pelo amor de Deus, pois havia crianas no ambiente. 
Seria?
      Vance surgiu, sem camisa, abotoando o jeans.
      - Espero que voc no se incomode de a gente ficar aqui por mais uma noite - disse ele, tranqilo. - No posso pegar as chaves do trailer antes de eles ligarem 
a gua e a luz, e isso s vai acontecer amanh.
      A boca de Briana fez como a de um peixe mais uma vez.
      Abriu.
      Fechou.
      Abriu de novo.
      - timo ? disse Vance, seguindo para a rea de servio. Ele voltou um minuto depois, abotoando uma camisa limpa. Evidentemente, ele e Heather arrumaram algum 
tempo para lavar roupa, entre procurar empregos e alugar o trailer. - Heather! - chamou ele. - Vamos logo com essa pizza! Eu sou um trabalhador agora e preciso comer!
      Briana se retirou para o quarto, fechou a porta e tirou o uniforme do cassino, vestindo short e camiseta.
      Quando voltou para a cozinha - e ela teve de se forar a fazer isso, em vez de continuar escondida ? Heather estava quase decentemente vestida em um jeans 
claro superapertado e outro top que deixava a barriga nua. Ela enfiou a pizza no forno e deu uma analisada no visual de Briana.
      ? Voc devia cortar o cabelo - falou ela.
      Briana segurou a trana protetoramente. Por que ser que cabeleireiras sempre queriam deixar curtos os cabelos longos? Era uma espcie de desafio ou coisa 
do tipo, como escalar o monte Everest para um alpinista.
      - Eu faria isso para voc com o maior prazer - continuou Heather. - No cobraria nada.
      - Obrigada - disse Briana. - Mas gosto dele desse jeito. Heather franziu a testa de um jeito agradvel.
      - Quando a gente envelhece - falou ela docemente - no deve usar o cabelo longo de jeito nenhum.
      O comentrio foi to ultrajante - e to ingenuamente sincero - que Briana nem sequer teve raiva.
      - Vou tentar me lembrar disso - falou.
      Heather sorriu, agradecida, e comeou a preparar a salada. Vance e os garotos estavam na sala de estar agora, vendo algum tipo de jogo na TV.
      - No h nada que eu possa fazer para ajudar? - perguntou Briana. - Com o jantar, quero dizer.
      - Voc podia pr a mesa - disse Heather, sorrindo. Briana foi at o armrio pegar os pratos.
      - Isso est bom, no est? - perguntou Heather, cortando a cebolinha.
      Briana no respondeu.
      Heather virou-se, olhou para ela por cima do ombro.
      - Estou to orgulhosa de Vance - comentou ela. - Ele conseguiu o emprego na primeira tentativa.
      - Imagine s - falou Briana, mordendo o parte interna do lbio inferior para se impedir de fazer outro comentrio.
      Heather franziu os olhos. Talvez ela estivesse detectando o sarcasmo. Mas ento Heather sorriu de novo, afastando a teoria de Briana.
      - Ns temos um quarto extra no trailer - contou. - Vance e eu queremos que os garotos fiquem conosco s vezes, nos finais de semana e depois da escola.
      Aquele era um assunto que Briana no queria discutir at que fosse inevitvel.
      - Os garotos no vo  escola - revelou ela. - Eu os ensino em casa.
      Heather voltou as atenes para os preparativos da salada, cortando os ingredientes com mais fora.
      - Vance disse que vai ter de tomar uma atitude com relao a isso - respondeu Heather, atropelando as palavras. - Seja como for, Alec e Josh querem ser como 
os outros meninos. Jogar bola e coisas assim. Quer dizer, voc tem sido uma tima me e tudo, mas...
      - Heather. - Era a voz de Vance.
      Briana, paralisada, voltou os olhos na direo dele. No moveu nenhuma outra parte do corpo.
      - Bem - irrompeu Heather ?, voc disse que estava com receio de falar alguma coisa quanto a colocar os garotos numa escola de verdade, ento eu...
      Vance estava de p na passagem para a sala de estar, com Alec e Josh agarrados nas laterais de seu corpo. ? Heather - repetiu ele.
      Ela comeou a chorar e disparou para o banheiro, j que no havia nenhum outro lugar aonde pudesse ir.
      - Est tudo bem - disse Briana, fitando por fim os olhos do ex-marido por fim. - E Alec e Josh esto indo muito bem estudando em casa.
      - Eles precisam conviver com outros garotos, Bri - contraps Vance. - Praticar esportes. Viajar com os amigos de classe. Coisas assim.
      - Ento, de repente, voc se transformou no pai atencioso e preocupado?
      Pare, disse o anjo da guarda dela. Pare agora. Os garotos esto ouvindo.
      - Sei que seu pai educou voc em casa - reconheceu Vance, calmo, deixando a pergunta dela passar sem comentrios - e funcionou bem. Mas Alec e Josh so meus 
filhos tambm, e eles vo para a escola no outono, como as outras crianas.
      Alec espiou por trs do cotovelo de Vance. Josh deu um passo adiante.
      - Papai est certo, me - disse Josh. - A gente quer ser como os garotos normais.
      - Alec? - perguntou Briana suavemente.
      - Eu quero ser do time de futebol - falou Alec para ela. - Eu quero andar no nibus escolar e comer no refeitrio da escola.
      Briana sentou e fechou os olhos.
      Tudo estava mudando, e rpido demais.
      Muito, muito rpido.
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO OITO
      
      
      
      
      
      
      Briana teve o domingo de folga e, quando amanheceu, ela se espreguiou demoradamente na cama, adorando a idia de que poderia dormir mais.
      Ento se lembrou. Vance e Heather estavam se mudando para o trailer alugado naquele dia, e Alec e Josh insistiram em ajud-los. O que significava dizer que 
iriam  cidade e passariam o dia na casa nova.
      Vance  o pai deles, Briana lembrou a si mesma. E isso era o que voc queria, no era?
      Ouviu barulho de algo sendo preparado na cozinha. Wanda despertou, se levantou e pulou da cama com fora. Foi at a porta e a cutucou com o focinho.
      Com um suspiro, Briana se ps de p, vestiu o feio roupo amarelo com rosas de chenile nas costas, apertou o cinto e saiu do esconderijo.
      Vance estava completamente vestido e ocupado, fazendo o caf da manh: panquecas e uma mistura de ovos e lingia, especialidade dele.
      Heather estava no banho.
      - Onde esto Alec e Josh? - perguntou Briana, ao abrir a porta dos fundos para deixar Wanda sair.
      - Andando de bicicleta na frente de casa - respondeu Vance, fazendo com que o olhar percorresse o corpo de Briana lentamente. Depois abanou a cabea e desviou 
os olhos. - Encontrei seu vizinho ontem. Logan Creed.
      Briana apenas assentiu com a cabea, seguindo para pegar a trmica de caf. Embora no estivesse acontecendo nada entre ela e Logan, no se sentia  vontade 
discutindo isso com Vance.
      - Acho que ele no ficou com uma boa impresso de mim - comentou Vance, virando uma panqueca.
      Briana ficou paralisada, a xcara de caf a meio caminho de sua boca.
      - O que voc quer dizer? - perguntou ela.
      - Eu talvez tenha parecido um pouco... possessivo. Briana esperava, mas Vance no prosseguiu. Ento ela o incitou:
      - Possessivo? Como assim?
      - Os garotos falam muito dele - contou Vance, concentrado nas panquecas. - Ento apenas lhe lembrei que eles eram meus filhos.
      Briana no conseguiu pensar numa resposta que no fosse comear uma discusso aos berros, ento permaneceu calada.
      Vance se virou no exato momento em que Heather entrava na cozinha, de um lado, e Alec, Josh e Wanda do outro.
      - Podemos conversar sobre isso outra hora - falou Vance.
      O assunto foi deixado de lado. Talvez fosse melhor assim, pensou Briana.
      As panquecas estavam boas, como sempre, e tambm a lingia. Briana no tinha fome, mas comeu, porque sabia que precisaria de energia. Cada novo dia, parece, 
trazia novos desafios, aros de fogo que precisava atravessar, barreiras maiores que precisava saltar.
      - Quer ir  cidade com a gente e ver a casa nova? - perguntou Heather a Briana, quando o caf da manh tinha acabado e a limpeza da mesa e dos pratos comeado.
      Alec olhou para Briana cheio de uma alegre esperana. Josh pediu:
      - Por favor.
      - Tudo bem - disse Briana. Quisesse ela ou no, os garotos passariam muito tempo na casa de Vance e Heather, ao menos por enquanto, e ela precisava saber exatamente 
que tipo de lugar era aquele.
      Briana lavava os pratos e Heather os enxugava. Tendo preparado o caf da manh, Vance saiu com Alec e Josh para deixar a van pronta para partir. O velho carro 
sempre precisava de algum arranjo antes de conseguir sair do lugar - ao menos isso no havia mudado.
      - Eu... eu sinto muito pelo que disse em relao aos garotos irem para uma escola normal - arriscou Heather, assim que ficaram sozinhas. - Eu sa da linha.
      - No tem problema - revelou Briana. Ela tivera a noite inteira para pensar na questo da escola domstica versus escola normal, e resolvera ceder. Dera aulas 
para os garotos em casa desde a primeira srie porque ela e Vance seguiam o rodeio durante a maior parte do ano. Depois, quando se estabeleceram em Stillwater Springs, 
continuou com o expediente, em parte porque Alec e Josh estavam indo muito bem nos estudos e, em parte, porque era um lugar novo e ela agira de maneira superprotetora.
      - Isso vai lhe dar mais tempo livre - sugeriu Heather. -  s no prximo outono, de qualquer jeito.
      Tempo livre? O que ela faria com ele? L fora, o motor da van foi ligado.
      Alec entrou correndo; Josh o seguiu lentamente, com Wanda.
      - Posso ir com papai e Heather? - perguntou Alec, ansioso. Briana sentiu uma dor no peito.
      - Acho que sim. - Tenho que fazer algumas coisas - respondeu Briana rapidamente. No era totalmente mentira; a Biblioteca de Stillwater Springs ficava aberta 
no vero, por causa da chegada de campistas e fregueses do cassino. Ela precisava devolver uma pilha de livros e pegar alguns outros.
      - Vou com mame - disse Josh rapidamente.
      Assim, Briana e Josh seguiram Vance, Heather e Alec at a cidade.
      - Voc vai ficar bem? - perguntou Briana ao filho quando passaram pela entrada do Rancho Stillwater Springs.
      Quando algum consertaria aquela placa que pendia sobre o porto?
      - Se eu vou ficar bem? - perguntou Josh, meio brusco. Na noite anterior, ele quisera dormir na cama dela. Agora,  luz do dia, estava provavelmente envergonhado.
      - Passando o dia na casa nova, com seu pai e Heather - explicou Heather pacientemente. - Voc no precisa fazer isso, se no quiser, entendeu?
      Josh deixou escapar um longo suspiro, dando de ombros.
      - Talvez no seja to ruim - disse ele. - E tudo o que voc vai fazer  ir  biblioteca.
      - E o que h de mau nisso? A gente vai l ao menos uma vez por semana desde que nos mudamos para Stillwater Springs.
      - A gente no se mudou para c, me. Papai nos abandonou aqui.
      - O que isso tem a ver com a biblioteca?
      Na verdade, a sobrevivncia emocional de Briana tinha tudo a ver com a biblioteca, antes e depois do desaparecimento de Vance. As bibliotecas eram lugares 
aconchegantes e espaosos, cheios de livros - e no era preciso ter dinheiro, coisa que Briana no possua, para entrar nelas. Josh e Alec adoraram a bibliotecria 
de l, Kristy Madison, e se sentaram com outros garotos para escutar histrias s vezes, ainda que se considerassem muito grandes para "esse tipo de coisa".
      Isso tambm mudaria?
      O corao de Briana ficou um pouco mais apertado.
      - Acho que no tem nada a ver com a biblioteca - concedeu Josh por fim. ? Alec vai perguntar se pode dormir com papai e Heather.
      Briana no ficou surpresa ao ouvir a ltima coisa que ele disse, mas mesmo assim seu corao acelerou um pouco. O que faria se Alec resolvesse que preferia 
morar com o pai e a madrasta para sempre?
      - Me? - falou Josh ao perceber o silncio dela. Eles passavam por uma srie de placas de anncios ao longo da estrada, cada uma contendo uma frase: Eleies 
Especiais Primeiro de julho Voc Tirou O ttulo De eleitor???
      - Que foi? - perguntou Briana. Ela ouvira dizer que o xerife Book estava querendo se aposentar e estava curiosa para saber quem concorreria ao cargo.
      - Voc vai ficar bem?
      Ela olhou para Josh e viu preocupao em seu rosto.
      - Com papai morando em Stillwater Springs e tudo ? esclareceu Josh, examinando-a com ansiedade.
       A pergunta no era se ela ficaria bem ou no. Era se Josh e Alec ficariam. Vance tinha uma esposa nova, emprego e as melhores intenes, mas ele gostava demais 
da liberdade para ficar muito tempo em um lugar - especialmente em uma cidadezinha como Stillwater Springs. Um dia, to certo quanto a soma de um mais um  igual 
a dois, ele abandonaria o p daquela regio rural, Heather e o emprego, e iria para outra parte.
      Heather ficaria sozinha, mas Briana seria a responsvel por levantar o nimo de Alec e Josh.
      Ela apertou o volante com mais fora.
      - Voc vai ficar bem, me? - insistiu Josh.
      - Vou sim - conseguiu falar Briana.
      Deixaram para trs a estrada que levava ao cassino e Briana ainda podia ver a van de Vance  frente, cuspindo fumaa pelo cano de descarga. Ele s podia ser 
um bom mecnico, se conseguia manter aquela lata velha andando o tempo todo.
      O trailer ainda tinha uma placa de "aluga-se" no jardim de grama crescida e o lixo saa da porta da frente - brinquedos e roupas velhos e vrios outros tipos 
de sujeira - , como se o lugar os houvesse vomitado.
      - Que maravilha - murmurou Briana. Tudo bem, a casa dela no era um palcio. Mas ela aparava a grama e mantinha o jardim limpo.
      - Est precisando de uma faxina - falou Vance, entusiasmado, indo na direo dela, quando Briana saiu da caminhonete.
      - Eca - disse Josh.
      Heather saiu da van, depois que Alec saltou da porta lateral. Segurava uma grande caixa com imensos sacos de lixo na mo e sorria alegremente.
      - Vamos organizar essa baguna - disse ela.
      Josh grunhiu alguma coisa ao sair do carro, mas no mudou de idia quanto a ir  biblioteca com Briana, e ela sabia que isso era significativo.
      - Parece horrvel agora - disse Vance para ela. - Mas  legal por dentro. Entre para dar uma olhada.
      Seus filhos passariam algum tempo naquele trailer, pensou Briana. Abafando um suspiro, ela saiu da caminhonete e seguiu Vance. Contornaram o lixo espalhado, 
subiram os degraus e entraram pela porta da frente.
      - O proprietrio no deveria ter feito uma limpeza? - perguntou ela.
      - Ele deixou o primeiro ms de aluguel de graa, porque ns amos fazer a faxina - contou Heather, quando os trs estavam de p na pequena sala de estar. Havia 
uma quitinete, uma rea onde s cabia um sof e uma TV e, pelo que se podia presumir, quartos e um banheiro ao fundo do corredor,  esquerda.
      O piso estava coberto com muitas garrafas de cerveja, caixas vazias de cereais e outras provas de vida desregrada que Briana no quis seguir adiante com a 
inspeo e saiu.
      Ela consultou o relgio.
      - Bem - disse com um sorriso - , acho que tenho que ir resolver minhas coisas.
      No estaria muito longe dali, disse a si mesma. A biblioteca ficava duas quadras acima e mais outra  direita.
      Caso Josh ligasse pedindo ajuda, atravs do celular que ainda estava com ele, e estaria ali num piscar de olhos. Viria para salv-los.
      - A gente se v mais tarde - despediu-se Vance.
      Ao menos ele no pensava que ela ficaria para ajudar. Isso j seria demais, mas, mesmo assim, Briana se sentiu um pouco culpada por no ter oferecido auxlio.
      Ao voltar para a caminhonete, viu Heather entregar sacos de lixo para Vance, Alec e Josh - um para cada - e eles comearam a catar os detritos.
      Cinco minutos depois, Briana parava o carro no estacionamento da biblioteca, um prdio pequeno, de um andar e tijolo aparente, que datava do governo Roosevelt, 
de acordo com a placa de lato que ficava ao lado da porta de duas folhas. S de olhar para o edifcio, ela j se sentiu melhor. Estava apanhando os livros que precisava 
devolver quando o xerife Book estacionou a seu lado, no volante de seu carro de patrulha.
      Briana sorriu e acenou com a cabea.
      O xerife Book devolveu o aceno e baixou a janela do carro.
      - Tenho dois CDs comigo - disse ele a Briana. - Minha mulher os alugou. Ser que voc poderia devolv-los junto com os livros?
      - Claro que sim - falou Briana, fazendo um malabarismo para segurar meia dzia de livros e pegar os CDs. - Soube que haver eleies especiais - acrescentou, 
lembrando as placas ao longo da estrada, nos arredores da cidade.
      - Sim, senhora - confirmou o xerife Book. - Eu avisei que iria me aposentar hoje pela manh e o comit eleitoral no perdeu tempo em espalhar a notcia. Chego 
a pensar que as pessoas esto contentes com a oportunidade de se livrar de mim.
      Briana sentiria saudades do xerife. Ele a fazia se lembrar do pai um pouco, apesar da diferena de fisionomia, e ela gostava da esposa do xerife Book, Dorothy.
      - Tem alguma ideia de quem vai substituir o senhor?
      Ele pareceu surpreso e, quando falou, ela descobriu por qu:
      - Jim Cavalo Selvagem  o nico candidato at agora. Briana ficou boquiaberta. Ela trabalhava com Jim cinco dias por semana e eles eram amigos. Ele no dissera 
uma palavra sobre a candidatura a xerife.
      - Ah - surpreendeu-se Briana, levando algum tempo para se recuperar. - Eu no sabia.
      - Isso ficou evidente em sua expresso - falou o xerife gentilmente. - Acho que Jim vai fazer um bom trabalho, mas sem dvida haver quem vote contra ele por 
preconceito. Mesmo que ele seja o nico nome na cdula, e duvido que seja, precisa de certa porcentagem de votos para vencer.
      - Ele ter o meu, seja como for - afirmou Briana. O xerife riu e deu a r no veculo:
      - Diga isso a ele e  capaz de acabar como coordenadora da campanha - brincou. - Obrigado mais uma vez por devolver os CDs de Dorothy.
      Briana acenou com a cabea e viu o xerife Book sair com o carro da vaga do estacionamento, fazer uma longa curva e ganhar a estrada principal.
      Mais mudana.
      Ela estava feliz por Floyd e Dorothy. Feliz por Jim tambm, se ser xerife era o que queria, ainda que soubesse que ele deixaria o cassino quando assumisse 
o cargo. Teriam um novo chefe, ento, e esse  sempre um cenrio assustador para quem, como ela, depende de um contracheque.
      Briana segurou a pilha de livros e CDs com mais fora enquanto seguia para a entrada da biblioteca.
      Kristy Madison sorriu para ela de sua mesa.
      Moradora de Stillwater Springs desde que nascera, Kristy no era um bibliotecria tpica. Alta e magra, mantinha o corte de cabelo  altura do queixo e possua 
olhos azuis de porcelana. Na maioria das vezes, vestia jeans, blusa ou suter e botas para ir trabalhar, e naquele dia no foi diferente.
      - Ol - cumprimentou ela, com um sorriso receptivo. Briana deixou os livros e CDs no balco, perto do cartaz escrito  mo onde se lia "Devoluo".
      - Oi - respondeu ela. Agora que tinha as mos livres, Briana mudou a bolsa de ombro e sacou o novo celular do bolso do jeans, mudando para o modo silencioso, 
j que o toque de celulares era proibido na biblioteca.
      Kristy pegou o livro que estava no topo da pilha de Briana e abriu.
      - O que voc achou desse? - perguntou ela. - Ainda no o li.
      - Bom - disse Briana lentamente - consegui ler at o fim.
      - Eis a um julgamento definitivo - comentou Kristy, sorrindo. Ela convidara Briana para almoar algumas vezes, mas Briana sempre dava uma desculpa. Almoar 
em restaurantes no era o tipo de coisa que coubesse em seu oramento, assim como inmeras outras coisas. Alm disso, gostava de passar o tempo livre com os garotos.
      Agora, como antes, Briana se perguntava se Kristy pensava que ela no queria fazer amizade.
      - Alguns livros so melhores que outros - concedeu Briana.
      - A gente vai iniciar um clube do livro com um ms de durao - falou Kristy. - Nossa primeira reunio ser na tera  noite. Eu ia indicar esse livro, porque 
temos muitos exemplares dele, mas agora no tenho tanta certeza.
      Briana, que estava prestes a pedir licena e se dirigir  prateleira de livros recm-chegados - era preciso ser rpida para conseguir os ltimos lanamentos 
se deteve.
      - Um clube do livro?
      ? Para adultos - informou Kristy com um aceno de cabea. Segundo Dorothy Book, que jogava nas mquinas caa-nqueis do cassino com certa regularidade, Kristy 
fora lder de torcida, rainha da beleza e a atriz principal do grupo de teatro do colgio, durante o ensino mdio.
      Briana no tinha rancor dela por causa disso.
      - Mesmo?
      Kristy fez outro aceno com a cabea.
      - Voc est interessada?
      Briana estava to acostumada a dispensar coisas assim que quase disse no. Mas Heather estava certa: ela teria mais tempo livre de agora em diante.
      - Muito interessada - disse.
      - Tera, s sete - reiterou Kristy. - Ns nos encontraremos na sala de reunies, nos fundos, quando a biblioteca fechar. Acho que podemos deixar para resolver 
l o que vamos ler primeiro.
      - timo - disse Briana, sentindo-se inquieta. Estava acostumada a ler com voracidade desde os cinco anos, graas sobretudo ao pai, mas fazer isso por puro 
prazer era algo inteiramente novo.
      Uma mulher mais velha se aproximou da mesa para perguntar a Kristy onde poderia encontrar certo livro de referncia e Kristy se ergueu para ajud-la.
      Briana seguiu para a prateleira de lanamentos. Havia um limite de um livro por pessoa e o perodo para devoluo era mais curto, mas ela pegou o mais novo
livro de Nora Roberts e ficou felicssima.
      Pegou ainda outros livros - um de caubi, um de suspense e um de memrias - e deixou a biblioteca, resistindo  tentao de passar no trailer de Vance e Heather
para se certificar de que os garotos estavam bem.
      Wanda estava sozinha em casa.
      Ela iria para o rancho, deixaria a cachorra sair para passear, prepararia um sanduche de queijo na grelha para o almoo e leria at que Vance trouxesse os
garotos de volta ou telefonasse pedindo para que ela os fosse buscar.
      Ela estava comeando a se acostumar  idia de no ser me em tempo integral. Um pouco.



      Logan viu o caminho com carroceria para transporte de cavalos quando este ainda estava a cerca de um quilmetro e meio distante. Ele e Parceiro esperavam
perto do porto do curral quando chegou.
      Mas quando Briana parou logo atrs, dirigindo a velha caminhonete que Dylan dirigia, ficou um tanto surpreso.
      O motorista do caminho desceu da boleia, puxou a aba do chapu para saudar Briana e foi at os fundos da carroceria para abri-la.
      - Voc tem cavalos? - perguntou Briana, protegendo os olhos do sol. Seu tom de voz era excitado, quase reverente.
      - Agora tenho - disse Logan. - D-me licena um minuto. Preciso ajudar a descarregar.
      Briana seguiu atrs dele.
      - Eu estava passando, a caminho de casa, e vi o caminho... Logan sorriu, feliz por ela estar ali. Briana permaneceu por perto, enquanto ele e o motorista 
- Bob, de acordo com o nome costurado na camisa - enlaavam os cavalos e os traziam para o cho, um a um, atravs de uma rampa. Parceiro se mantinha a distncia, 
voltando at o alpendre para observar a operao.
      O ruo castrado, de estrutura forte, desceu primeiro, e Briana estava bem ali para saud-lo. Ela se sentia bem perto de cavalos, pensou Logan, impressionado. 
Mas ela era filha de McIntyre, o Louco. Claro que conhecia cavalos.
      Ele se sentia arrebatado s de olhar para ela de p, ali, no meio de toda aquela poeira da estrada, com a ateno inteiramente voltada para o ruo, fios do 
cabelo louro, levemente avermelhado, escapando da trana e brilhando ao sol. A primeira mulher de Logan tinha pavor de cavalos. A segunda tinha alergia.
      Mas ali estava Briana, nariz colado a um deles e, claramente, conseguindo interagir. Talvez at criando laos.
      Logan desviou os olhos e voltou ao servio. Bob fez descer a gua malhada de marrom e branco, depois o castrado cinza, e quando Logan trouxera ao cho o quarto 
animal, uma potra preta, nova demais para ser cavalgada, Briana j deixara o ruo no curral.
      Ela recebeu cada um dos cavalos quando foram desenlaados, conversando alguma coisa com eles silenciosamente, e Logan queria por tudo no mundo, saber o que 
ela lhes dissera.
      Ele pagou Bob pela entrega, esperou que o caminho retornasse pela estradinha que levava ao rancho e s ento se aproximou do curral. quela altura, Briana 
estava do lado de fora da cerca, empoleirada na tbua mais baixa, admirando os recm-chegados.
      - Eles so lindos - sussurrou ela.
      Eram cavalos de boa aparncia, vigorosos e, at onde Logan podia dizer, de temperamento calmo... mas lindos? Ele no conseguia ver isso.
      Talvez ele estivesse muito preso  percepo de que Briana era linda. Ele j a achava atraente antes, mas ao v-la com os cavalos - bom, havia algo mstico 
naquilo. Algo que o tocou profundamente e deixou marcas.
      - Voc sabe cavalgar? - perguntou Logan, sentando-se a seu lado, perto o suficiente para que a parte superior dos braos deles se tocasse. Ele sabia a resposta, 
s fizera a pergunta para estimular a conversao.
      Briana fez que sim com a cabea e afastou um cacho de cabelo da cor do cobre da testa, sem tirar os olhos dos cavalos. Eles corriam ao redor do curral, levantando 
poeira e comemorando todos a sada do caminho. Mais tarde, estabeleceriam certa ordem hierrquica, o que envolveria alguns relinchos e mordidas, mas a gua malhada 
acabaria vencendo. A gua mais velha sempre acabava no comando.
      - A nica coisa de que sinto falta no rodeio, alm do meu pai - comeou Briana, sem olhar para Logan -  dos cavalos.
      - Preciso amaci-los primeiro - disse Logan - , mas, se eles ficarem mansos o bastante, voc pode cavalg-los a qualquer momento que quiser.
      Ela virou a cabea e Logan viu uma variedade de emoes passarem em seus olhos, mas no conseguiu identificar nenhuma delas.
      - Ah, esses cavalos so mansos - afirmou ela, confiante. - S esto excitados,  tudo.
      Logan se sentiu um bobo, embora no soubesse exatamente por qu. Mais que isso, desejava beijar Briana Grant ali, naquele momento.
      No o fez porque, embora no houvesse ningum por perto, pois os homens que trabalhavam no estbulo se recusavam a trabalhar aos domingos, mesmo recebendo 
hora extra, queria alguma privacidade quando beijasse Briana.
      Ela olhou na direo da casa, depois voltou a encar-lo.
      Tudo o que ele precisava fazer era inclinar o corpo um pouco...
      Logan percebeu estar olhando para a boca de Briana. Isso no era bom.
      Ele se levantou da cerca. J colocara gua e um pouco de feno no enferrujado cocho. Agora no havia nada a fazer a no ser esperar que os cavalos se adaptassem.
      - Onde esto os garotos? - perguntou Logan, porque no pensou em nada melhor para dizer. Ele pareceria um idiota se a convidasse para tomar uma bebida refrigerante 
dentro de casa, no pareceria? Seria o mesmo que sugerir que deixassem as preliminares de lado e partissem direto para fazer amor.
      Nada de pensar assim.
      Mas era fcil demais imaginar-se tirando as roupas de Briana e fazendo amor com ela com as janelas abertas, tocado pela brisa da tarde de vero. Pele tocando 
pele.
      - Esto com o pai - respondeu Briana. - E com a madrasta.
      - Heather - disse Logan, esperando no revelar pelo tom da voz o quanto estava aliviado.
      Briana ergueu uma sobrancelha interrogativa.
      - Alec a mencionou ontem - explicou ele. Graas. No haveria uma reconciliao entre eles. Vance Grant estava casado.
      -  melhor eu ir embora - disse Briana. - Wanda est sozinha em casa.
      Logan se viu correndo para acompanh-la, enquanto Briana se dirigia  caminhonete de Dylan.
      - Briana...
      Ela se deteve, a porta do carro aberta, e olhou para ele. Briana estava coberta de p daquele jeito e Logan s pensava em limp-la com a prpria lngua.
      - Voc e Vance...
      - No temos nada - completou ela. - Ele est casado, lembra?
      Se ele se lembrava? Ele sentia vontade de escrever aquilo no cu para todo mundo ver.
      - Eu estava pensando em fazer um churrasco hoje  noite - disse Logan. Churrasco? Havia churrasqueira em algum lugar da casa? - Seria timo se voc e os meninos 
pudessem vir jantar comigo.
      Briana levou tanto tempo para responder que Logan comeou a questionar se dissera as palavras em voz alta ou apenas pensara.
      - Tudo bem - falou ela. - Que horas?
      Ele precisava ir  cidade, comprar uma churrasqueira e algo para grelhar. Aquilo lhe tomaria uma hora, no mximo.
      - Seis em ponto? - perguntou Logan, dizendo um horrio sem pensar muito.
      - Eu venho - disse Briana. - Trago alguma coisa? Fao uma tremenda salada de batatas.
      - Salada de batatas - concordou Logan, quase tropeando nas palavras.
      - At mais tarde - despediu-se ela. Ento, depois de fechar a porta, ligou a velha caminhonete e foi embora.
      Logan esperou que ela desaparecesse para dar um salto e um soco no ar com o punho fechado.
      
      
      
      
      - A casa est bem limpa - disse Josh, sussurrando ao telefone celular. - A gente catou toda a sujeira e levou at o depsito de lixo na van de papai, e Heather 
est cozinhando espaguete com almndegas para o jantar, e...
      Ouvindo tudo isso enquanto adicionava mostarda  salada de batatas, Briana sabia o que estava por vir.
      - E eles querem saber se Alec e mim podemos passar a noite aqui.
      - Alec e eu - corrigiu Briana automaticamente.
      - A gente podemos?
      - A gente pode?
      Josh deixou escapar um suspiro.
      - Alec e eu podemos passar a noite aqui?
      Briana enrugou a testa, lembrando os temores que Josh demonstrara mais cedo.
      - Tem certeza de que voc vai ficar bem?
      - A gente tem celulares agora, me - lembrou Josh. - Se alguma coisa acontecer, eu ligo para voc.
      Ela sorriu, ainda que um tanto melanclica.
      - Qual  sua definio de alguma coisa? Josh baixou um pouco mais a voz.
      - Bom, se papai empacotar tudo, colocar as malas na van e disser que a gente vai dar uma volta, alguma coisa assim.
      - Vocs podem passar a noite a - disse Briana. Os olhos dela ardiam, cheios de lgrimas, e a garganta estava apertada, mas ela sorria.
      - Ela disse que pode - contou Josh ao irmo. Alec soltou um de seus famosos berros de alegria.
      - E as escovas de dente, pijamas e coisas assim? - perguntou Briana, voltando-se a assuntos prticos de novo.
      - Papai disse que a gente pode usar camisetas dele e Heather comprou escovas de dente quando foi ao supermercado.
      - Tudo bem - concordou Briana, sentindo-se suprflua de repente.
      - Tchau, me - falou Josh.
      - Espere! - exclamou Briana. - Que horas passo a para pegar vocs amanh?
      Josh retransmitiu a pergunta e ento Vance entrou na linha.
      - Voc tem que trabalhar amanh, no ? - perguntou ele. Briana fez que sim com a cabea, depois se lembrou de que Vance no podia v-la.
      - Sim - respondeu ela. - Mas voc e Heather tambm, no ?
      - Eu preciso estar na oficina s oito respondeu ele. ? Heather s comea o trabalho por volta das duas da tarde. E se ela levasse os meninos ao cassino antes 
de ir trabalhar?
      Briana fechou os olhos. Eram assim que as coisas seriam por um tempo e era melhor aceit-las. Mas Heather era uma estranha para ela e para os meninos. E se 
ela tivesse um lado sombrio, ou dormisse at o meio-dia, deixando Alec e Josh sozinhos? E se bebesse ou tomasse drogas?
      E se fosse simplesmente uma pssima motorista?
      - No sei - disse Briana, insegura.
      - Voc no confia em Heather? - perguntou Vance. Ele sussurrara as palavras, mas todos nos trailer provavelmente as escutaram. Afinal de contas, no era um 
espao dos maiores.
      - Eu no disse isso, Vance ? respondeu Briana. - Eu no conheo Heather,  isso.
      - Bom, eu conheo, e se confio nela para cuidar de meus filhos...
      At parecia que ele sempre fora um pai devotado, que demonstrava preocupao pelo bem-estar de Alec e Josh. At parecia que ele no... Vance suspirou.
      - Se os garotos no se sentirem  vontade, por algum motivo, Briana - disse ele com cuidado - podem ligar para voc e voc vem busc-los.
      Briana piscou os olhos, passou o antebrao sobre os olhos.
      - Parece justo - disse ela.
      Vance ainda estava com raiva, percebeu Briana. Mas ele manteve os nervos sob controle, e s isso j demonstrava um avano.
      Talvez ele estivesse mudado de verdade.
      E talvez se ela vestisse uma roupa de fada, tivesse uma varinha mgica e desejasse muito, pudesse desaparecer dali e reaparecer no Kansas.
      - Tchau, Briana - disse Vance e depois desligou, batendo o telefone com uma fora que fez os tmpanos dela estalarem.
      Briana recolocou o receptor no gancho e olhou para baixo, na direo de Wanda, que estava ali por perto, abanando o rabo, hesitante.
      - Acho que seremos s eu e voc essa noite, garota - disse Briana.
      Depois voltou a trabalhar na salada de batatas.
      No seriam apenas ela e Wanda naquela noite, lembrou-se, com uma mistura de entusiasmo e pnico.
      Ela aceitara o convite para um churrasco na casa de Logan.
      Claro que, ao faz-lo, pensava que Alec e Josh iriam com ela, assim como Wanda.
      Ela ao menos saberia o que dizer a Logan quando os dois estivessem a ss? O que deveria vestir?
      Briana ficava bem no leve vestidinho azul de bolinhas, mas no queria que a roupa desse a impresso de que estava se oferecendo.
      Ser mesmo?
      E se ele a beijasse?
      E se eles acabassem fazendo amor?
      Ela definitivamente no usaria o vestidinho de bolinhas.
      Jeans, era isso. Ele no prometera que ela poderia cavalgar? Com certeza, o ruo e os outros haviam se amansado agora, se costumado ao lugar.
      Jeans passaria a idia de uma pessoa agradvel, no de oba-oba.
      Ser que algum ainda dizia oba-oba hoje em dia?
      Briana tomou um banho s 17h30, deixando o celular por perto, sobre a privada, para o caso de alguma coisa acontecer no trailer, l na cidade. Ela vestiu jeans 
preto e um pulver, como planejado, depois hesitou e acabou por vestir o vestidinho de bolinhas, no final das contas. E at mesmo calou um par de sandlias de salto 
alto.
      s 18h15, ela, Wanda e a salada de batatas entraram na caminhonete e seguiram para a casa do vizinho.
      Era cedo demais para fazerem amor, disse Briana a si mesma, estivesse ou no de vestidinho de bolinhas. No conhecia Logan h tempo suficiente para dormir 
com ele. Seria apenas um churrasco entre amigos.
      No, senhor, eles no iriam fazer amor naquela noite.
      Provavelmente no, pelo menos.
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO NOVE
      
      
      
      
      
      
      Tudo bem, disse Logan a si mesmo, ao marinar carnes para o churrasco em sua cozinha no reformada, era cedo demais para tentar seduzi-la, fosse como fosse. 
S conhecia Briana Grant h alguns dias, embora parecesse mais tempo - como se fosse algo mstico, que envolvesse vidas passadas e coisas do tipo - e estava certo 
de que ela traria as crianas para o jantar.
      Se isso no fosse suficiente para desencorajar uma tomada de atitude, Jim Cavalo Selvagem estaria presente. Ele ligara meia hora antes para dizer que estava 
disposto a aceitar o convite que Logan lhe fizera para aparecer a qualquer momento.
      "Qualquer momento" acabou sendo aquela noite.
      Por fim, funcionrios do aeroporto de Missoula entraram em contato com ele tambm. O cachorro de Laurie chegara - tpico de Laurie: ela se esquecera de ligar, 
como prometera, para passar os dados da companhia area, nmero do voo e o horrio de chegada - e ele conseguira, a um custo bastante considervel, que o co fosse 
entregue em seu rancho atravs de correio privado.
      - Os melhores planos sempre do errado - disse ele a Parceiro, que estava com o olhar atento s carnes que Logan tirava de uma vasilha de tempero e vinagre 
para outra. Ainda bem que ele comprara algumas bistecas a mais no supermercado. Do jeito que as coisas iam, no se impressionaria se metade de sua turma dos tempos 
de escola aparecesse tambm, para uma reunio de improviso.
      Quando os bifes estavam mergulhados no molho, Logan saiu para alimentar os cavalos. Era bom ter aquilo para fazer - todo o trabalho no rancho estava, naquele 
momento, sendo levado adiante pelos empreiteiros.
      Isso, claro, se modificaria com a chegada do gado. Logan encontrara a velha sela do pai debaixo de uma pilha de lixo no estbulo mais cedo naquele dia, bem 
como outro lao, e os trouxe para dentro de casa, pensando em limp-los um pouco. Pretendia cavalgar pela manh. Dar uma olhada no estado real do Rancho Stillwater 
Springs,  moda antiga, no dorso de um cavalo.
      Ele estava pulando a cerca do curral quando Briana chegou, sozinha, acompanhada apenas de Wanda, sentada a seu lado no banco do carona.
      Estava sem as crianas, pensou Logan, meio intrigado e decepcionado.
      Briana quase fez o corao dele parar quando saiu da velha caminhonete de Dylan, usando um vestidinho que deixava os ombros nus e mostrava boa parte das pernas. 
At calava sandlias de salto alto, e ela parecia envergonhada quando caminhou na direo de Logan. Ela era uma garota que costumava vestir botas e jeans, sentia 
desconforto em calados de cidade grande, pensou Logan, e a percepo mexeu em algo profundo dentro dele.
      Ele desejava poder ligar para Jim e pedir que viesse outro dia, mas no seria correto dispens-lo. Cavalo Selvagem era seu melhor amigo desde o jardim da infncia, 
afinal de contas, embora tenham permanecido muito tempo sem contato. Ele fizera muitas outras amizades, no rodeio e no erguimento de sua empresa, mas nenhuma delas 
era melhor que a de Jim.
      Logan se encontrou com Briana no meio do jardim, curvou a cabea na direo de Wanda, esquecida no velho carro, apoiando as patas na janela lateral e latindo 
ansiosamente.
      - Eu vou peg-la - disse ele.
      Briana ficou vermelha - at mesmo os ombros dela ganharam uma colorao de tom rosado. Seria bvio demais se ele checasse as pernas dela tambm, mas Logan 
certamente queria fazer isso.
      - Obrigada - respondeu ela, observando-o ir at a caminhonete, abrir a porta, segurando Wanda e a levando at o cho.
      - Voc precisa parar de comer - disse ele para a cachorra. Logan estava miseravelmente consciente, o tempo todo, de estar usando roupa de trabalho, coberta 
de fragmentos de feno, que contrastava com a pele e o cabelo cheirosos de Briana.
      Sentia tambm certa culpa, sempre sentia certa culpa. Inadvertidamente, ele a deixara mal. Jim, afinal de contas, era o chefe de Briana, e ela no sabia que 
ele viria.
      - Pensei que voc fosse trazer Alec e Josh - disse Logan, aproximando-se. Ele ofereceu o brao para ajud-la, porque os saltos das sandlias de Briana mergulharam 
na lama e ela parecia estar presa.
      - Esto com o pai - respondeu Briana. Ento, com um franzir de testa, apoiando-se nele um pouco, de modo que o fogo subiu pelo corpo inteiro de Logan, ela 
acrescentou: - Essas sandlias so ridculas.
      - Voc poderia tir-las - falou Logan. Estranhamente, o momento parecia ntimo, como se ele houvesse pedido para que ela ficasse inteiramente nua, e no apenas 
para que tirasse as sandlias. Elas eram bem fteis, mas sensuais como tudo. Havia outro lado de Briana Grant que ele estava disposto a explorar.
      Ela olhou para o cho intransitvel, ainda coberto de vidros quebrados aqui e ali, apesar do admitido esforo intil que ele vinha fazendo desde que chegara 
para limp-lo. Briana abanou a cabea.
      - Eu no devia t-las calado - lamentou ela. - No sei o que estava pensando.
      - Voc est muito... muito bonita - elogiou Logan.
      - Talvez eu deva voltar para casa e mudar de roupa - sugeriu Briana, aflita, mordendo o lbio inferior de um jeito que o fez inchar um pouco e parecer extremamente 
beijvel. E precisando que Logan o mordiscasse infinitamente.
      Logan queria faz-la abandonar a idia de ir se retirar, e logo. Se Briana voltasse para casa, talvez no voltasse, principalmente se ele lhe dissesse que 
Jim estava a caminho do rancho naquela exato momento.
      - Fique - pediu Logan, e sua voz saiu em um tom rouco, nada parecido com o falar arrastado de Montana que era de seu hbito.
      Briana olhou para ele e Logan se perguntou o que se passava por trs daqueles olhos esverdeados. Estaria ela desejando no ter vindo?
      Naquele momento, antes que ele pudesse avis-la, o Porsche preto reluzente de Jim apareceu na distncia.
      - Voc precisa consertar aquela placa - comentou Cavalo Selvagem ao sair do carro, carregando uma caixa de cerveja na mo. - Quase arranhou o teto do meu carro.
      Briana no ficou exatamente tensa - a sorte era que ela gostava de Jim, como a maioria das pessoas mas Logan percebeu sua reao  chegada dele, mesmo assim. 
Uma espcie de enrijecimento, to sutil que, se ele estivesse um centmetro que fosse afastado dela, no teria notado.
      - No tive chance de explicar - disse Logan com calma, perto do ouvido dela. No era inteiramente verdade, claro: ele no aproveitara a chance para explicar. 
Estivera muito ocupado pegando-a pelo brao e se perguntando se as sandlias de salto alto foram usadas com inteno de passar a mensagem que passavam.
      O olhar embaado e selvagem de Jim recaiu sobre o vestidinho de Briana e provavelmente sobre os ombros e as pernas dela tambm.
      Logan sentiu uma punhalada primitiva de pura irritao possessiva. A emoo equivalia a traar um crculo ao redor de Briana Grant para afastar qualquer macho 
que pudesse sentir seu cheiro ao vento.
      - Jim - disse Briana, com uma surpresa amigvel. Os olhos de Jim se desviaram para o rosto de Logan.
      - Eu no queria me intrometer - falou ele, acentuando as palavras para destac-las.
      -  s um churrasco entre vizinhos - avisou Briana alegremente, ainda de p ali, com um aspecto maravilhoso, os sapatos profundamente enterrados na terra de 
Montana. Com a prxima chuva, ela se transformaria na lama viscosa que os nativos chamavam de "gumbo". Ela virou a cabea, olhou para o rosto de Logan; ele viu confuso 
na expresso dela. - No estou certa, Logan?
      - Sim,  isso mesmo - confirmou Logan, tomando cuidado para no pronunciar as palavras com um suspiro. Depois, num impulso impensado, apanhou Briana nos braos 
e a carregou na direo da casa, deixando Jim atrs para segui-los. Se houvessem lhe perguntado, ele teria dito que fez isso porque ela podia quebrar o tornozelo, 
andando em frente  rea do estbulo com aqueles sapatos finos, mas esse no era o nico motivo, e ele sabia disso.
      Jim os seguiu, provavelmente se divertindo, assim como Wanda e Parceiro.
      Logan deixou Briana de p novamente quando chegaram ao alpendre.
      Ela parecia confusa e vermelha dos ps  cabea, e imediatamente ajeitou as laterais do vestido, como se tivesse medo de que ele houvesse se levantado. Mas 
no reclamou, percebeu Logan, e isso o fez se sentir melhor do que se tivesse ganhado na loteria.
      Depois de guiar Jim e Briana pelo interior da casa at a cozinha, ele entrou no banheiro principal para tomar um banho rpido e trocar de roupa. Quando saiu 
de novo, os dois convidados estavam sentados  mesa de madeira com bancos no terrao, bebendo cerveja. Os cachorros estavam deitados amigavelmente aos ps deles, 
e o quadro inteiro pareceu ntimo demais para o gosto de Logan.
      Ele deixou de lado a onda de cime que sentiu, sabendo que era bobagem. Jim era seu melhor amigo e, alm de tudo, no tinha interesse por Briana Grant.
      O sorriso que Logan recebeu quando ele saiu pela porta o tocou de um jeito que o deixou ainda mais confuso do que o ataque possessivo que tivera.
      - Agora  oficial - anunciou ela. - Jim vai concorrer ao cargo de xerife.
      Ela descalara as sandlias. Estavam sentados de um jeito esquisito pelo que Logan via debaixo da mesa.
      Ele ficou morrendo de raiva. Mas, de novo, esperou que passasse.
      - Que bom - disse ele, depois de um silncio prolongado, durante o qual Jim levantou uma sobrancelha e entortou um canto da boca num sorriso convencido.
      - Ser uma eleio dura - avaliou Jim. - Quer uma cerveja? Logan abanou a cabea:
      - Mais tarde, talvez. - Ele se aproximou da churrasqueira que comprara naquele dia na loja de departamentos, ergueu a tampa brilhante de to nova e foi sufocado 
pela fumaa.
      - Acho que o fogo est pronto - observou Jim secamente. Depois, deu uma piscada de olho para Briana. - Eu conheo essas coisas.  o sangue indgena.
      Briana riu.
      Logan no estava nada contente, mas sorriu para o amigo.
      - Vou pegar a carne - informou ele. Voc  um gnio para criar frases, Creed, disse a si mesmo.
      Jim se levantou e o seguiu at a cozinha.
      - Quer que eu v embora? - perguntou ele, enquanto Logan retirava os bifes marinados da geladeira. quela altura, imaginava que j houvessem pegado o gosto 
do tempero.
      - No - respondeu Logan, mas a palavra soou carregada de irritao. No era inteno dele, ento Logan suspirou, largando o prato com as carnes em cima do 
balco com um som seco. Passou a mo pelo cabelo molhado do banho.
      Jim riu, depois deixou escapar um assobio, baixinho.
      - Relaxe, rapaz - falou ele. - Voc est exibindo seus instintos masculinos primitivos.
      - Droga - resmungou Logan.
      Jim gargalhou, abanando a cabea.
      ? Por que voc simplesmente no me disse para no vir, Logan? Eu teria entendido.
      Logan deixou escapar outro suspiro. Ele vinha suspirando muito, desde que voltara a Stillwater Springs. Mais acertadamente, desde que conhecera Briana Grant, 
fazendo piquenique com os filhos e a cadela em um cemitrio - em um cemitrio, imagine!
      - Talvez, por algum motivo - admitiu Logan - , eu no me sentisse seguro para ficar sozinho com ela.
      - Ela lhe d medo? - perguntou Jim, sorrindo, os expressivos olhos negros brilhando de prazer. - Ah, rapaz, voc est perdido por essa mulher.
      - Acabei de conhec-la.
      Jim cruzou os braos morenos. Ele estava usando, como Logan conseguiu finalmente perceber, uma camisa polo branca, de mangas curtas, cala preta bem passada 
e sapatos engraxados. Parecia um... poltico.
      - No importa - disse ele. - Conheo esse olhar quando vejo. Parece o de um touro bravo correndo a mil quilmetros por hora.
      - Voc vai mesmo concorrer a xerife? - indagou Logan, mas sorriu com a imagem que Jim fizera. Ele se sentia como aquele touro imaginrio, a mil por hora, seguindo 
por um caminho desconhecido, indo aonde s Deus sabia.
      - Voc acha que tenho condies de vencer? - perguntou Jim, e ele parecia srio agora. Estava com as mos nos quadris, sobrancelhas unidas.
      - Por que no?
      - Bom, para comeo de conversa, sou um pele-vermelha.
      - Muito politicamente incorreto - falou Logan, apanhando o prato cheio de carne. - Voc deveria dizer "amerndio".
      - Obrigado, branquelo - retrucou Jim, sorrindo. - Vou me lembrar disso.
      Logan seguiu para a porta dos fundos. Briana estava l fora, linda, maravilhosa, fantstica, atraindo-o como um m, e parecia ainda mais poderosa porque no 
passava a impresso de fazer idia de que estava causando aquele efeito nele.
      Ele sentiu outra fisgada, dessa vez no meio do peito, ao v-la se curvando para acariciar a orelha de Parceiro, aquela em que faltava um pedao. Devia ter 
parado de andar, porque Jim o abalroou por trs.
      Praticamente o fez tropear escada abaixo.
      Imaginando que cairia de cara no cho com o prato de carne crua temperada, Logan se livrou do estupor em que estava o melhor que pde.
      -  melhor voc deixar o Grande Chefe assar as carnes, cara plida - disse Jim falando baixo, passando por Logan e pegando o prato que estava nas mos dele. 
- Voc parece estar um tanto desatento essa noite.
      Ele estava distrado realmente, provavelmente queimaria o jantar. Pegou uma das cervejas que Jim trouxera e se sentou perto de Briana na mesa de madeira, mas 
no muito prximo.
      Os trs comeram salada e falaram sobre coisas do dia a dia. No final das contas, a carne ficou boa.
      Jim demorou a ir embora, no entanto. Mesmo quando o jantar terminara, os mosquitos comearam a incomodar e os cachorros limparam os ossos da carne inteiramente, 
ele permaneceu ali.
      S quando entraram em casa para se livrarem dos insetos, o "Grande Chefe" deu adeus, seguiu para o Porsche e foi embora.
      Mas ele mal acabara de sair quando o entregador chegou, trazendo a encomenda do aeroporto: Querido.
      A caixa parecia pequena, pensou Logan, saindo para receber o rapaz e pegar a entrega. No percebeu Briana, de p no alpendre, observando tudo o tempo todo.
      Ele suspirou, pegou a caixa pela ala e olhou para dentro.
      Querido, no final das contas, era um daqueles cachorrinhos fofinhos e afetados, com pelo descendo at o cho e um lao azul no topete. O tipo de cachorro que 
late com qualquer barulho.
      - timo - resmungou Logan.
      - Que lindinho - disse Briana quando ele voltou ao alpendre. Em um instante de profunda tolice, Logan pensou que ela estava se referindo a ele. J o haviam 
chamado de muita coisa na vida, mas "lindinho" no era uma delas. Ela est se referindo ao cachorro, bobo, falou para si mesmo.
      - Esse  Querido - apresentou Logan. Ela deu uma risada. Olhou para ele.
      - Querido?
      ? De agora em diante - resolveu ele na hora ?vai se chamar Malvado. Caso contrrio, vo rir dele aqui em Montana.
      Ele colocou a caixa sobre o cho do alpendre e Parceiro e Wanda a cheiraram com curiosidade, fazendo com que Malvado recuasse at os fundos do recipiente de 
plstico.
      - Ah, ele est com medo - percebe Briana, afastando gentilmente Parceiro e Wanda e se postando no degrau mais alto para abrir a caixa e enfiar a mo dentro.
      O pequeno cachorro tremeu e lambeu o rosto dela com ansiedade.
      Logan queria poder fazer aquilo. Lamb-la, no tremer. Briana riu suavemente.
      - Est tudo bem - disse ela para Malvado. - Ningum vai machucar voc.
      Parceiro e Wanda se aproximaram para cheir-lo um pouco mais, depois perderam o interesse e foram caar insetos no jardim.
      Com certo atraso, Logan se sentou ao lado de Briana, no degrau mais alto, e cruzou os dedos, deixando as mos pendendo entre os joelhos. Briana parecia esquecida 
dos mosquitos naquele momento, toda a sua ateno estava voltada para o cachorro extremamente peludo.
      - Um yorkshire - disse ela, ainda admirando Malvado. Erguendo-o do mesmo jeito que faria com um beb para tir-lo do bero. - No  o tipo de cachorro que 
eu esperaria que voc escolhesse.
      - Eu no o escolhi - resmungou Logan, j mais dcil com a pobre criaturinha, embora fosse virar alvo de gozaes quando Jim e os trabalhadores da construo 
dessem uma olhada naquela bolinha de pelos. - O cachorro era da minha ex-mulher. Ela teve de se desfazer dele por causa de regras de condomnio ou algo assim.
      Briana no respondeu logo, nem ao menos olhou para ele. O rubor apareceu de novo, nas laterais do rosto, sob as orelhas. Uma necessidade de beij-la ali tomou 
Logan como uma espcie de mquina pesada impulsionada por um motor de baixa potncia.
      - Josh e Alec estavam querendo saber se voc tinha filhos - arriscou ela e ficou ainda mais vermelha.
      - No tive essa sorte - lamentou Logan. - A gente no devia entrar, Briana? Antes que os mosquitos nos comam vivos?
      O olhar dele topou com o dela ento. Briana ps Malvado no colo de Logan e se levantou, mas no para entrar, como ele sugerira. Parecia estar prestes a ir 
para casa, pronta para relaxar.
      - Foi boa - disse ela. - A noite, quero dizer. Obrigada.
      ? Eu devia ter lhe avisado que Jim viria. Foi uma coisa de ltima hora e...
      - No tem problema - respondeu ela. - Gosto de Jim.
      Quanto? Era o que Logan queria saber, mas no perguntou.
      Ele se levantou lentamente do degrau do alpendre, com cuidado para no espicaar o nervoso yorkshire, pequeno demais at para suas mos. O bicho no era maior 
que um rato. Que tipo de cachorro de rancho era aquele?
      - Quer que a leve at a caminhonete? - perguntou Logan sem pensar, e depois teve vontade de dar um pontap em si mesmo por fazer uma pergunta to idiota.
      - Acho que consigo chegar l sozinha - disse ela e, embora a boca de Briana tenha permanecido inalterada, os olhos brilharam com um sorriso. - Mas obrigada 
por perguntar.
      Logan ficou observando enquanto ela se requebrava na direo da lata velha que Dylan dirigira na poca de colgio, o corpo de Wanda ondulando atrs dela. Briana 
se deteve uma vez, provavelmente para retomar o equilbrio, e olhou na direo dos cavalos, quietos no curral, o sol se pondo atrs deles, dourando suas crinas e 
a linha de seus corpos.
      Era aquela cena tpica de Montana que fazia Logan perder a respirao ou era a mulher que olhava para ele, protegendo os olhos com a mo?
      O momento parecia eminentemente precioso, o tipo de coisa que um homem lembra pelo resto da vida. Logan sabia que se sentaria no alpendre, quando estivesse 
muito, muito velho, se lembrando da maneira como tudo acontecera, dos cavalos, do pr do sol e de Briana daquele jeito, divinamente parada.
      Rapidamente, tudo acabou.
      Malvado se mexeu nas mos de Logan e ele colocou o cachorro no cho do alpendre. O yorkshire levantou uma pata traseira e fez xixi sobre um vaso que continha 
uma planta morta havia muito tempo,
      E Briana acenou, entrou na caminhonete - um movimento em si maravilhoso, considerando-se o quanto era curto o vestidinho dela - e foi embora.
      Logan a observou at perd-la de vista.
      Talvez Jim estivesse certo, pensou Logan. Ele sempre fora confiante com as mulheres, sabia o que fazer e o que dizer. Com Briana era diferente, ela o fazia 
se sentir estranho e, ao mesmo tempo, mais homem.
      Ele estaria "perdido" por ela, como Jim dissera?
      Logan avaliou a possibilidade, depois abanou a cabea.
      - No - disse para Parceiro e os dois voltaram para dentro de casa, Malvado requebrando o corpo atrs deles.
      
      
      
      
      A casa ficava silenciosa demais s com ela e Wanda.
      Antes de mais nada, Briana se livrou das sandlias. No apenas as retirou, mas atirou na lata de lixo por precauo. Ela certamente parecera ridcula, andando 
com afetao por a com elas, como se fosse uma presunosa.
      Foi at a sala de estar e ligou a televiso. Passou por alguns canais. Como acontecia normalmente, no estava passando nada alm do noticirio e comdias bobas. 
Sem TV a cabo ou paga, no conseguia pegar o Discovery e o History, seus canais favoritos.
      Soltando um suspiro, desligou a televiso e se dirigiu  janela. As luzes da casa de Logan tremulavam como tochas amarelas atravs dos galhos das venerveis 
macieiras do pomar.
      Briana sorriu, lembrando-se do quanto Logan e o yorkshire no combinavam. Ficou imaginando que tipo de relao ele tivera com a ex-mulher. Claro que eram amigos 
o bastante para que ele se dispusesse a ficar com o cachorro assim de repente.
      Um som abafado de campainha chegou at ela da cozinha. Briana estranhou, depois percebeu que era o celular, tremendo no interior da bolsa. J que s Vance, 
Heather, Josh e Alec tinham o nmero, ela correu para atender, cavoucando dentro da bolsa para achar o aparelho.
      O toque parou, depois voltou a soar imediatamente.
      - Al? - falou Briana, subitamente ansiosa.
      - Bri-Briana? - Era a voz de Heather e ela parecia sufocada. O cmodo comeou a girar ao redor de Briana.
      - Sim! Heather, o que foi...? Heather comeou a soluar.
      Ai, meu Deus, pensou Briana, o corao subindo at a garganta. Eu sabia, eu sabia... aconteceu alguma coisa... Vance entrou na linha.
      - Alec est bem - informou ele rapidamente, mas sua voz estava mais rouca que o habitual, e mais grave.
      - Alec est... Vance, o que aconteceu?
      - Ele quebrou o brao, s isso - respondeu Vance, irritado. - O bobo do garoto estava correndo atrs da van quando Heather dava r para ir ao supermercado 
comprar leite... deve ter ficado no ponto cego. Bom, ela o atropelou e estamos no pronto-socorro da clnica.
      Briana se segurou na borda da mesa, esperando que a cozinha parasse de girar.
      - Um brao... Ela o atropelou...?
      - Acalme-se - interrompeu Vance. - Foi um acidente, e no foi grave. Ele vai ficar engessado pelo resto do vero, s isso.
      Briana comeou a respirar descontroladamente. Precisava chegar ao pronto-socorro, mas tremia tanto que pensou que desmaiaria e sairia da estrada se tentasse 
e, alm disso, ela tomara algumas cervejas na casa de Logan.
      - Eles no vo faz-lo ficar a a noite toda ou coisa assim? - ouviu a si mesma perguntar. Era a sensao mais estranha do mundo, como se ela houvesse sido 
dividida em duas pessoas, uma calma e prtica, a outra ricocheteando pelas paredes como uma bola de pingue-pongue humana.
      - No - disse Vance. - Ele est bastante assustado, mas est bem.
      - Josh... Como est Josh?
      - Ele est bem - respondeu Vance. - Se eles internarem algum, provavelmente ser Heather. Ela est arrasada.  melhor eu desligar o telefone e tentar acalm-la 
um pouco.
      A mulher batera com o carro no filho de Briana. Quem estava preocupado se ela estava arrasada?
      - Estou indo para a agora - disse Briana.
      - Vai demorar algumas horas at que liberem Alec - avisou Vance para ela.
      Briana pediu para falar com Alec. Ele estava na sala de exames. Ela pediu para falar com Josh.
      - Ma-me? - disse seu filho mais velho, trmulo. - Alec se machucou.
      - Eu sei, querido ? respondeu ela, medindo as palavras. - Vou chegar a o mais rpido possvel, ento agente firme, tudo bem?
      - Tu-tudo - disse Josh. - Mas venha rpido, por favor.
      Logan. Ela ligaria para Logan. Pediria para ele lev-la at a clnica na cidade.
      - Estou a caminho, querido. Diga isso a seu pai e a Alec, se voc conseguir falar com ele. Certo?
      - Certo, mas venha logo. Heather est histrica, o rosto de papai est com uma cor cinza esquisita e eu estou com medo que ele tenha uma ataque cardaco ou 
que o doutor venha dizer que Alec piorou...
      Eu tambm, pensou Briana, enlouquecida. Eu tambm.
      Ela encerrou a conversa o mais rpido que pde, percebeu que no tinha o nmero de Logan e ligou para o nmero de informaes para pedi-lo. Graas a Deus, 
ele estava na lista e atendeu no segundo toque.
      - Dylan? - perguntou ele.
      Claro, pensou Briana distraidamente. Ele tinha um identificador de chamada e o nmero apareceria com o nome de Dylan, no o dela.
      -  Briana ? falou ela rapidamente, mas depois ficou to enrolada com o fio do telefone que parecia ter sido enlaada. - Alec est na clnica, na cidade. Quebrou 
o brao e eu...
      - Estou indo j para a - disse Logan. A fora calma da voz dele fez com que lgrimas brotassem nos olhos de Briana, lgrimas de alvio. Ela precisava ser 
forte de todo jeito, mas, ao menos uma vez na vida, algum estaria ali para ajud-la.
      Logan desligou sem se despedir e Briana correu para o quarto, tirou o vestido e colocou o jeans e o leve suter que pensara em vestir mais cedo. Calou meias 
e um tnis, pegou a bolsa no caminho para a cozinha.
      Logan estava chegando quando ela alcanou os fundos da casa.
      Briana atravessou o quintal correndo e entrou no banco do carona.
      - Eu podia ter ido sozinha, mas estou meio abalada e achei...
      - Voc tomou a deciso certa - falou Logan quando a voz dela sumiu. Ele engatou a marcha, deu a volta com o carro e seguiu para a estrada principal. - Alec 
est muito machucado?
      Briana estava tremendo agora; os dentes dela batiam com tanta fora que Logan estendeu o brao e ligou o aquecedor, embora fosse uma noite quente de vero.
      - Vance disse que  "apenas" um brao quebrado - respondeu ela, respirando funda e lentamente, tentando o mximo que podia no perder o controle e ficar histrica. 
- Heather estava dando r na van e Alec estava atrs dela. Ela no o viu e... e... - Briana parou de falar, cobriu o rosto com as duas mos, apertando-o com fora.
      Logan se inclinou de lado para lhe apertar a nuca com uma das mos.
      - Ela o atropelou - concluiu Briana, cuspindo a frase como se fosse uma espinha de peixe com a qual estivesse engasgada.
      O perfil de Logan estava sombrio.
      - Droga - sussurrou ele, com um abanar de cabea.
      Eles disparavam pelas estradas rurais, os faris cortando a alvorada cada vez mais intensa, perfurando a noite, abrindo caminho para que passassem.
      Quando pararam no estacionamento da clnica, Briana estava fora do assento e pronta a saltar a faixa de pedestres antes que Logan fizesse o carro parar de 
verdade.
      - Lembre-me de lhe dizer que isso que voc fez foi uma loucura completa - falou ele, alcanando-a e pegando-a pelo brao quando atravessaram a entrada mais 
prxima.
      Josh os viu primeiro, pulou nos braos de Briana, quase a derrubando. Ela abraou o garoto com fora, olhando por sobre sua cabea e procurando Vance, ou um 
doutor, ou uma enfermeira - qualquer pessoa que pudesse lev-la at Alec.
      - Eu chamei a ateno dele, me - quase gritou Josh, o rosto escondido no corpo de Briana. - Chamei a ateno de Alec, mas ele no parou...
      - No faz mal - consolou Briana. Vance se aproximava e ela viu o olhar dele ir de seu rosto para Logan, voltando para o dela.
      - Por aqui - falou ele, dando meia-volta.
      - Voc fica com Logan - ordenou Briana para Josh, apertando-lhe os ombros.
      Seu filho hesitou, depois concordou com a cabea.
      Briana se afastou apressadamente com Vance.
      Tudo estava embaado a seu redor: pessoas em uniforme de cirurgia, equipamentos mdicos, paredes de azulejo. As luzes eram muito fortes, o barulho alto demais.
      E ento uma cortina foi puxada e ela viu Alec, parecendo pequeno e frgil como um filhote de passarinho, com o brao direito no gesso. O rosto estava to plido 
quanto o gesso usado para imobilizar o brao. Ao ver Briana, ele soltou um gemido de partir o corao e tentou alcan-la.
      Ela o apertou com firmeza.
      - Foi um acidente - falou Vance, sua voz soando em algum lugar dentro do vcuo pulsante que circundava Briana e o filho mais novo.
      Ela o ignorou.
      - Heather no teve a inteno de...
      Briana olhou para cima. Sem dizer nada, deixou absolutamente claro que queria que ele parasse de falar sobre Heather. No estava preocupada com Heather, mas, 
sim, com Alec.
      - Posso ir para casa, me? - perguntou Alec, a voz to tmida que Briana precisou se esforar para ouvi-la. - Voc vai me levar para casa?
      Ela acariciou-lhe a bochecha, beijou-lhe a testa.
      - Preciso falar com o mdico primeiro - disse Briana. - Se ele disser que tudo bem, vamos embora daqui.
      O sorriso de Alec foi fraco, mas verdadeiro.
      - Tudo bem - aceitou ele. - Vim para c numa ambulncia de verdade, com luzes, sirene e tudo mais.
      - Que chique - brincou Briana e, enquanto seu tom ameno se dirigia a Alec, o olhar que lanou para Vance por sobre a cabea do garoto foi inteiramente diferente.
      O mdico apareceu em seguida, disse a Vance que dera um calmante para Heather e, por fim, se virou para Briana e Alec.
      - Voc  um jovem de muita sorte - disse o dr. Elliott, sorrindo para Alec. Ele era o pediatra dos meninos e, portanto, conhecia o histrico mdico deles. 
- Ser que vai ser mais cuidadoso no futuro?
      Alec fez que sim com a cabea, solenemente.
      - Posso ir para casa com minha me agora?
      O dr. Elliott acenou afirmativamente com a cabea. E entregou a Briana um frasco de plstico com comprimidos.
      - So para dor - explicou. - Ele talvez no precise de mais de uma ou duas doses. Quero ver Alec de novo na prxima semana, no meu consultrio. Antes disso, 
se ele estiver sentindo muita dor ou desenvolver sinais de infeco, como febre.
      Briana concordou com a cabea, sem sentir. Enfiou o frasco no bolso da cala jeans.
      Uma enfermeira trouxe uma cadeira de rodas e ela e Vance puseram Alec nela. Ele estava com medo assim que Briana chegou, mas agora parecia estar gostando da 
ateno que vinha recebendo. Quanto ao estado de esprito de Briana, bom, ela j estava pensando em coisas prticas. O plano de sade dela era bom, graas aos generosos 
benefcios que recebia do cassino, ento no havia altas despesas com mdico ou hospital, mas ela no estava disposta a deixar Alec e Josh com Heather to cedo, 
nem os garotos podiam ficar em casa sozinhos.
      O que significava dizer que ela perderia sabe-se l quanto tempo de trabalho, e no poderia alegar motivos de doena para pedir licena, porque no fora ela 
quem se machucara.
      L ia embora o dinheiro que economizava para o carro.
      Ela abanou a cabea. O importante mesmo era que Alec estava bem. O que acontecera naquela noite poderia ter sido uma tragdia, se Heather houvesse passado 
por cima de Alec, em vez de atingi-lo com o para-choque traseiro.
      Logan e Josh estavam na sala de espera e ambos pularam da cadeira quando Alec se aproximou. Vance ficara mais atrs, provavelmente para ir cuidar de Heather.
      Heather.
      Briana mordeu o lbio inferior. - Volto j - avisou.
      A paciente estava deitada na maca numa sala de exame. Vance estava inclinado sobre ela.
      - Sinto muito - disse Heather. Os olhos dela eram como dois buracos abertos em um lenol, como costumava dizer o pai de Briana. Estava to branca quanto a 
roupa de cama, exceto pelos lbios, que tinham uma assustadora cor de lavanda.
      - Ai, Briana, sinto muito... eu no o vi. Ouvi um terrvel som seco e pisei no freio, mas...
      Briana pegou a mo da outra mulher. Apertou-a.
      - Alec vai ficar bem, Heather - disse ela. Na verdade, era um anjo que falava pela sua boca, no Briana. Por dentro, ela no sentia a menor disposio para 
ser simptica, no queria perdoar nem tentar entend-la. - Sei que voc no fez por maldade.
      Uma grossa lgrima escorreu sobre a maquiagem desfeita da bochecha de Heather. O aperto da mo dela era forte, esmagando os dedos de Briana.
      - Voc ainda vai deixar os meninos irem l pra casa, no vai?
      Briana engoliu em seco, seu olhar se encontrou com o de Vance e, a seguir, recaiu sobre Heather de novo. Depois de muito tempo, fez que sim com a cabea. Era 
o anjo em ao mais uma vez. Outro lado dela fervia de raiva.
      Sem dizer mais nada, Briana deixou a sala de exame. Parou na recepo para apresentar o carto do plano de sade e assinar os papis necessrios.
      Logan, Josh e Alec j haviam deixado a rea da sala de espera quando ela chegou l, ento Briana correu para o estacionamento.
      Josh e Alec estavam sentados no banco traseiro da caminhonete de Logan. Este, por sua vez, apoiava-se no para-choque dianteiro, os braos cruzados. Quando 
viu Briana, abriu um fraco sorriso e se aprumou.
      - Pronto? - perguntou ele. Ela fez que sim com a cabea.
      Logan abriu a porta do lado do carona para ela e a ajudou a entrar. At mesmo afivelou o cinto de segurana de Briana.
      Ela no saberia dizer quando fora a ltima vez em que se sentira to, bom, to protegida. Briana endireitou a coluna e disse a si mesma para deixar de bobagem. 
Logan Creed era um bom homem; como qualquer bom vizinho, se dispusera a ajudar quando surgira um problema. Isso no queria dizer nada de mais. No significava nada, 
realmente.
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DEZ
      
      
      
      
      
      Alec dormiu a caminho de casa, provavelmente como efeito da excitao, do cansao e dos remdios que tomara na clnica. Logan estacionou a caminhonete o mais 
prximo das portas dos fundos da casa de Briana, saiu e tirou a criana adormecida do banco traseiro.
      O garotinho cheirava a gesso novo, suor de criana e aos hambrgueres gordurosos que Logan comprara para ele e Josh numa lanchonete nos arredores da cidade.
      Saindo do carro e ficando de p  luz da lua, Briana parecia disposta a levar Alec para dentro ela mesma.
      Logan ps um dedo nos lbios e sacudiu a cabea. At Josh estava silencioso, tendo sado do carro e se dirigido para casa. Briana e Logan estavam ainda de 
p no quintal, olhando um para o outro, quando ele acendeu a luz.
      - Posso assumir o comando a partir daqui - sussurrou Briana.
      - Eu sei - respondeu Logan e passou por ela com o garoto. Levou-o at o interior da casa e Josh o guiou at o menor dos dois quartos.
      Claramente abalado, Josh parecia ter sido atingido por um carro tambm.
      - Ele pode ficar na cama de baixo - disse Josh, apontando. Era uma concesso e tanto, Logan sabia, e isso o emocionou. - Ele pode cair se ficar na de cima.
      Com um aceno de cabea, Logan deixou Alec na cama e passou por Briana no vo da porta ao deixar o quarto.
      - No v agora - pediu ela. - Por favor.
      Ele fez que sim com a cabea e esperou na cozinha. O lugar lhe parecia familiar e, ao mesmo tempo, estranho. Dylan era o dono da casa, mas, at onde Logan 
sabia, jamais morara ali. No tempo em que ainda se falavam, Dylan se mostrara determinado a reformar a casa um dia. Planejara acrescentar quartos e dois banheiros, 
construir um estbulo e comprar cavalos.
      Agora, na calma que se seguiu  emergncia, Wanda lanava a Logan um olhar ansioso, e ele garantia a ela que Alec ficaria bem. Nunca se sabe o que os animais 
so capazes de compreender; mais do que as pessoas geralmente pensavam, isso era certo.
      A certa altura, Briana saiu do quarto dos meninos. Permaneceu de p, olhando para Logan pelo vo que dava para o pequeno corredor.
      - Obrigada - disse ela. Os olhos de Briana estavam imensos e cheios de coisas que ela queria dizer, mas no podia, ou no devia. Talvez fosse orgulho, talvez 
apenas cautela.
      - No h de qu - respondeu Logan. Tais palavras comuns nem sequer triscavam a superfcie do que parecia estar acontecendo entre eles. Ele por fim se levantou, 
foi at ela e lhe beijou a testa. Meu Deus, Logan queria fazer muito mais! - Descanse um pouco.
      Briana se inclinou na direo dele, sem chegar a toc-lo, e em seguida recuou. Ergueu a cabea para fit-lo. A boca se mexeu, mas as palavras no saram.
      O desejo de beij-la profundamente era quase palpvel, mas no era a hora certa.
      Briana demorou para fazer um aceno com a cabea, como se s ento houvesse compreendido o comentrio dele sobre o descanso.
      - Eu posso fazer um caf - sugeriu, parecendo alegre. A quase perda de Alec exigira muito dela emocionalmente, ela parecia extremamente agitada. Mais um motivo 
para ir embora o quanto antes... ou passar a noite com ela.
      Logan sorriu.
      - A ltima coisa que voc precisa no momento  de cafena - contraps ele. - Tranque a porta quando eu sair e v dormir. As coisas parecero melhores pela 
manh.
      - Ser? - perguntou Briana.
      Logan se virara para ir embora, mas se deteve e olhou de volta para ela, o corao tocado pela maneira suave e melanclica como ela falara.
      - Leve os meninos l para casa, se tiver que ir trabalhar amanh - falou ele, determinado a no tirar proveito da situao, mas tentado tambm. - Eu tomo conta 
deles.
      Logan percebeu a luta que se travava dentro dela: necessidade contra orgulho, medo contra coragem. Que garota corajosa ela era, o tipo de mulher que ajudara 
a construir o Oeste americano. Enfrentando as coisas como eram, boas ou ruins, tirando o mximo de recursos limitados.
      - Ainda no quero deix-los com Heather de novo - admitiu Briana. Depois sorriu fracamente, mas o esforo valeu a pena. - Ela tambm no deve querer ainda.
      - Josh tem o celular dele - lembrou Logan. Como a voz dele podia parecer to normal, com tudo o que estava sentindo? Era como se um cavalo selvagem estivesse 
solto dentro dele, escoiceando as tbuas das cercas por todos os lados. - Voc tem o seu. Se eu me mostrar uma pssima bab, ele pode ligar para voc.
      Ela riu disso, mas havia certa tristeza escondida em algum lugar. Briana vinha carregando um peso imenso sozinha, havia muito tempo. Era difcil para ela confiar 
nos outros, aceitar ajuda, particularmente de algum relativamente estranho.
      - Eles podem dar muito trabalho - alertou Briana, e isso deu prazer a Logan de uma forma inesperada. - Alec e Josh brigam o tempo todo...
      - Tambm tenho irmos - disse Logan. - Ningum me vence nesse tipo de briga. - Ele parou de falar e sorriu, com a mo na maaneta da porta, hesitando em ir 
embora. - E sei assobiar tambm. De um jeito capaz de estourar os tmpanos.
      - Ouvi dizer - respondeu Briana, e agora seu sorriso foi firme, embora os olhos permanecessem embaados.
      O desejo de ficar e t-la nos braos a noite toda era quase visceral agora. Se existia uma mulher que precisasse ser abraada - apenas isso, nada mais, embora 
Logan quisesse muito mais essa mulher era Briana Grant, mas havia crianas no local. E ele tinha dois cachorros esperando por ele em casa, e cavalos para alimentar 
pela manh.
      Vida de rancheiro. Desejara t-la; agora a tinha.
      - Vejo voc amanh - despediu-se Logan e saiu depois de pr em movimento toda a sua fora de vontade.
      A noite estava quente e escura, com apenas uma mancha de lua pintada no amplo cu. Ele permaneceu no terrao alguns instantes, pensando em tomar a entrar na 
casa.
      Haver tempo de sobra, pensou ele, olhando para as estrelas abundantes do campo, seguindo seus cursos ancestrais. Haver tempo de sobra para isso.
      
      
      
      
      - Vocs vo ficar bem mesmo? - perguntou Briana para os filhos na manh seguinte, preparando panquecas no fogo. - No acham ruim ficar na casa de Logan o 
dia todo?
      - Ruim? - disse Josh, entregando a Wanda um pedao de bacon por baixo da mesa. - Vai ser divertido.
      Alec estava bastante animado para algum que fora atropelado por uma van na noite anterior.
      - Quero que ele escreva no meu gesso - disse ele. - Voc acha que ele deixa a gente andar em um dos cavalos dele?
      Briana parou de mexer nas panquecas.
      - Voc no vai subir em cavalo nenhum, Alec Grant, a no ser que seja comigo.
      Alec revirou os olhos.
      - Eu sei andar de cavalo, me. Papai me ensinou.
      Era verdade. Embora Vance no possusse um cavalo prprio havia muitos anos, tivera acesso a muitos deles durante o tempo de rodeio e quando permanecia num 
lugar durante um ou dois meses para trabalhar em alguma atividade de rancho. Briana sempre quisera se estabelecer em algum lugar, criar razes. Vance invariavelmente 
se entediava e insistia em que era hora de partir.
      Tanto Alec quanto Josh andaram de cavalo com o pai desde a idade mais tenra.
      - Mesmo assim - continuou ela, colocando o prato de panquecas no meio da mesa com um barulho seco. - Vocs no vo andar de cavalo sem que eu esteja l. Entenderam?
      Aps pensar em todos os lugares em que ela e Vance poderiam ter vivido, em todas as vezes que fizeram as malas e foram embora, deixando uma casa pequena mas 
boa para morar, Briana se voltou para a realidade atual. Vance era Vance. Ele deixaria Stillwater Springs mais cedo ou mais tarde. Tivesse ou no emprego, tivesse 
ou no esposa, com ou sem filhos.
      Como ela prepararia os meninos para aquilo?
      No conseguiria, claro. Teria de tentar remediar o mal depois de concludo, tentaria explicar algo que nem ela entendia, mesmo depois de anos e anos viajando 
com o prprio pai, atravs do misterioso circuito de rodeios, pelas estradas afora.
      A diferena era que Briana sabia que Bill McIntyre a amava mais do que aquela vida de cigano, mais do que as palmas e gargalhadas, mais do que os touros e 
cavalos.
      Se ela, por acaso, houvesse pedido a ele para permanecerem em um lugar, o pai teria aceitado.
      O que jamais faria seria deix-la para trs.
      - Me? - perguntou Josh. - Voc no vai comer?
      Briana sorriu, deixando de lado as perguntas sobre o motivo por que Vance era daquele jeito, no havia como compreender. E tentar faz-lo era um hbito de 
que ela precisava se livrar.
      Ento comeu uma panqueca e um pedao de ovo frito, bebeu suco de laranja, deu comida a Wanda, deixou-a sair para passear e entrar de novo. Preparou um sanduche 
com recheio de creme de amendoim para os garotos. Ento todos entraram na caminhonete - Alec precisou de ajuda - e seguiram pela estrada local na direo do rancho 
de Logan. Ele estava sentado sobre a trave do porto, tentando consertar a placa, quando chegaram. Cavalgara o ruo desde o estbulo. O cavalo estava por perto, 
encilhado, mordiscando a grama alta.
       Abrindo um sorriso e acenando, Logan passou uma perna por sobre a trave, ficou seguro um instante apenas pelas mos e, em seguida, pulou para o cho - de 
uma altura de ao menos 4 m - para fazer uma aterrissagem segura com ambos os ps.
       Briana fez uma careta, olhando atravs da janela do lado do motorista.
      - A placa ficou boa - disse ela. Ele tambm estava timo, vestindo jeans, botas e uma camiseta regata que deixava os bceps fortes  mostra.
      - Olhem s o cavalo! - exclamou Alec do banco de trs. - Voc est aqui agora, me. Isso quer dizer que posso cavalgar?
      - No - disse Briana.
      Logan, que estava perto o bastante para que ela pudesse ver certa ousadia em seus olhos, esperava.
      Briana espiou atravs da janela, examinando o cavalo castrado.
      - Ele  mais manso que tudo no mundo - informou Logan.
      - Por favor, me - insistiu Alec. - Eu sofri um trauma. Preciso ter experincias positivas para me recuperar.
      Logan riu ao ouvir aquilo. Passou a mo pelo cabelo, que estava, de certa forma, empoeirado.
      - No estou vestida adequadamente para cavalgar - afirmou Briana, referindo-se  roupa que usava para trabalhar no cassino e que, no final das contas, era 
um uniforme. Ela no poderia aparecer no trabalho com pelos de cavalo por toda a cala.
      - Logan est - apontou Alec. Logan ergueu as sobrancelhas.
      - Tudo bem - disse Briana, sem sentir, e ficou impressionada com as prprias palavras. Alec soltou um grito de alegria.
      - Posso andar no cavalo depois de Alec? - quis saber Josh.
      - Se sua me deixar, tudo bem - consentiu Logan. Ele contornou a caminhonete, abriu a porta esquerda do banco traseiro, pegou Alec nos braos e o levou at 
o dorso do cavalo, fazendo tudo isso com poucos movimentos. Antes que Briana conseguisse retomar o flego, ele j se sentara na sela atrs de Alec e tomara as rdeas.
      Em cima do cavalo, como se fizesse parte dele, em cada uma das clulas do corpo e a cada respirao, Logan Creed estava... Bom, deviam proibi-lo de cavalgar 
daquele jeito.
      Logan apontou para a casa com uma das mos.
      - Eu sigo voc ? disse ele.
      Alec sorriu, extremamente contente.
      Josh tirou o cinto de segurana afobadamente e se ajoelhou para observar Logan e Alec cavalgando, atravs da janela traseira da caminhonete, enquanto Briana 
punha o carro em movimento.
      - Que legal! - exclamou ele, parecendo impressionado e um pouco ressentido.
      - Voc tambm vai dar sua volta - falou ela, resignada. Ela apenas olhou pelo retrovisor algumas vezes, para ter certeza de que Alec no cara. Quando parou 
diante da casa de Logan, saiu do carro e protegeu os olhos do sol, observando Alec e Logan juntinhos no cavalo.
      Parceiro e o yorkshire vieram cheirar as pernas dela.
      - O que aconteceu com Malvado? - perguntou Briana quando Logan desmontou e tirou Alec do cavalo.
      O sorriso de Logan era to ardente quanto o sol de meados do vero.
      - Aparei os pelos dele hoje de manh - falou Logan. - Assim pelo menos ele parece mais digno.
      ? Posso subir no cavalo agora? - perguntou Josh.
      Briana soltou um suspiro e apanhou o saco de papel em que trouxera os sanduches deles, entregando-o a Logan.
      Por que ela continuava estipulando regras se sempre as acabava mudando?
      Briana sentia certo orgulho ao ver os garotos montando nos cavalos e, ao mesmo tempo, certo pesar. Alec e Josh cresciam muito rpido. Logo seriam homens e 
seguiriam seu prprio caminho.
      - Estarei de volta o mais rpido possvel - falou ela para Logan. Era uma tima atitude dele, tomar conta dos garotos. Mas no podia deix-los com Logan todos 
os dias.
      - No se apresse - falou ele.
      Briana entrou na caminhonete, deu partida e seguiu para o trabalho.
      
      
      Heather estava esperando na entrada principal quando ela chegou, e parecia arrasada.
      - Vance e eu conversamos - disse Heather apressadamente, andando rapidamente para acompanhar o passo de Briana, que prosseguiu em direo ao relgio de ponto. 
- E concordamos que no vou trabalhar at que comecem as aulas. Assim fico livre para tomar conta dos garotos.
      Briana parou de repente.
      - Voc cuidou muito bem deles ontem  noite! - retrucou Briana. Ela viu Jim vindo em sua direo, testa enrugada.
      - Est havendo algum problema? - perguntou ele. Ele era gerente geral e, como tal, chefe dos seguranas tambm. Qualquer sinal de perigo o deixava, portanto, 
alerta.
      - Sinto muito - falou Heather para Briana, com os lbios trmulos.
      - No, nenhum problema - disse Briana, falando para Jim, mas olhando para Heather.
      - Eu bati com a van em Alec sem querer! ? protestou Heather.
      - Ela atropelou Alec com uma van? - surpreendeu-se Jim.
      - Ele vai ficar bem - afirmou Briana para ele e, depois, voltou-se para Heather. - Olhe, Heather, vou at sua casa depois do trabalho e a gente conversa, sim?
      - Tudo bem - falou Heather, chorosa. Em seguida, transformou-se imediatamente, abrindo um sorriso sedutor para Jim. - J trabalhei numa cassino em Reno. Haveria 
vaga para mim aqui, para comear no outono?
      Briana ficou boquiaberta. Ela queria trabalhar com a ex-mulher do marido?
      Jim olhou dela para Heather e, em seguida, para Briana de novo.
      Briana o fulminou com os olhos.
      - Deixe seu currculo - falou Jim. - O movimento varia muito e, geralmente, a gente precisa de funcionrios em setembro.
      Heather fez que sim com a cabea, dirigindo-se ao balco com um sorriso.
      - Quem  essa? - perguntou Jim.
      - A mulher de meu ex-marido - informou Briana. - E, se voc a contratar...
      Jim sorriu. Ela soltou um suspiro:
      - Preciso bater o ponto.
      Mas Jim a tomou pelo brao e a levou at sua sala.
      - Se Alec foi atropelado por uma van, o que voc est fazendo aqui? - perguntou ele.
      - Ele no est to mal assim, Jim - respondeu Briana. - Quebrou um brao. Ele e Josh esto com Logan hoje.
      Um sorriso entortou os lbios de Jim.
      - Logan est de bab?
      - Josh e Alec ficariam irritados se ouvissem voc usar esse termo.
      Jim sorriu, tocando de leve no ombro de Briana.
      - V para casa. A gente se vira por aqui sem voc.
      -  disso que tenho medo.
      - Voc pode pegar um atestado ou descontar dos seus dias de frias.
      - No estou doente.
      - Voc parece meio adoentada.
      - Puxa, obrigada!
      - V - disse ele. - Seu emprego ainda estar esperando quando voc tiver tudo sob controle.
      - Tudo est sob controle.
      - Tem certeza?
      - Mais ou menos - admitiu ela.
      Cinco minutos depois, Briana estava de volta ao estacionamento e viu Heather manobrando a van. Seguiria Heather at o trailer, pensou, e conversaria com ela.
      Estava to distrada, que quase bateu em um carro. Brett Turlow saiu de dentro dele, sorrindo, e veio at a caminhonete. Brett tentara se aproximar dela diversas 
vezes. Era o diabo em forma de gente. Briana sempre o dispensara com muita polidez.
      - Aonde voc est indo, Briana? - perguntou Brett.
      - Vou folgar hoje.
      - Que pena - respondeu ele. - Voc d alegria a esse lugar. Briana fez um gesto para indicar que estava apressada. Nunca sentira medo dele, mas estava inquieta 
agora.
      - Preciso ir - falou Briana.
      - Tem um filme novo estreando no drive-in, sexta  noite - arriscou Brett. - A gente podia comprar o jantar na cidade e...
      - Desculpe - interrompeu Briana alegremente. - Eu tenho um compromisso.
      Por que tinha que ser sempre to gentil? Brett Turlow lhe dava nos nervos. Jamais sairia com ele. Era petulante e constantemente rabugento.
      - Parece que voc sempre tem um compromisso. Briana respirou fundo.
      - No saio com clientes.
      - Voc saiu com Jim Cavalo Selvagem. E ele no passa de um ndio.
      Aquelas palavras mexeram com Briana.
      - Tudo bem - falou ela. - No quero sair com voc. Ficou claro agora?
      Brett a fitou e se afastou da janela do carro como se ela o houvesse dado um tapa.
      Briana aproveitou a oportunidade para arrancar.
      Olhou pelo retrovisor e sentiu um frio na espinha ao v-lo.
      E se a seguisse?
      No seja paranoica, falou para si mesma, mas pisou mais fundo no acelerador.
      Viu o carro de Heather mais  frente. Pretendia segui-la at o trailer, mas a mulher de Vance a surpreendeu, seguindo para a oficina mecnica onde ele trabalhava. 
E Briana sabia que o frio no estmago nada tinha a ver com Heather ou com a conversa que teriam.
      No caminho para casa, continuava olhando pelo retrovisor.
      
      
      
      Logan, Josh e Alec permaneciam junto  cerca, depois de desarrearem o cavalo e deix-lo no curral. Para diverso de Logan, Josh pusera Malvado dentro da camisa, 
"para que ningum pisasse nele". Agora, a cabea do garoto e tambm a do cachorro saam pela gola.
      - Nosso almoo deve ser um porcaria ? sups Alec. Logan percebeu que o menino falava da comida preparada pela me.
      - No reclame, bobalho!
      - E quem est reclamando, cara de mamo?
      Logan sorriu:
      - Vou precisar assobiar?
      Os garotos abanaram as cabeas.
      - Aparecem ursos no pomar mesmo? - perguntou Alec.
      - De vez em quando - falou Logan.
      - O que voc faria se visse um? - continuou Alec.
      - Rezaria como quando era criana, acho - respondeu Logan.
      - E o que mais? - perguntou Josh. - Voc atiraria nele?
      - Eu odiaria ter que fazer isso. - Ele no caava e, de todo jeito, j lidara com armas o suficiente no Iraque.
      - Mas por que no? - perguntou Alec. - Se ele fosse comer voc, ou Parceiro, ou Malvado, ou...
      - Voc? - brincou Josh, erguendo as duas mos como se fossem patas e soltando um rugido.
      Alec ficou vermelho. A resposta de Logan era muito importante para ele, isso estava claro.
      Logan passou a mo sobre o cabelo espetado de Alec.
      - Se um companheiro estivesse em apuros, como voc ou Josh, eu atiraria num urso.
      - Voc tem uma arma?
      - Vrias - disse Logan. - Velhos rifles de caa, na maioria. Herana de famlia.
      - A gente pode ver? - perguntou Josh, enquanto subiam para o alpendre.
      - Outra hora - respondeu Logan. - Por ora,  melhor a gente almoar. Depois, pensei irmos ver como est ficando a cerca que estou construindo para Cimarron.
      Logan no ajeitara a casa ainda, mas ela j parecia melhor. Tinha uma cama agora, o sof trazido de sua casa em Las Vegas e, na sala de estar, o computador.
      Josh imediatamente se aproximou deste.
      - Nossa! Que maravilha! O que d para voc fazer com uma coisa dessas? Um programa para monitorar msseis do governo ou coisa do tipo?
      - Nosso computador parece um dinossauro - falou Alec.
      - O av de um dinossauro! - concordou Josh.
      - O que vocs acham de a gente comer cachorro-quente? ? perguntou Logan, porque a conversa fazia com que ele se sentisse espiando o contracheque de Briana 
ou algo assim.
      Depois do almoo, Logan empilhou os pratos na pia e seguiram para o pasto no seu Dodge. A cerca estava trs teros acabada, mas os trabalhadores pareciam nervosos.
      Logan descobriu o motivo: Cimarron no estava no bosque de abetos, mas sim no meio do campo, soltando ar pelo nariz e dando golpes com a cabea de vez em quando.
      - Fiquem aqui - disse Logan para os garotos, saindo do carro.
      - No h nada em meu contrato que pague levar uma chifrada de touro - falou o chefe de obra.
      - Quanto mais rpido voc terminar o trabalho, menor ser o risco - respondeu Logan. O touro era uma ameaa. Dylan no deveria mant-lo ali.
      - Eu devia ter exigido seguro para acidente de trabalho - brincou o outro. Seu nome era Dan Phillips, e ele e Logan tinha cursado a escola juntos, embora Phillips 
tivesse se formado trs anos antes.
      - Tarde demais - falou Logan, sorrindo. - Estou esperando vinte cabeas de gado que chegaro em duas semanas. A cerca tem que estar pronta at l.
      - Por que voc no as coloca aqui antes? - replicou Dan. - Pelo menos manteria aquele dali ocupado. Est se aproximando cada vez mais e ficando mais afoito 
a cada dia. Ontem quase acontece uma desgraa. Um dos rapazes tentava se livrar de um ninho de vespas e Cimarron quase o pega. Acho que foram as vespas que o assustaram.
      - Provavelmente - concordou Logan.
      Ele e Dan conversaram um pouco mais. Em seguida, Logan voltou para o carro.
      - Eca! - gritou Alec, abanando a mo em frente ao rosto.
      - Foi voc quem deu a Parceiro um pouco do cachorro-quente.
      Logan fingiu desmaiar com o cheiro, que estava realmente insuportvel.
      Parceiro agitava o rabo e parecia inocente.
      Quando j estava seguro para voltarem ao carro, eles o fizeram.
      - Vocs j viram uma oca de verdade? - perguntou Logan.
      A idia fez sucesso entre os meninos, ento eles foram at a casa de Cassie. Ela estava do lado de fora quando chegaram. Logan apresentou os meninos. Eles 
ficaram magnetizados pela oca.
      - Isso  um cachorro? - perguntou Cassie, franzindo a testa para Malvado.
      Agora que estava tosado, os pelos com menos de um centmetro de comprimento, parecia mais do que nunca um rato. - ,  um cachorro - confirmou Logan.
      - Se eu fosse voc, no sairia com ele por a - observou Cassie. - Vo acabar batendo em voc.
      - Eu e Malvado nos viramos bem - disse ele, entregando-lhe um dlar, o valor da entrada na oca.
       Cassie no aceitou.
      - Um nibus cheio de turistas veio aqui pela manh - explicou ela. - Essa fica por conta da casa. - Ela sorriu. - Ou melhor, da tapera.
      Logan deu uma olhada em volta.
      - Ningum querendo que voc lesse cartas? - perguntou ele.
      - Posso ler para voc, se quiser.
      - No, obrigado.
      - No preciso de cartas para saber o seu destino, Logan Creed.
      - Ah, ? - desafiou ele, bem-humorado. - E qual  ele?
      - Ele est logo ali, do lado de fora da oca - respondeu Cassie.
      Mas ela pareceu perturbada de repente, observando Alec e Josh.
      - Qual o problema, Cassie? - perguntou Logan suavemente, depois de uma longa pausa.
      Os olhos dela encontraram os seus de novo.
      - Tive um sonho na noite passada. Algum quer machucar voc, Logan. Talvez fazer mal a Briana e aos meninos dela tambm, se estiverem por perto.
      Logan no levaria o aviso em considerao se viesse de outra pessoa.
      - Quem? - perguntou ele. Estava pensando em Vance Grant e Brett Turlow, e abanou a cabea. Vance era um idiota, mas um blefe. E Turlow era s blefe.
      - Acho que tem algo a ver com a candidatura a xerife de Jim Cavalo Selvagem.
      - At onde sei, Jim  o nico candidato.
      - Ento voc no sabe muito - respondeu Cassie. - Grave minhas palavras. - Meia dzia de pessoas vo comear a campanha antes de Jim imprimir o primeiro adesivo. 
Voc esteve afastado de Stillwater Springs por um tempo... No sabe do que vem acontecendo por aqui. Sei que voc gosta de Jim, mas  melhor manter-se afastado dessas 
eleies. Se estiver escrito que ele vai vencer, ele vai vencer.
      - O que  que "vem acontecendo por aqui", Cassie? Por que no falou disso antes? - perguntou Logan, franzindo o rosto.
      - S tive o sonho na noite passada - falou Cassie para ele, extremamente sria.
      - Vou tomar cuidado - disse Logan. Cassie fez que sim com a cabea.
      - Chame os garotos. Vamos tomar uma bebida gelada. Logan chamou os meninos.
      O celular de Josh tocou quando todos tomavam refrigerante na pequena cozinha.
      - A gente est com Logan, me - explicou Josh pacientemente, depois de escutar por alguns minutos. - Viemos a uma oca de verdade... - As feies do rosto dele 
mudaram. - Tudo bem. - Ele suspirou. Depois desligou o telefone e olhou direto para o rosto de Logan. - A gente tem que ir para casa. Wanda conseguiu sair de algum 
jeito e mame no a encontra em lugar nenhum.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO ONZE
      
      
      
      
      
      - Wanda? - chamou Briana, guardando o celular ao chegar aos limites do velho cemitrio. No quis assustar os meninos, mas a verdade  que entrara em pnico 
quando chegara em casa e vira a porta da frente aberta e a cachorra desaparecida. - Wanda!
      Um longo ganido veio dos lados do pomar e Briana correu naquela direo.
      - Wanda!
      Ao chegar perto de uma alameda de macieiras antigas, ficou paralisada. Wanda estava sentada sob a sombra de pesados galhos, com frutos bicados por pssaros, 
olhando para cima e tremendo.
      O instinto fez o corao de Briana saltar. Seus pelos ficaram arrepiados. Os galhos balanaram violentamente alguns metros acima da cabea de Wanda.
      Briana mal ousou levantar os olhos. Quando o fez, viu um imenso urso pardo pendurado no tronco da macieira e olhando para Wanda quase que com curiosidade.
      Havia crias por perto? Briana no entendia nada de ursos, mas sabia, que, caso se tratasse de uma ursa com filhotes para proteger, ela e Wanda estariam correndo 
risco maior do que pensara.
      Desejando que Wanda no se mexesse, Briana sacou o celular de novo e teclou.
      - Me? - atendeu Josh. - A gente est quase chegando. Voc encontrou Wanda?
      - Estou no pomar - sussurrou Briana. - Wanda est aqui tambm, e tem um urso. Diga a Logan que tem um urso aqui. Josh repassou a mensagem. ? No se mexa - 
falou Logan, entrando na linha. Os galhos da rvore balanaram de novo.
      - Corra - implorou Briana.
      - A gente entrou na estrada do rancho agora mesmo. Fique falando com Josh, preciso das duas mos para dirigir.
      Briana no permaneceu na linha, desligou. Se o urso atacasse, no queria que as crianas ouvissem.
      Os segundos pareciam horas. O pai lhe dissera para nunca demonstrar medo diante de um animal feroz. Briana achou ter ouvido o rudo do motor da caminhonete 
de Logan. Ele estava chegando. Briana se sentiu alegre e em pnico ao mesmo tempo. O urso tambm escutou o barulho e desceu pelo tronco da velha macieira. Os galhos 
balanavam com tanta fora que a rvore parecia prestes a ser desenraizada.
      Wanda se levantou e correu assim que o urso chegou ao cho.
      Ele ficou de p, com as patas da frente levantadas. Uma calma estranha, quase mstica, dominou Briana. Uma verso mais forte e brava dela parecia ter assumido 
seu corpo.
      Voc no vai machucar minha cadela. Falara aquilo ou s pensara? Fosse como fosse, o urso, ainda de p, a observava com a imensa cabea levemente inclinada 
para um lado. Wanda se escondeu atrs de Briana. O urso soltou um grunhido ameaador. Voltou a sustentar o corpo nas quatro patas. Ps fora nas traseiras, se preparando 
para dar um bote.
      Desesperada de novo, Briana tentou sorrir. Naquele instante, Logan chegou, dirigindo a caminhonete a mil por hora, buzinando, seguindo na direo do pomar.
      O urso refletiu sobre suas opes, depois disparou, passando a poucos centmetros de Briana e Wanda, seguindo para o cemitrio.
      Logan pisou no freio e saiu correndo da caminhonete, correndo para ela. Abraou-a apertado contra o peito.
      As pernas de Briana tremiam. Teria ido ao cho se Logan no a estivesse segurando. Por sobre o ombro dele, viu Josh e Alec na caminhonete, os rostos plidos 
contra o vidro da janela.
      - Voc est bem - disse Logan resfolegando. - Voc est bem.
      Ela comeou a tremer de verdade. Wanda tambm. Um suor frio descia por todo o corpo.
      - Eu consigo andar - falou Briana. - No sei se Wanda consegue.
      Logan a abraou por mais alguns instantes, at ter certeza de que ela no cairia no cho. Ento se abaixou e trouxe Wanda para os braos.
      Briana cambaleou atrs dele, olhando para os lados s uma vez, para ter certeza de que o urso no reapareceria.
      
      
      
      
      Brett Turlow estava sentado em um banco sombrio da Skiwie's Tavern, o estmago fermentando como uma sopa estragada esquecida no forno. Estava bebendo com o 
dinheirinho, como ele dizia, roubado da irm corretora, Freida.
      Tudo o que se referia a Freida era insignificante para Brett.
      Odiava quando ela o mandava se levantar do sof e ir procurar emprego, por exemplo. Freida ainda achava que o sobrenome Turlow tinha algum peso em Stillwater 
Springs. Apesar de trs anos atrs aquela bibliotecarizinha, Kristy Madison, ter comprado o casaro da famlia na Maple Street por um punhado de dlares, Freida 
estava economizando dinheiro para t-lo de volta.
      No importava para Freida, ao que parecia, o fato de Kristy no ter a menor inteno de vend-lo. Brett costumava se sentar em seu carro velho, diante do casaro, 
lembrando-se dos tempos passados quando ela no estava em casa.
      Vivia como uma solteirona, aquela Kristy. E era bonita, sim. Segundo Brett ouvira dizer, Dylan Creed partira o corao dela, e Kristy esperava que ele voltasse 
um dia.
      Brett soltou ar pelo nariz. Precisava beber mais devagar, disse a si mesmo. Estava sem dinheiro e aquele copo tinha que durar.
      Tivera tudo o que quisera antes, nos tempos de glria da Madeireira Timber, uma das maiores do estado. Briana Grant no o teria dispensado se as coisas fossem 
como antes. Naquela poca, ele se saa bem com as mulheres.
      Toda vez que ficava meio bbado, via o fantasma de Jake Creed.
      Na verdade, ainda que estivesse meio sbrio, o espectro estava rondando por ali, no bar. Jake fora esmagado por toras de madeira, mas sorria ao morrer.
      Ah, o canalha estava sempre sorrindo.
      - Eu no matei voc, canalha - murmurou Brett, estremecendo um pouco ao perceber que falava sozinho. Houvera uma investigao aps o acidente, e ele fora inocentado.
      O fantasma desapareceu e, minutos depois, Briana Grant apareceu em seu lugar, muito sensual e feminina.
      Vira Logan Creed com os garotos de Briana no restaurante mexicano do cassino.
      Droga.
      Por isso Briana recusara seu convite para ir ao drive-in na sexta  noite. Estava saindo com o bom partido local.
      Brett deu um grande gole na cerveja.
      Ele fora diretamente  casa de Briana, depois que ela o humilhara no estacionamento do cassino pela manh... Ser que fora mesmo? s vezes, ele confundia as 
coisas que fizera com as que apenas pensara fazer.
      Sim. Fora at l. A porta dos fundos estava destrancada e ele entrara, pensando em revirar as coisas um pouco, s isso. Dar-lhe um susto quando chegasse em 
casa.
      Mas uma velha cadela o atacara assim que entrara, sem sequer dar um latido de advertncia. Ele correra e voltara ao carro, com o animal nos seus calcanhares.
      - Oi, Brett. - A voz conhecida interrompeu sua tentativa de distinguir realidade de imaginao.
      Brett piscou os olhos, levantou a cabea e viu o xerife Floyd Book sentado diante dele. A princpio, pensou que estava imaginando, como antes, com Jake e Briana.
      - Eu no fiz nada de errado ? falou ele, por fim.
      Book sorriu. Tirou o chapu e o colocou a seu lado, agradecendo com um aceno de cabea quando Sally Jo, a garonete, lhe trouxe a bebida de sempre: refrigerante 
com bastante gelo. Sally Jo olhou para Brett como se estivesse com medo dele e retornou para trs do balco assim que serviu a bebida de Book.
      - Pensei em lhe dar uma carona at a casa de Freida - disse Book calmamente. - Voc no est em condies de dirigir, eu acho.
      Brett ficou com dio.
      - Sally Jo lhe ligou para dizer que eu estava bbado?
      - No culpe Sally Jo por eu estar aqui - disse Book. - De acordo com as leis estaduais, ela  parcialmente responsvel se voc se acidentar a caminho de casa.
      - No vou me acidentar.
      Book suspirou. Estava cansado daquele trabalho, todos sabiam disso. Cansado de Stillwater Springs e, provavelmente, cansado da mulher deficiente tambm.
      E Brett estava cansado dele.
      As coisas ficariam bem piores, no entanto, se Jim Cavalo Selvagem ganhasse as eleies.
      - Voc fala como um p-rapado. Precisa tomar um banho e fazer a barba. E essas roupas so... bom. Essas roupas. Antigamente seu sobrenome tinha peso na cidade. 
O que aconteceu?
      Brett apenas soltou ar pelo nariz. Book sabia muito bem o que acontecera. O velho morrera, deixando imensas dvidas - acabaram descobrindo que ele tinha outra 
famlia em Missoula - e, ento, Jake Creed morrera em um lindo dia de vero, exatamente como aquele. Depois disso, acabou-se "Brett Turlow".
      - Vou terminar meu refrigerante - avisou Book afavelmente - e lhe dar uma carona at a casa de Freida. Voc pode vir pegar seu carro depois.
      - No estou bbado - falou Brett.
      - Ningum disse que voc est - respondeu o xerife, calmo.
      - Todo mundo pensa que estou - lamentou Brett. - D no mesmo.
      - Voc vem remoendo alguma coisa dentro de si todo esse tempo. Isso  certo.
      - Voc liderou as investigaes - lembrou Brett. - No havia provas de que matei Jake Creed.
      - Ele estava envolvido com sua namorada, se no estou enganado.
      - Ele estava envolvido com a namorada de todo mundo. E ele no fazia isso s com namoradas. Relacionou-se com as esposas de muitos homens tambm.
      Que o xerife ficasse com a pulga atrs da orelha. Ser que pensava que Brett no sabia sobre o caso dele com Freida? Eles quase haviam fugido juntos, certa 
vez.
      Teriam ido em frente se a esposa de Book no houvesse batido com o carro no pilar de uma ponte em uma noite de nevasca e acabado numa cadeira de rodas.
      - Voc partiu aquela corrente - disse Book, quieto.
      - No parti - respondeu Brett.
      Outro suspiro, profundo e pesado com o peso dos anos.
      - Voc terminou a cerveja. - Book pegou o chapu e o ps na cabea, deixando o refrigerante no copo. - Vamos. Tenho muito que fazer.
      Brett obedeceu porque no tinha escolha, mas o fez resmungando.
      Sentou-se no banco de trs do carro de polcia, parecendo um criminoso. As pessoas na rua olhavam para ele.
      - Aperte o cinto - falou o xerife. - Ou pode acabar se machucando.
      Brett apertou o cinto.
      E Jake Creed apareceu a seu lado.
      Brett fechou os olhos. No partira a corrente, mas no a prendera direito. Pretendia fazer isso depois de ir rapidamente ao banheiro.
      Quase molhara as calas ao ouvir o troar das toras de madeira desabando. Sentiu mesmo o cho tremer e correu de volta para o caminho carregado, tentando fechar 
o zper da cala e cambaleando.
      Qualquer outro homem, exceto Jake Creed, estaria gritando, se no de dor, ao menos de medo. Mas Brett estava l e viu o canalha olhando atravs dos vos entre 
as madeiras, sorrindo.
      Brett soltara xingamentos, andara de um lado a outro, no conseguia ficar quieto.
      - Chame algum - falara Creed calmamente. Brett no tinha celular, quase ningum tinha naquele tempo. Por fim, subira na boleia do caminho e apertara a buzina 
at que os outros trabalhadores apareceram.
      Jake Creed o assombrava desde aquele dia. E agora Logan fazia o mesmo.
      Esse era o verdadeiro motivo de sua volta, pensou Brett. S podia ser.
      
      
      
      Quando Logan deixou Wanda no cho, na frente da casa dele, a cadela deitou-se na areia e o fitou com um ar de quem pede desculpas.
      Ele olhou para dentro da caminhonete, viu Briana ainda abalada no banco do carona, olhando para a frente.
      - Fique aqui com sua me - disse ele para Josh, com calma. - Volto para peg-la daqui a alguns minutos.
      - O urso machucou Wanda? - perguntou o menino, com voz to sumida que Logan mal pde escut-lo.
      - Acho que no - disse ele. - Ela s est com medo. Josh mordeu o lbio inferior, do mesmo jeito que Logan vira Briana fazer. Concordou com a cabea. No era 
difcil imaginar o que se passava pela cabea dele. Primeiro, Alec se acidentara, agora a me e a cadela ficavam cara a cara com um urso. O mundo era um lugar inseguro.
      Tudo podia acontecer.  me,  cadela. Amar uma pessoa ou um animal, querer bem a eles, no garantia sua segurana.
      Logan apertou o ombro de Josh. Conhecia bem aquele sentimento.
      Ento pegou Wanda nos braos gentilmente e a levou para dentro de casa. Quando voltou, Briana caminhava com Alec e Josh a seu lado. Seguravam os cotovelos 
dela com solicitude, como se fossem homenzinhos.
      Ela piscou os olhos ao ver Logan, estacou como se estivesse surpresa por se ver no jardim dele. Era um bom sinal. Ela estava se recuperando do choque. At 
ento, estivera praticamente catatnica.
      Logan indicou o caminho e eles entraram pela porta da frente, indo at a cozinha.
      Logan a ajudou a se sentar em uma cadeira  mesa. O que se dava para uma pessoa que acabara de encarar um urso? Se fosse ele, tomaria uma dose de usque. Mas 
a mente feminina funcionava de forma diferente. Ch, talvez.
      O problema era que ele no tinha. Ento ps caf para coar.
      - Obrigada - disse Briana, como algum que acaba de sair de um poo muito profundo e escuro.
      - Alec pegou o celular - reclamou Josh. - Aposto que vai ligar para papai.
      Briana olhou para o garoto e concordou com a cabea:
      - Aposto que sim. Leve Wanda para fora. Se no, ela vai ficar com medo de passear de agora era diante.
      Josh acenou com a cabea e levou a pobre Wanda at o alpendre.
      Parceiro e Malvado seguiram os passos dela.
      - Vance vir - disse Briana. - Buscar os garotos, quero dizer.
      Logan ia pegar as duas nicas xcaras que tinha, mas se deteve.
      - Voc concorda com isso?
      Briana no deu de ombros, mas falou como se o houvesse feito.
      - Ele  pai dos meninos. Tem direito.
      -  - disse ele com voz rascante. - Ele tem direito.
      - Eu posso ficar? - perguntou Briana.
      - Ficar? - repetiu ele.
      - Aqui. Com voc. S essa noite.
      Logan foi at ela, acocorou-se a sua frente, pegou-lhe as mos.
      - Voc deve estar muito abalada - falou ele. - No est pensando direito.
      Ela gargalhou, ainda que os olhos estivessem cheios de lgrimas.
      - Eu tive tanto medo - disse Briana.
      - Eu sei - respondeu Logan. - E isso mostra que voc tem juzo.
      - Eu at sorri para o urso - confessou ela. Logan deu uma risada ao imaginar a cena.
      - Acabou. Voc est bem agora. Ela abanou a cabea.
      ? Eu no estou bem. Sempre fui forte e serei forte de novo, mas, no momento, eu preciso de... 
      Logan ficou de p.
      - Voc no sabe do que precisa, Briana - falou ele, porque precisava manter distncia entre eles, tanto verbal quanto fisicamente. Se os garotos no estivessem 
ali, ele faria amor com ela sem pestanejar. - Voc est em estado de choque.
      - Talvez sim - concordou Briana, observando enquanto ele voltava at a cafeteira.
      Os garotos entraram, trazendo os cachorros. Vance e Heather chegaram, como Josh previra. Ficaram apenas alguns minutos, depois colocaram os meninos na van 
e foram embora.
      - Posso ficar? - perguntou Briana de novo, assim que eles saram.
      - Pode - disse Logan. Ele a levou at a cama. Puxou a coberta, deixou-a, tirou-lhe os sapatos e a cobriu.
      Briana olhou para ele, confusa.
      Wanda entrou no quarto e ele a aninhou na cama tambm.
      - Descanse um pouco - falou ele para Briana. Ela fechou os olhos.
      Ele deixou o quarto e fechou a porta.
      Desejava Briana Grant. Mas ela se achava vulnervel, e era por isso que ele estava voltando para a cozinha, at que o episdio com o urso estivesse superado.
      Claro, no era apenas o urso. Logan sabia disso. Ainda estava se recuperando do acidente sofrido por Alec na noite anterior. Era coisa demais para uma mulher 
agentar sozinha.
      Ento voltou para a cozinha e deu uma olhada no lbum onde estava escrito Nossa Famlia.
      Olhou as fotografias de Jake.
      Da me.
      De si mesmo quando criana.
      Preparou um sanduche para quando Briana acordasse, caso tivesse fome.
      O crepsculo chegou e ele saiu para dar comida aos cavalos.
      Quando voltou, Briana estava sentada  mesa da cozinha, vestindo uma camiseta dele e comendo o sanduche que preparara para ela antes. Briana tomara banho, 
soltara o cabelo e ele parecia um fogo dourado, cado sobre as laterais do rosto e os ombros, descendo pelas costas at a cintura.
      O corao de Logan parou por um instante e voltou a bater.
      -  voc nessas fotos? - perguntou Briana, apontando para o lbum, que ainda estava aberto sobre a mesa.
      - Em algumas delas - disse ele.
      - Se voc no quiser fazer amor comigo - disse Briana - , eu vou entender.
      - Ah, eu quero fazer amor com voc - respondeu Logan. - Mas como acho que voc ainda no est bem da cabea,  provvel que no faa.
      Briana olhou para ele, uma das sobrancelhas ligeiramente levantada.
      - Voc acha que eu ainda estou em estado de choque.
      - E voc no est?
      - No - respondeu ela.
      - At que eu tenha certeza disso - falou Logan, reunindo toda a fora que tinha - no vou tocar em voc.
      - Entendo - replicou Briana. Ela bocejou, pegou o prato com o sanduche e o levou para a pia. Depois, saiu da cozinha com um caminhar casual e se dirigiu  
sala de estar.
      Quando resolveu seguir atrs dela, a encontrou deitada na cama, dormindo pesadamente.
      Tomou um banho, trocou de roupa. Encontrou um lenol e se deitou no sof.
      Passou muito tempo de olhos fechados, at que sentiu uma vibrao no ar.
      Virou-se e abriu os olhos.
      Viu Briana de p.
      Sem dizer uma palavra, ela entrou debaixo do lenol com ele e se aninhou em seu corpo.
      - Abrace-me - pediu Briana.
      Logan a envolveu com os braos. Beijou-lhe o topo da cabea.
      - Eu estou aqui - falou para Briana. - Eu estou aqui.
      Ela acenou com a cabea sobre o peito dele, lhe agarrando a camisa  altura do peito, e voltou a dormir.
      Tambm ele acabou adormecendo.
      E quando acordou pela manh, Briana ainda estava bem junto dele.
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DOZE
      
      
      
      
      
      Antes de abrir os olhos, Briana pensou sobre os eventos da vspera. Seus dedos ainda estavam segurando a camisa de Logan.
      E ele estava excitado, podia sentir. Ou estaria dormindo? Resolveu abrir os olhos.
      Estava acordado, com os olhos escuros ardendo de desejo.
      Ela disse a si mesma que devia sair daquele sof silenciosamente. Encontrar as roupas, vesti-las e sair dali. A p, se necessrio.
      A p? Correria o risco de topar com um urso e, de todo jeito, Wanda no conseguiria fazer a caminhada.
      A caminhonete de Dylan ainda estava estacionada onde parara no dia anterior, perto do varal, em casa.
      O corpo se enlanguescia, mido e cheio de desejo, para receb-lo.
      Briana no estava tomando anticoncepcional - no havia motivo para faz-lo - e, mesmo que Logan tivesse preservativos, ela podia dizer, pela respirao, a 
rgida tenso e o ardor dele, que ele no se preocuparia em procur-los.
      Mas Briana estava cansada das proibies que constantemente impunha a si mesma e o desejo era profundo.
      Ento encostou os lbios nos dele e o beijou.
      Suas lnguas se enroscaram. Logan fez um movimento e a deixou embaixo dele, se contorcendo, arqueando as costas. Ainda no amanhecera. Eles estavam no escuro, 
sozinhos. Ouvia-se o rudo de um relgio, marcando os segundos como batidas de corao.
      Logan a puxou pelas costas, arrebatado. Briana via o rosto dele claramente - devia haver uma vela acesa em algum lugar, ou talvez fosse a luz da lua - e via, 
ao mesmo tempo, certa relutncia e um desejo que casava com o dela.
      Ele no fez a pergunta, mas ela a podia ler em seus olhos:
      Tem certeza?
      Briana concordou com a cabea. Apenas com aquele beijo, j estava  beira do clmax. Queria fazer amor com Logan.
      Ele gemeu o nome dela.
      Ela estremeceu debaixo dele.
      Logan tirou a camiseta que ela vestia e atirou longe.
      Briana abriu as mos por baixo da camisa dele e lhe sentiu o peito quente e slido. Os mamilos de Logan pareciam botes duros sobre as palmas das mos.
      Ele apoiou os braos ao lado do corpo dela, atirou a cabea para trs, arquejando:
      - Briana, eu no tenho...
      - Psss... - murmurou ela.
      Briana encontrou o boto da cala dele e abriu. Acariciou Logan com uma desinibio que jamais sentira antes.
      Ele deixou escapar um som primitivo e rascante do fundo da garganta. Ento, Logan baixou a cabea e apanhou os seios dela com a boca, primeiro um, depois o 
outro.
      Briana soltou um grito de puro prazer, arqueando as costas, girando os quadris onde seus corpos se encontravam. Afastou as pernas levemente, sentiu-o entre 
elas.
      Em seguida, como se fosse a rajada de uma espada chamejante, ela o sentiu em seu corpo, profundamente.
      - Isso! - gritou Briana. - Isso...
      O clmax dela foi imediato, como sabia que seria, e a consumiu por inteiro, extinguindo todo o ar dos pulmes, fazendo uma corrente eltrica passar pelos menores 
nervos, atravessar todos os msculos. Ao se render ao redemoinho de sensaes, indefesa como um pssaro arrastado por um tufo, lgrimas escorreram de seus olhos.
      O segundo clmax veio minutos depois, mais arrasador que o primeiro, arrancando um gemido longo e fino de Briana. Parecia nunca ter fim.
       medida que Logan intensificava os movimentos, Briana se via completamente entregue. Enlouquecida, cega, morrendo de desejo, quase se desintegrando. Tanto 
assim que, quando Logan gritou, manifestando sua satisfao, ela o ouviu como um eco distante.
      Eles ficaram colados um ao outro pelo que pareceu ser uma infinidade de tempo. Em seguida, relaxaram, formando um emaranhado de braos e pernas, mudos de cansao.
      Mesmo quando recobraram as foras, permaneceram calados.
      O que diriam?
      Logan estava deitado sobre Briana, embora com cuidado para no esmag-la sob seu peso.
      - Da prxima vez - disse ele, depois de muito tempo - , vamos usar a cama.
      Ela gargalhou, saboreando a nudez e a satisfao amorosa deles. Aquela sensao mgica e dourada de liberdade desapareceria quando a realidade voltasse ao 
normal.
      - Quem disse que haver uma prxima vez?
      - Depois disso? Vai dizer que no? S se estiver brincando. Briana riu. Estava feliz.
      Logan saiu para seus afazeres no rancho. Quando voltou, encontrou Briana vestida com as roupas dela mesma, fritando bacon e ovos no fogo.
      Logan dormira com muitas mulheres na vida e jamais ficara sem saber o que dizer na manh seguinte. Mas, naquele dia, estava exatamente assim.
      - Voc vai ficar a o dia todo, Logan Creed? Lave as mos e se sente. A comida est quase pronta.
      A doura daquele momento deixou um n na garganta de Logan. No era difcil imaginar que eles eram marido e mulher, e que os filhos deles entrariam na cozinha 
a qualquer momento.
      Era fcil. E perigoso.
      E agora? O que a gente faz a partir de agora? Era o que ele queria perguntar, mas no tinha coragem.
      Quando se sentou  mesa com ele, Briana deu uma olhada no relgio de parede. Seis e meia.
      Logan leu a mente dela.
      Cedo demais para ligar para Josh e Alec e descobrir se eles sobreviveram  noite passada na casa de Vance e Heather.
      - Mais cedo ou mais tarde, vamos ter que falar sobre o que acabamos de fazer - disse Logan.
      Ela deixou o garfo de lado. Fez uma careta de estranhamento. Mas o rubor das bochechas a entregavam.
      - A gente teve uma relao sexual - disse Briana.
      - A gente fez amor - respondeu Logan.
      - Qual a diferena? - perguntou ela, tentando manter a firmeza.
      Logan sentiu raiva. Ela estava tentando aborrec-lo? Com certeza.
      - Onde voc arrumou esse nome, Briana? - perguntou ele, j que tinha de dizer algo.
      - Meu pai lia muito. Tirou do nome de uma personagem de livro.
      - E sua me concordou?
      - No sei. Eu tinha 8 anos quando ela morreu - falou ela. Logan olhou para o lbum de fotos, que ainda estava sobre a mesa.
      - No sei muita coisa sobre minha me tambm. Mas tive madrastas.
      Briana estranhou:
      - Madrastas, no plural?
      Ele fez que sim com a cabea, sorrindo com a lembrana da me de Dylan, Maggie, e da de Tyler, Angela.
      - Duas. Jake, meu pai, achava que podia se livrar dos problemas casando com algumas mulheres e as engravidando cinco minutos depois do casamento.
      - Foi por isso que voc se casou mais de uma vez, Logan? Para se livrar de problemas?
      - Talvez.
      - Quando conheci Vance, criei uma identidade para ele, como se fosse um prncipe dos caubis. E, quando descobri que aquilo era falso, tentei transform-lo 
no que eu queria. Voc nunca quis transformar suas esposas?
      - No. Mas, depois de seis meses de casado, eu queria mand-las para o espao. Para Jpiter, ou o cinturo de asteroides para l de Pluto.
      Briana riu, tocando no brao dele. O toque fazia os nervos dele se eriarem sob a pele. E, ento, o telefone tocou. Pssima hora.
      Logan soltou um suspiro, se levantou e cruzou o cmodo. Latiu um "al" sobre o bocal.
      - Minha me est a? - perguntou Alec, tmido.
      - Ela acabou de chegar para tomar um caf - respondeu ele.
      Briana j estava ao lado dele. Pegou o telefone.
      - Josh? Alec? Vocs esto bem? Mesmo? Sim. Sim, eu vou para o trabalho. Sim, vou me lembrar de carregar o celular... Claro, nos vemos  noite... tchau.
      Ela desligou o telefone, de costas para Logan.
      - A gente pode fingir que essa manh no existiu? - perguntou Briana.
      - No - respondeu Logan, sem hesitar.
      - Foi um erro. Voc j teve que mentir uma vez por causa dele.
      - No foi um erro, Briana.
      - Para voc, talvez no - respondeu ela, triste. - Voc  homem. Sou mais um xis em sua tabela de conquistas. Para mim...
      - O que significou para voc? E no me diga que foi "s sexo", Briana, porque eu estava l.
      Ela ruborizou.
      - Tudo bem, eu gostei. Voc tambm. Eis tudo.
       Briana comeou a limpar a mesa.
      Logan a impediu.
      Ela pegou a bolsa e chamou por Wanda. Ele pegou as chaves e, seguindo um acordo tcito, a levou para casa.
      
      
      
      A porta estava aberta mais uma vez.
      Briana ficou olhando. Lembrava-se claramente de t-la fechado ao sair para procurar Wanda no dia anterior.
      - Fique aqui - ordenou Logan, quando ela saiu do carro. Ele entrou na casa.
      Sem agentar a espera, Briana estava prestes a entrar tambm, quando Logan voltou.
      - Algum esteve aqui - disse ele. - Mas j foi embora.
      Briana subiu as escadas. Wanda a seguiu relutante, quase se arrastando.
      No havia nada de diferente na cozinha, na sala de estar, nos banheiros. Mas no quarto...
      Uma camisola mnima - presente de dia dos namorados dado por Vance - era a nica coisa fora do lugar. Estava bem no meio da cama, quase como se ela estivesse 
vestida dentro.
      Briana levou a mo  boca.
      - Vance? - perguntou Logan.
      Briana abanou a cabea. Vance no seria capaz daquele tipo de sutileza.
      Era algum que queria assust-la. Mas quem? E por qu?
      Pensou em Brett Turlow. Ela fora bastante rude com ele no dia anterior. Mas aquilo no se parecia com ele.
      Um dos homens que trabalhavam na cerca do pasto? Um passante ocasional?
      Briana se virou e descansou a testa no peito de Logan, tentando estabilizar a respirao.
      Ele fez carinho com a mo nas costas dela e, com a outra, sacou o telefone.
      - Aqui  Logan Creed - disse. - Preciso falar com o xerife Book. Agora.
      - Que maneira de a gente finalmente se encontrar para conversar! - disse Floyd Book para Logan, uma hora depois,  mesa da cozinha de Briana. Ela conversara 
ao telefone com Jim por alguns minutos, depois fora  cidade, buscar os garotos.
      - Nem me fale - concordou Logan, distrado.
      - Voc ainda suspeita do ex-marido - falou o xerife. Consultou as anotaes. - Vance Grant.
      - Briana o descartou imediatamente - lembrou Logan. - No perguntei de quem ela suspeita. A verdade  que no tenho a menor idia.
      - No foi culpa de Brett Turlow - disse Book. - Eu o levei para casa pessoalmente, e o carro velho que ele dirige ainda estava l no bar.
      Briana contara aos dois sobre o episdio com Brett no dia anterior.
      -  possvel que tenham sido garotos - falou Book. - Briana  uma mulher bonita e, com certeza, capaz de despertar a fantasia de adolescentes. Pode ser que 
um tenha desafiado o outro e as coisas tenham sado de controle.
      -  uma boa teoria, xerife - avaliou Logan. - Mas e se o caso for mais srio?
      Book soltou um longo suspiro:
      - Um molestador? Voc passou muito tempo na cidade grande, Logan. Ns estamos em Stillwater Springs, no Las Vegas.
      - Como voc sabe que morei em Las Vegas?
      - No precisa ficar agressivo, garoto. Todo mundo sabe que voc ficou encantado com as luzes da cidade nos tempos de rodeio e que voltou para l depois que 
largou o servio.
      Book sorriu, vendo o olhar de surpresa de Logan.
      - Minha pergunta ; como voc est dirigindo aquele carro velho, vivendo e se vestindo como empregado de rancho, se vendeu sua empresa por algo em torno de 
dois milhes de dlares?
      Logan no respondeu.
      - Pensou que eu no sabia dessa parte? - perguntou Book. - Estou na polcia h muito tempo.
      - Aonde quer chegar, Floyd?
      - Fico me perguntando se voc no voltou para c porque ainda pensa que Brett Turlow deixou aquelas toras de madeira carem sobre seu pai de propsito. Um 
homem tem que ser discreto se est pensando em endireitar um erro cometido no passado.
      - Voc acha que voltei a Stillwater Springs para me vingar de Turlow?
      - Voltou ou no?
      ? Claro que no.
      - Ento qual  o motivo, Logan? Voc v Dylan por a? Ou Tyler? No. Porque eles tm coisas melhores a fazer, lugares melhores aonde ir. E voc tambm. A no 
ser...
      - A no ser, o qu?
      - Que voc estivesse apenas de passagem e tenha se deixado encantar por Briana Grant.
      Logan enrugou a testa.
      - Voc est tentando inverter a ordem das coisas e me acusar de entrar escondido na casa de Briana e mexer na lingerie dela?
      - Se voc est mexendo na lingerie dela, o problema  seu. E, a no ser que tenha perdido o toque que os Creed tm, no precisa "entrar escondido" em canto 
algum. - Floyd deu um gole ruidoso no caf. - Vou me aposentar em breve. E a minha ficha  impecvel, ao menos no papel. Voc sabe tanto quanto eu que sempre achei 
que Brett Turlow partiu de propsito a corrente daquele caminho, mas nunca consegui provar. Odeio esse fato, mas convivo com ele. O que no posso e no vou tolerar 
 voc querer fazer justia com as prprias mos.
      - Eis o que acho, xerife - comeou Logan. - Brett Turlow no teve coragem para partir aquela corrente, mesmo depois de ter descoberto que a namorada estava 
dormindo com Jake.
      - Talvez tenha sido um acidente - divertiu-se o xerife. - Seria um alvio para todos. Voc nunca pensou em concorrer ao meu cargo?
      - No preciso de um emprego, lembra? E, mesmo que precisasse, no iria querer o seu.
      Floyd riu.
      - E voc  o melhor amigo de Jim Cavalo Selvagem. Seria esquisito concorrer com ele.
      Logan se lembrou da advertncia de Cassie, de ela ter dito que ele estava correndo perigo e, por causa dele, tambm Briana e os meninos. Ela pedira especificamente 
para ele no se envolver nas eleies.
      - Jim  um bom homem.
      - , sim - concordou Floyd. - Sempre gostei dele. Mas j esto falando por a que ele vai tratar a tribo em primeiro lugar e os brancos em segundo, se no 
em terceiro.
      - Isso  bobagem - disse Logan.
      - Os radicais, como os pobres, esto sempre conosco - lembrou Floyd. - E os radicais votam, com mais frequncia que as outras pessoas, talvez. - Ao dizer isso, 
Floyd pegou o chapu, fez um carinho em Wanda e se dirigiu para a porta. - Se voc diz que no veio para c para se vingar de Brett Turlow, eu acredito. Mas no 
tente me enganar, Logan.  s o que lhe digo.
      Logan fez que sim com a cabea, no por concordar, mas para dizer que entendera a mensagem.
      - Ficamos s eu e voc - falou para a cadela, aps a sada do xerife.
      Ento, o telefone de parede tocou e ele o atendeu automaticamente.
      - Logan Creed - falou.
      No obteve resposta, exceto por uma respirao carregada e, em seguida, o sinal de ocupado.
      Logan franziu a testa.
      - A gente precisa de um plano - disse ele para a cadela.
      Sim, precisavam de um plano.
      E j havia um se formando em sua mente.
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO TREZE
      
      
      
      
      
      
      - Isso  uma loucura! - disse Briana, depois de trazer Alec e Josh at a cozinha e ouvir o que Logan planejava fazer. - Trocar de casa com voc?
      - Pense um pouco - explicou ele. - Voc e os meninos ficam em minha casa. A gente troca de carro. Quem quer que entre para mexer em sua... lingerie... vai 
dar de cara comigo.
      - Logan levantou as duas mos. - Surpresa!
      Briana estremeceu, o gesto era semelhante ao feito pelo urso no pomar. Colocou a bolsa sobre a mesa com um distrado meneio do brao.
      - Isso funciona muito bem... na teoria - respondeu ela. - Acontece que essa... pessoa, quem quer que seja, escolheu uma hora em que eu no estava para entrar 
aqui. O que o faz pensar que ela faria a mesma coisa de novo com meu carro estacionado l fora?
      Logan ps as mos sobre os ombros dela, e Briana amou o peso e a fora delas.
      - Coisas desse tipo tendem a se intensificar cada vez mais  - falou ele. -  uma espcie de guerra, e essa foi apenas a primeira batalha.
      Briana deixou escapar um longo suspiro:
      - Mas a gente no devia deixar a conduo do caso nas mos do xerife Book?
      A boca de Logan se entortou em algo ligeiramente assemelhado a um sorriso, totalmente desprovido de humor.
      - O xerife Book acha que a gente est lidando com adolescente, que foi uma brincadeira e no vai se repetir. Isso no  coisa de amador, Briana. Quem entrou 
aqui tem um objetivo.
      Briana apanhou uma cadeira, arrastou-a e desabou sobre ela.
      - Acho que  bem provvel que adolescentes tenham feito uma coisa assim.
      - Tambm acho - concordou Logan. - E eu queria de todo o corao concordar com a idia, mas algo no se encaixa. Isso j aconteceu com voc antes? - perguntou. 
- Aqui em Stillwater Springs ou em outro lugar qualquer?
      Briana abanou a cabea, se esforando para pensar. Isso j aconteceu com voc antes? Ele estava querendo perguntar se algum j entrara na casa dela e mexera 
em algo extremamente ntimo, ela sabia. Mas, mesmo assim, teve vontade de responder: "No. Nunca desejei um homem como desejo voc."
      ? Briana? - insistiu Logan.
      Ele pegou a mo dela.
      Briana respirou fundo.
      - No - conseguiu responder, ficando com o rosto vermelho. Logan percebeu, claro, e um leve sorriso se abriu em seu rosto.
      - E voc tem certeza de que no foi Vance? Briana engoliu em seco, passou a mo sobre o rosto.
      - Voc no acha que est quente aqui? - perguntou, ansiosa. O sorriso de Logan surgiu de novo no rosto.
      - Est mais quente que uma pistola fumegante, como meu pai costumava dizer - respondeu ele. - Mas vamos nos ater ao assunto, sim? Quem estaria interessado 
em lhe dar um susto, alm de Brett Turlow e Vance? Algum que paquerou voc no cassino, quem sabe?
      - Pare de tocar em mim - pediu Briana. - Assim no consigo me concentrar.
      Ele largou-lhe a mo, mas antes alisou a parte lateral dos pulsos dela com as pontas dos dedos. Outro tremor a fez sacudir o corpo.
      - Muitos homens me paqueram no cassino ? disse Briana. - Mas, at agora, todos receberam um no e mantiveram a esportiva.
      - A chegou Brett Turlow...
      - Ele ficou chateado quando no aceitei seus convites, mas no h motivo para desconfiar de que tenha feito algo assim. Principalmente quando se sabe que o 
xerife Book lhe serve de libi.
      - Tudo bem. - A frase saiu como um suspiro. - Assim que escurecer, a gente troca de casa e de carro, e esperar que esse luntico aja de novo.
      Briana achava que a idia no funcionaria, por uma srie de motivos, mas estava com medo de ficar sozinha em casa com os garotos.
      - No gosto da ideia - falou ela, ainda assim. Logan ergueu uma sobrancelha.
      - Eu tambm no - respondeu ele. ? Preferiria compartilhar seu quarto ou o meu com voc, mas isso seria impossvel com os meninos por perto.
      - Impossvel - disse Briana. Era incrvel. Ela no fazia amor havia muito tempo, mas agora que Logan e ela haviam dormido juntos, no conseguia parar de desej-lo 
o tempo todo. Fisicamente. Era assustador.
      Logan parecia relutante, pensou Briana.
      -  melhor eu ir embora - falou ele. - Volto depois que escurecer.
      Briana s fez que sim com a cabea.
      Logan se curvou, beijou-lhe o topo da cabea, acarinhou-lhe os ombros. Ela sentiu hesitao naquelas mos, sabia que ele queria toc-la mais e mais, mas no 
podia.
      - Ah, e tem outra coisa - acrescentou ele, num suspiro. - Depois que voc e os meninos se instalarem l em casa, vou pendurar aquela camisola no varal.
      Briana estremeceu na cadeira, olhou para ele consternada.
      - O qu? Por qu?
      - Confie em mim - disse Logan. - Quero chamar a ateno desse sujeito. Fazer ele pensar que voc quer conhec-lo melhor.
      - Mas eu no quero...
      - Isso vai anim-lo. - Logan parecia triste, mas determinado.
      Briana engoliu em seco e concordou com a cabea de novo.
      - Feche a porta quando eu sair.
      E, tendo dado essa ordem, Logan saiu.
      Dois segundos depois, Alec surgiu no vo da sala de estar.
      - Logan foi embora? - perguntou ele, o rosto sardento expressando sua decepo. - Nem se despediu da gente.
      - Ele vai voltar.
      Alec deu um soco no ar com o brao sadio e se alegrou:
      - timo!
      - Voc gosta de Logan? - perguntou Briana, cautelosa. No contara o episdio da camisola aos garotos, nem pretendia contar. Tambm no falara nada para Heather, 
quando ela viera buscar os meninos para lev-los ao trailer. Precisaria se explicar quando trocasse de casa com Logan, mas quando chegasse o momento pensaria sobre 
o assunto.
      - Logan  timo - decretou Alec. - Mas papai disse que ele est "dando em cima". O que  isso?
      O velho Vance de sempre! Sempre misturando as coisas.
      -  uma expresso popular - disse Briana. - Nada que deva deix-lo preocupado.
      - Logan disse que a gente podia dar nome a todos os cavalos dele - falou Josh, passando por Alec e seguindo pra a geladeira. - O que a gente tem para jantar?
      - Sobras - respondeu Briana. J estava na hora do jantar? Tanta coisa acontecera desde aquela manh!
      - Voc vai escolher o nome de dois e eu tambm - lembrou Alec. - Vou chamar o ruo de Gatilho e o cinza de Viajante.
      - Que coisa boba ? argumentou Josh.
      - E da? - respondeu Alec.
      - Deixem de briga - falou Briana. - Vocs esto me deixando com dor de cabea.
      - Tentando deixar a gente com sentimento de culpa - disse Josh, triunfante. - Golpe baixo, me.
      Talvez, no final das contas, fosse melhor mesmo que os meninos passassem a freqentar a escola. Eles estavam lendo muito livro de psicologia. Sentimento de 
culpa!
      
      
      
      Logan teve cuidado para no chegar  casa de Briana at que j estivesse bastante escuro. Parou o carro diante de casa, perguntando-se se o depravado estaria 
escondido nas rvores.
      Aprendera no Iraque a confiar em seus instintos.
      Briana abriu a porta e o fitou, parecendo preocupada.
      - Eu disse a Alec e Josh que um encanador viria consertar alguma coisa no banheiro amanh - sussurrou ela. - E que voc estar aqui para acompanhar o servio. 
J lhe disse que odeio mentir para meus filhos?
      - No - respondeu Logan, passando por ela e se dirigindo  cozinha. - Mas posso imaginar.
      Wanda deu as boas-vindas a Parceiro e Malvado com algumas cheiradinhas amigveis.
      Ao ouvir a voz de Logan, Alec e Josh entraram na cozinha imediatamente.
      - Isso vai ser legal - previu Josh.
      - A gente pode dar comida aos cavalos? - perguntou Alec.
      - Eu j dei - disse Logan. Alec parecia decepcionado. - Ah...
      - Mas vocs podem me ajudar sempre que a me de vocs permitir - acrescentou Logan rapidamente.
      - Tome - disse ela, entregando um embrulho de papel amassado para ele. Logan olhou dentro e viu a camisola.
      Quando eles foram embora, Logan tirou a camisola do saco de papel e a segurou entre dois dedos.
      Briana devia ter vestido aquilo para Vance, ou para outro homem com quem se relacionara. Logan tomou cuidado para afastar esse pensamento da cabea.
      Pendurou a roupa no varal e a prendeu com um pregador de madeira. Depois se virou, com Malvado e Parceiro o observando do terrao dos fundos, e examinou as 
rvores que circundavam a casa.
      Venha, canalha, pensou. Vai comear a brincadeira.
      
      
      
      Logan deixara sacos de dormir e um colcho de ar para os meninos. Arrumara a cama para ela com cuidado, deixando at um vaso com flores no criado mudo.
      Todo o conforto de um lar. S faltava Logan para completar a cena.
      Na sala de estar, os garotos discutiam sobre que nome dar aos cavalos de Logan.
      Briana foi na direo deles, nervosa e inquieta. Dormir na cama de Logan era demais para ela, mas a alternativa era o sof, e este tambm trazia lembranas.
      - Fiquem quietos - falou Briana para os meninos, mais por hbito do que na esperana de que eles fossem parar de brigar.
      Josh estava agora diante do computador de Logan, fascinado com os vrios monitores, as trs impressoras e diversos outros aparatos eletrnicos.
      - Est ligado - observou ele, mexendo no mouse sem fio. - Conectado e tudo.
      Briana sabia o que ele queria.
      - No - falou ela. - Voc no pode usar o computador de Logan. O computador pertence a ele... e  muito caro.
      - Acho que ele no se importaria - insistiu Josh.
      ? E eu acho que no nasci ontem - rebateu Briana. - Saia dai, Josh. Estou falando srio.
      Os ombros do garoto se encolheram um pouco.
      - Voc acha que a gente vai ter um computador como esse algum dia?
      O tom de voz dele era to murcho que Briana foi at Josh e lhe ps a mo sobre a cabea.
      - Acho que vocs vo ter tudo o que querem na vida - disse ela gentilmente. - Vocs no vo ser pobres s porque eu sou. Podem fazer universidade, arranjar 
um emprego timo...
      Os olhos de Josh estavam carregados de tristeza.
      - Vou cuidar de voc, me - afirmou ele, com tanta franqueza que o corao de Briana quase parou de bater. - Quando eu crescer e fizer universidade, vou cuidar 
de voc.
      Briana o abraou, sentindo as lgrimas escorreram pelo prprio rosto.
      - Eu vou ficar bem - insistiu ela, depois de engolir o n da garganta. - Voc no vai precisar tomar conta de mim, querido.
      - Mas eu quero - disse Josh.
      - Eu quero mais que Josh! - exclamou Alec. - Vou comprar uma casa bonita e um cavalo para voc, e pagar todas as suas contas. Voc no vai nem mais precisar 
ir  porcaria daquele cassino.
      Briana piscou os olhos, fungou e passou as costas da mo sobre os olhos.
      - Que tal a gente voltar a falar desse assunto quando vocs tiverem se formado e estiverem ricos?
      Josh concordou com sobriedade.
      O rosto de Alec resplandeceu, mas a decepo logo assumiu o posto.
      - Logan no tem televiso! - disse ele em tom solene.
      - Que horror! - brincou Briana, rindo, os olhos ainda midos. - Agora a gente vai ter que fazer uma coisa antiga e fora de moda, como conversar!
      - Sobre o que a gente vai conversar? - perguntou Josh.
      - Universidade? - sugeriu Briana.
      - Ainda vai demorar muito para acontecer - respondeu Josh, abanando a cabea com deciso.
      Ela se forou a sentar no sof. Os garotos se juntaram a Briana, cada um de um lado.
      - Vocs gostam de ir  casa do pai de vocs e de Heather? - perguntou ela.
      -  normal - disse Josh, taciturno como sempre.
      - Heather deixa a gente dormir tarde - falou Alec. - Ela no quis me atropelar com a van, me.
      - Eu sei - respondeu Briana, abraando-os,
      - Voc largou o emprego no cassino? - perguntou Josh. - Voc no foi trabalhar hoje.
      Briana soltou um suspiro.
      - No. Depois que Alec quebrou o brao, resolvi tirar uma folga, s isso.
      - Eu gosto de conversar - disse Alec.
      -  bom - concordou Briana.
      - Se papai se casou de novo - continuou Alec ? por que voc no pode fazer o mesmo?
      Briana nunca deixava de se surpreender com a inteligncia dos filhos e sua capacidade de deix-la sem respostas.
      - Acho que poderia, sim. Mas no conheo ningum com quem gostaria de casar.
      - Voc conhece Logan - falou Alec.
      - Ele  muito pobre. Nem tem uma TV - afirmou Josh. Briana gargalhou. Trouxe-os para junto do corpo.
      - No , no - respondeu Alec. - D uma olhada naquele computador, bobo.
      - Olhem a discusso - alertou Briana.
      - Se voc se casasse com Logan, teriam filhos - continuou Alec. - Heather quer ter um filho, mas papai disse que j tem trabalho demais com os dois que j 
possui.
      Briana ferveu por dentro. Vance tinha muito trabalho? At poucos dias atrs, atrasava constantemente o pagamento da penso e sua comunicao com os garotos 
se resumia a uma ligao ocasional - a cobrar, na maioria das vezes - ou a cartes-postais garatujados.
      - Filhos requerem muita responsabilidade - disse Briana em tom moderado. O assunto e o sof a fizeram lembrar da necessidade urgente de comprar plulas anticoncepcionais. 
No era tola o bastante para pensar que o que acontecera naquela manh no ocorreria de novo... ou que conseguiria resistir por muito tempo.
      - A gente pode acender a lareira? - perguntou Josh.
      - A noite est meio quente - respondeu Briana.
      - A gente podia fingir que est acampando - falou Alec, esperanoso.
      - Tudo bem - concordou Briana, porque j lhes negara muita coisa na vida e, daquela vez, diria sim.
      Eles colocaram o colcho de ar e os sacos de dormir longe da lareira, e Briana se acocorou para acender o fogo com uma caixa de fsforos.
      Quando se virou, Alec e Josh estavam nos sacos de dormir e Wanda no colcho de ar, entre eles. Segurando o queixo nas mos, eles observavam as chamas.
      - Eu gosto daqui - falou Alec, bocejando.
      - Eu tambm - acrescentou Alec. Em 15 minutos, os dois estavam dormindo. Briana tirou um livro da valise, leu por meia hora e comeou a bocejar tambm. Depois 
de se certificar de que as portas da frente e dos fundos estavam trancadas, apagou o fogo e se dirigiu ao quarto de Logan.
      Foi ao banheiro escovar os dentes. Viu os remdios que Logan guardava no armrio.
      Os remdios que uma pessoa toma dizem multo sobre essa pessoa.
      Havia ali uma enorme variedade de remdios para resfriado e analgsicos, dos que no precisam de prescrio. Hipocondraco.
      Remdios prescritos por mais de um doutor? Viciado em plulas.
      Preservativos coloridos e - Deus me livre - com sabor? Gostava de joguinhos na cama.
      Fazendo grande esforo, Briana virou as costas para o armrio e saiu do banheiro.
      Dormir na cama de Logan Creed j seria um desafio e tanto. Dar uma espiada nos remdios que ele tomava no o tornaria mais fcil.
      
      
      
      Pouco depois da meia-noite, Logan encarou os fatos. O plano era falho.
      No se sentia bem dormindo na cama de Briana, mas, pensando que seria o lugar aonde o pervertido iria, foi para l. Tirou as botas e se deitou.
      Virava de um lado a outro, pensativo.
      No viera a Stillwater Springs para arranjar problemas, mas no fugiria deles quando aparecessem. Um Creed no agia assim. Se Brett Turlow ou outra pessoa 
estava assustando Briana, faria tudo o que fosse preciso, inclusive bater no sujeito.
      Fechou os olhos, convencido de que no dormiria.
      Quando um barulho o acordou, pensou t-lo ouvido em sonho, a princpio.
      Olhou para o relgio na mesinha de cabeceira de Briana e viu que passavam das 3h.
      Algo produziu um rudo seco, na cozinha.
      Parceiro - ou, mais provavelmente, Malvado - soltou um ganido baixo, que mal dava para escutar.
      Logan franziu a testa e sentou, fazendo o mnimo rudo possvel.
      Uma segunda pancada seca foi ouvida e algum resmungou um xingamento em voz rascante.
      Logan ficou de p e seguiu para o corredor, agradecendo o fato de no estar calando as botas.
      Logan se aproximou, apertando os olhos, mas tudo o que pde ver foi o vulto de um homem, andando pela cozinha, desviando cautelosamente do raio de lua que 
entrava pelas janelas.
      Logan nem pensou que o invasor pudesse estar armado, foi direto at ele, lhe deu um soco e o derrubou no cho.
      - Que diabo  isso? - falou o invasor.
      Uma cabea de cabelos louros se acendeu com a luz da lua.
      Dylan se sentou.
      - Logan? O que voc est fazendo aqui?
      - Eu posso fazer a mesma pergunta - respondeu Logan, cruzando os braos.
      - No achei quarto na cidade - disse Dylan, apanhando o chapu do cho e batendo contra a perna uma vez. - Liguei para Briana, mas ningum atendeu, ento vim 
at aqui, pretendendo dormir no sof.
      - E por que est aqui... digo, em Stillwater Springs?
      - Por que estava com vontade de vir, s por isso. No para ser esmagado sob o peso de um caubi de 86kg, isso  certo.
      Logan sorriu, mas sabia no haver muito entusiasmo na expresso.
      - E Briana provavelmente estava esperando encontrar voc roncando no sof na manh seguinte.
      - Deixei uma mensagem - lembrou Dylan, indicando o telefone de parede com a cabea.
      - Ela certamente no a ouviu. Dylan, voc no pode entrar na casa dos outros desse jeito, no meio da noite.
      - Onde est Briana?
      Logan foi at a bancada, pegou uma lata de caf e comeou a passar seu contedo.
      -  uma longa histria - disse ele.
      - Estou ouvindo - respondeu Dylan, sentando-se  mesa. - Tem alguma coisa para comer?
      - No - respondeu Logan.
      - Tudo bem. S perguntei por perguntar.
      Logan foi at a geladeira, sentindo-se dono do lugar. Resmungando, encontrou um iogurte e o atirou para Dylan.
      - Nossa! Que maravilha - disse Dylan, irnico. - No sei como agradecer!
      - Voc no estava com fome? V em frente - replicou Logan.
      - Voc est agindo como se a casa fosse sua e no minha.
      - A casa  de Briana.
      -  por isso que voc queria que eu voltasse ao rancho? Para me dar pancada?
      - Quem disse que eu queria que voc voltasse?
      - No ouvia sua voz fazia cinco anos, a, de repente, voc me liga para dizer que o touro  uma ameaa e est construindo uma cerca. Por que outro motivo faria 
isso, a no ser para provocar minha vinda?
      - Voc no deveria estar caindo de telhados de saloon em filmes de caubi? - respondeu Logan, tirando duas xcaras do armrios e as colocando sobre a mesa. 
Ele realmente queria que Dylan voltasse para casa, ento por que agora estava to irritado?
      Os olhos de Dylan cintilaram. Ele sempre sabia o que se passava na cabea de Logan.
      - O que est acontecendo, Logan? - perguntou Dylan, calmo. - Se Briana estivesse aqui, o barulho a teria acordado h muito tempo.
      - Ela est na minha casa - informou Logan. - Com os meninos e a cadela. 
      - Por qu?
      Logan passou a mo pelo cabelo e sentou  mesa. Dylan fez o mesmo. E Logan falou a ele do invasor. Dylan o ouviu atentamente.
      - Voc pensava que era eu - disse ele. Logan sorriu.
      - . E, francamente, fiquei decepcionado por no ser. Porque quero muito pegar esse pervertido pelas orelhas e bater com a cabea dele no cho uma dezena de 
vezes.
      Dylan tomou um gole do caf, fez uma careta. Logan esquecera que seu irmo mais novo achava que entendia muito de caf. De caf e de todo o resto.
      - Est pssimo - resmungou ele.
      - Sua locatria no  rica. O que voc esperava, os melhores gros selecionados da Colmbia? - perguntou Logan.
      - Rapaz, voc est mesmo estressado. Est dormindo com Briana?
      - Que pergunta  essa?
      - Uma pergunta razovel - falou Dylan. - Voc est se mostrando muito protetor, na minha opinio. E qual  o motivo da camisola l fora?
      Os maxilares de Logan travaram por si prprios. - J lhe disse o que aconteceu. Estava tentando atrair o pervertido.
      - Funcionou comigo - falou Dylan com voz arrastada.
      - No preciso dizer mais nada - replicou Logan.
      - Muito engraado.
      - Eu sou hilrio.
      ? No, no  - disse Dylan. - Voc  o mesmo nervosinho de nariz empinado, sempre disposto a julgar os outros.
      - A gente vai mesmo continuar nesse assunto? Porque eu continuo com muita raiva e no quero desperdi-la.
      - Estou vendo.
      - Por que voc no foi para minha casa? - perguntou Logan.
      - Como assim? Logan abriu as mos.
      - Quando viu que no tinha quarto em Stillwater Springs, por que no foi l em casa?
      - No sabia como seria recebido.  brincadeira. No sabia como eu me comportaria.
      ? Oua, sinto muito por t-lo machucado. Pensei que voc fosse um sujeito pervertido. Dylan riu e bebeu mais caf. - Como se isso fosse novidade! - falou ele.
      - Eu nunca disse que voc era um pervertido.
      - Disse, sim. Quando voc estava com 17 anos e tinha aquelas fotos de sua namorada... Como era o nome dela? Cindy?
      ? Suzanne? Eu publiquei as fotos na internet e voc correu atrs de mim o distrito inteiro, gritando que eu era um pervertido.
      - Ainda hoje no consigo acreditar que voc tenha feito isso.
      - Acredite - falou Dylan. - Voc roubou aquela garota de mim. Meu orgulho masculino precisava se vingar.
      - O pai dela o teria matado se Jake no houvesse impedido.
      - Tarde demais, Logan percebeu que a meno ao pai fora um erro. Afinal de contas, Jake era o pomo da discrdia entre os trs irmos, e a morte dele os separou, 
indo cada um para um canto diferente.
      O rosto de Dylan ganhou uma expresso pesarosa e, por um minuto, ele pareceu ter mais do que seus 32 anos. Mas as palavras dele surpreenderam Logan.
      - O que voc acha que o deixou louco? - perguntou Dylan.- O que havia de errado com papai?
      Logan no respondeu logo. Precisava averiguar o terreno antes e no sabia se tinha a resposta.
      - Voc acha que ele era louco? - falou por fim. Aprendera essa tcnica na terapia de casal, quando ele e Laurie ainda pensavam em continuar juntos. Tinha um 
nome desses de psicologia que no lembrava no momento.
      - No venha bancar o advogado comigo, Logan - retrucou Dylan. - Qual era o problema de nosso pai?
      Logan ergueu os ombros e tornou a baix-los. No deu de ombros, era um gesto de resignao.
      - Ele era alcolatra, Dylan - apontou Logan com cuidado.
      - Mas o que o fez ser daquele jeito? Sofreu abuso quando era criana ou algum coisa do tipo?
      Logan suspirou.
      - Algumas pessoas nascem com defeito, s isso. Talvez Jake fosse manaco-depressivo. Talvez fosse louco. Realmente no sei, e as tentativas de entend-lo me 
deixando esgotado.
      - A mim tambm - confessou Dylan, depois de muito tempo. Ele se levantou, espreguiando-se. - Se voc no se importa, acho que vou me deitar no sof.
      - Espere! - disse Logan.
      - Que foi?
      - Voc pode ser dono da casa, mas no momento o lugar pertence a Briana. E ela j tem problemas demais sem o proprietrio por perto, comendo todo o seu iogurte.
      Dylan soltou uma risada.
      - Tudo bem - falou ele alegremente. - Vou me mudar para meu velho quarto, na casa principal do rancho, amanh.
      Ento Dylan ficaria, ao menos por um tempo. Os sentimentos de Logan quanto quilo estavam definitivamente confusos.
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO CATORZE
      
      
      
      
      
      
      - A gente deu comida aos cavalos! - anunciou Alec, com orgulho, quando Logan chegou  casa principal do rancho na manh seguinte, dirigindo o velho carro de 
Briana. Dylan o seguia em sua nova caminhonete brilhante, de um vermelho vivo.
      - timo - falou Logan, sorrindo, ao sair do carro com Parceiro e Malvado, que seguiram para saudar Wanda.
      Briana estava linda, o sonho da vida de um rancheiro, de p, ali, perto da cerca do curral, com o estbulo semiconcludo aos fundos. Sorriu com inquietude 
ao ver a outra caminhonete. Mas, em seguida, ao perceber que era Dylan quem saltava dela, sorriu de um jeito que fez o corao de Logan subir at a garganta.
      Droga, pensou. Ela gosta dele.
      Briana foi receber Dylan e lhe deu um abrao, que foi retribudo pelo irmo.
      - Dylan! - disseram os dois garotos em coro e correram para ele, quando Briana recuou, ajeitando a blusa, ao lado de Logan.
      Logan conseguiu destravar os molares e sorrir, quando ela se aproximou.
      - Teve alguma sorte? - perguntou Briana.
      Todo o azar do mundo, pensou Logan, observando Dylan conversar com Alec e Josh. Eles s tinham se visto uma ou duas vezes, Dylan e os garotos, mas quem os 
visse diria que eram amigos de longa data.
      Dylan era assim com as pessoas. Briana tocou o brao dele:
      - Logan?
      - Ah, voc diz com relao ao pervertido. - Ele abanou a cabea. - Ele no apareceu, mas eu quase matei Dylan quando ele apareceu ontem  noite.
      Briana mordeu o lbio inferior.
      - Acho que ele quer a casa de volta - falou ela, parecendo preocupada.
      - Por ora est pensando em ficar aqui, comigo - disse Logan.
      - Ah.
      - Oua, eu continuo sem gostar da idia de voc morar ali sozinha. Talvez voc devesse ficar aqui e deixar Dylan ocupar a casa.
      Ela sorriu melancolicamente. Abanou a cabea.
      - Impossvel. Logan franziu a testa.
      - Os garotos - lembrou Briana a ele.
      Dylan estava prestes a se aproximar. Precisava agir rapidamente se quisesse convenc-la.
      - Voc teria um quarto s seu.
      - Quanto tempo voc acha que isso duraria? - perguntou Briana.
      Ele suspirou, passando a mo pelo cabelo.
      - Voc est certa.
      - Vou trabalhar hoje - informou ela. - Vou levar Alec e Josh comigo.
      - Eles odeiam ficar na lanchonete do cassino - argumentou Logan. - Por que voc no os deixa aqui?
      - ! - gritou Alec.
      - ! - acrescentou Josh.
      - ! - concordou Dylan, com um sorriso. - Depois de ver como est Cimarron, a gente pode ir nadar no poo.
      - Que poo? - perguntou Briana, a testa enrugada. Dylan deu uma olhada para Logan, percebendo que o estava deixando bastante irritado.
      - Voc no contou a eles sobre o poo secreto?
      - No - respondeu Logan, tenso. - Eu estava um pouco ocupado.
      Briana no concordou com a idia, graas a Deus. Talvez fosse imune ao charme de Dylan, ainda que poucas mulheres fossem.
      - Alec est com o brao engessado e...
      - Por favor, me! - pediu Alec.
      - Se a gente envolver o gesso com saco de lixo e fita isolante no vai ter problema - falou Dylan.
      - A gente nada bem, me - lembrou Josh.
      - Tudo bem - falou Briana, sorrindo para Dylan. - Alec, voc pode ir l dentro pegar minha bolsa, por favor?
      Alec e Josh correram para dentro da casa. Dylan hesitou um pouco, mas acabou seguindo o mesmo caminho.
      - Tem certeza de que no tem problema? Os meninos ficarem aqui, quero dizer.
      Logan ainda estava observando Dylan.
      - Logan?
      - Tenho - disse ele.
      Pequenas linhas verticais surgiram na testa de Briana.
      - Voc est bem?
      - Estou. E voc?
      Ela suspirou, desviou o olhar e, em seguida, voltou a mir-lo nos olhos.
      - Na verdade, no estou indo trabalhar agora. Logan franziu a testa.
      - E aonde est indo?
      -  clnica, em Choteau. Preciso de anticoncepcionais e, se eu comprar por aqui, toda a cidade vai ficar sabendo em menos de cinco minutos.
      Logan piscou os olhos, um sorriso se abriu em seu rosto. Mas logo desapareceu.
      - Voc est pensando em fazer amor com algum? Briana sorriu, mas as bochechas ficaram rosadas.
      - Sim - respondeu ela. - Com voc. O sorriso voltou. - Ah!
      Briana se aproximou, baixando a voz.
      - Com quem voc achava que era, Logan Creed? - Briana olhou para a casa e a expresso no rosto dela mudou de novo. Virou um sorriso radiante. - Dylan?
      - As mulheres no conseguem resistir a ele - disse Logan, melanclico.
      - Eu consigo - respondeu Briana. Alec saiu de casa, trazendo a bolsa de Briana. Atravessou o jardim e a entregou  me.
      - Comporte-se - ordenou Briana a ele. ? No molhe o gesso. Alec revirou os olhos. - Me, eu no sou burro.
      Ela lhe beijou a testa, mas quase errou o alvo, porque ele imediatamente se virou para Logan.
      - Dylan disse que est com tanta fome que  capaz de comer um gamb vivo. Ele quer saber se voc tem bacon.
      Logan deu uma risada, abanando a cabea. Sim, era verdade. Dylan estava de volta.
      Cuidado com os seus desejos, pensou Logan, porque eles podem acabar virando realidade.
      Quando Briana apareceu no cassino, por volta da hora do almoo, tinha anticoncepcionais na bolsa e uma srie de preocupaes na mente. Podia estar grvida.
      Dylan Creed talvez quisesse a casa de volta. Alec e Josh podiam se acidentar nadando no "poo secreto" do rancho.
      Uma gigantesca nave aliengena poderia destruir a Terra. Bom, ao menos estava de bom humor.
      As mquinas caa-nqueis faziam o barulho de sempre. Jim, que tinha olhos de guia, como diz o povo, surgiu de repente, sado do nada.
      - Oi - falou ele.
      - Voc ainda tem emprego para mim? - perguntou Briana. Jim inclinou os lbios num sorriso.
      - Pode ficar com o meu se me der o que quero - respondeu Jim.
      - Um encontro amoroso? Jim ajeitou a bela gravata.
      - Vou anunciar minha candidatura oficialmente hoje.
      - Parabns! - cumprimentou Briana, sorrindo. - Pode contar com o meu voto.
      - Preciso perguntar uma coisa a voc - disse Jim, baixinho.
      - O qu?
      - Eu estava pensando... bom, se eu for eleito...
      - Jim - falou Briana. - Diga logo.
      - Vou precisar de uma chefe de gabinete.  servio pblico, com bastante estabilidade, benefcios sociais e...
      - Voc est me oferecendo emprego?
      Jim fez que sim com a cabea.
      - Claro. Primeiro, preciso vencer as eleies, mas... sim. Angie Wilson fez isso por trs administraes, mas vai se aposentar junto com Floyd.
      Briana estendeu a mo.
      - Xerife Cavalo Selvagem - disse ela - , aceito o servio. Ora, vou at fazer campanha para voc.
      Ele ficou levemente vermelho. Ajeitou a gravata de novo.
      - Tem outra coisa - falou Jim. L vem, pensou Briana.
      - Eu queria que voc convencesse minha ex-mulher a tirar umas fotos comigo: eu, ela e nosso filho, Sam. Fotos publicitrias para jornais e psteres, sabe?
      Briana piscou os olhos.
      ? Jim, eu no conheo sua ex-mulher. Como posso ter poder de convencimento maior do que o seu?
      - Todo mundo tem poder de convencimento maior do que o meu, quando se trata de Caroline - falou Jim. -  importante, Briana. Freida Turlow vai entrar na disputa 
hoje, e Mike Danvers, da Danvers Chevrolet, tambm...
      Briana levantou a mo.
      - Espere. O que a srta. Turlow e o dono de uma das maiores concessionrias do estado tm a ver com minha conversa com sua ex-mulher?
      - Freida  a ltima de uma dinastia, o nome Turlow ainda tem certo peso por aqui, apesar do imprestvel do irmo. E Mike tem uma famlia, uma mulher loura 
e sorridente, dois filhos lindos e at um cachorro de trs patas, salvo de uma queda num poo.
      - Irmo dela? - repetiu Briana, sentindo-se um pouco lenta.
      - Brett - disse Jim.
      - Ah. Ele com certeza ser uma referncia em poltica.
      - Freida  diferente, no tem nada a ver com Brett. Todo mundo gosta dela. - E Mike...
      - Jim - interrompeu Briana. - Pense. Fotos com seu filho so uma coisa, mas trazer sua ex-mulher para a campanha pode acabar parecendo... estranho. At mesmo 
uma fraude.
      - Tenho que fazer alguma coisa.
      - Voc vai ser um timo xerife. Isso j  suficiente.
      - Sou amerndio - sussurrou Jim. Briana sorriu.
      -  - falou ela. - Eu percebi.
      Jim tirou um pedao de papel do palet imaculado e o entregou a Briana.
      - Primeiro trabalho como minha chefe de gabinete. Ligue para Caroline, o nmero  esse que est a, e faa com que ela entre na campanha.
      - Jim...
      - Por favor?
      - Tudo bem - concordou Briana. - Vou ligar. Mas ela provavelmente vai desfiar uma srie de palavres.
      - Ligue para ela agora - pediu Jim. - Fico em seu lugar enquanto isso. Pode usar o telefone de minha sala.
      - Voc deve estar brincando.
      - Vai discutir comigo desse jeito quando eu for xerife?
      - Bata meu ponto - disse Briana, resignada. - Se vou fazer isso,  melhor que seja paga.
      Jim sorriu, observando-a entrar na sala. Caroline Cavalo Selvagem atendeu no segundo toque. - Jim?
      Briana limpou o pigarro da garganta.
      - Bom... no. Meu nome  Briana Grant e eu trabalho para seu... h... ex-marido...
      - Ah - disse Caroline, Ela possua uma bela voz, mas no parecia muito animada por ter recebido uma ligao de uma estranha. - Entendo.
      Briana fechou os olhos por um instante. Todos os botes do telefone de Jim piscavam. Ela afundou na cadeira, depois se levantou de novo.
      - Como deve saber - comeou Briana, perguntando-se se ela teria de fazer coisas assim caso Jim fosse eleito - , Jim est disputando a eleio para xerife. 
Eu o estou ajudando na campanha e...
      - Tinha certeza de que sim.
      - No  como voc est pensando - falou Briana.
      - Est me dizendo que nunca saiu com meu... com Jim?
      - A gente janta junto, vai ao cinema. No  que... 
      Caroline deixou escapar um suspiro.
      - Sinto muito - falou ela. - s vezes ainda fico um pouco possessiva. - A risada que saiu em seguida era triste. - Ento, srta. Grant, o que  que meu marido 
est com tanto medo de me pedir que mandou voc fazer isso por ele?
      Eu gosto dessa mulher, pensou Briana.
      - Ele queria saber se voc poderia tirar algumas fotos de campanha com ele e seu filho.
      - Ser divorciado virou uma vantagem em poltica agora? Briana sorriu.
      - Foi a pergunta que me fiz tambm - disse ela. - Mas Jim acha que  uma boa idia.
      Caroline ficou calada por tanto tempo que Briana pensou que ela desligara ou que a ligao cara por outro motivo.
      - Diga a Jim que ele mesmo vai ter que me pedir isso.
      Briana deu um soco no ar com o punho fechado, da mesma maneira como os meninos faziam quando estavam contentes.
      -  isso a, garota - incentivou ela. Caroline riu.
      - Diga a ele para me ligar.
      
      
      
      
      Com o brao engessado envolvido pelo saco de plstico e fita adesiva, Alec mergulhou alegremente no poo, tentando arrastar Josh, enquanto os trs cachorros 
latiam como loucos no barranco.
      - Isso faz eu me lembrar dos velhos tempos - observou Dylan, tomando um gole de uma garrafa d'gua e sentando ao lado de Logan, sobre um tronco de rvore familiar 
aos dois. - Quando eu, Ty e voc vnhamos para c.
      Logan sentiu a dor rasg-lo por dentro. Apesar de toda a bebedeira e gritaria de Jake e a sucesso de madrastas de bom corao, ele e os irmos passaram muitos 
dias quentes de vero dentro e ao redor do poo secreto.
      O que acontecera?
      Queria fazer a pergunta, mas o orgulho dos Creed o impedia.
      - Aquela foi uma poca boa - murmurou ele, aps um longo silncio.
      Dylan concordou com a cabea, sem olhar para Logan.
      -  bom ver crianas aqui - disse ele, calmo. Virou a cabea ento e seus olhos encontraram os de Logan. - Voc e Briana...
      - Que  que tem?
      - Vamos, Logan. Um cego seria capaz de ver que voc est dormindo com ela ou querendo muito dormir. O relacionamento  srio?
      - To srio que, se mexer com ela, eu acabo com voc.
      Dylan gargalhou, passou a mo pelo cabelo louro, que estava assanhado, como sempre, como as mulheres gostavam.
      - Vejam s, finalmente consegui que voc me desse uma resposta direta - brincou Dylan. - Seja l o que houver entre mim e voc, Logan, no vou atrapalhar seus 
planos, no se preocupe com isso.
      Os pelos de Logan se arrepiaram. Percebeu que estava agindo como um galo de briga e fez uma tentativa sria para parecer mais afvel.
      - Voc v Kristy quando vai  cidade? - perguntou Dylan, segundos mais tarde.
      - Kristy?
      - Kristy Madison - disse Dylan. - Voc a conhece, a bibliotecria. Quando fui embora de Stillwater Springs, ela estava noiva de Mike Danvers e prestes a ter 
uma vida de luxo.
      - Mike Danvers se casou com Becky Hammond - contou Logan.
      Dylan virou o rosto para fitar Logan.
      - Voc est brincando...
      - No,  verdade.
      - E Kristy...?
      - At onde sei, ainda trabalha como bibliotecria. - Kristy fora assunto de vrias histrias interessantes, sadas no Courier ao longo dos ltimos anos, e 
tudo o que Danvers fazia saa nos jornais locais. ? Mora na velha manso dos Turlow.
      Logan bebeu um gole da garrafa d'gua. De repente, a garganta parecia seca como areia do deserto.
      - Sinto muito, Dylan - falou ele, e as palavras o machucavam, arranhando por dentro. - Pelas coisas que disse depois do enterro de Jake.
      Dylan deu um tapa nas costas do irmo.
      Os olhos de Logan ardiam. Ele piscou algumas vezes.
      - Ele no prestava - afirmou Dylan. - Mas eu no estava preparado para ouvir isso no dia em que a gente o enterrou.
      - Eu sei - concordou Logan, triste. - Ty tambm no. Devia ter guardado minhas opinies para mim.
      Depois disso, nenhum dos dois falou por muito tempo. Logan imaginou que Dylan precisava de alguns minutos para se recuperar, como ele mesmo precisava. Ento 
ficaram olhando os meninos e os cachorros, ainda sentados lado a lado sobre o tronco cado, lembrando do passado.
      - Por que voc continua com aquele touro? - perguntou Logan, quando sentiu que a voz sairia com firmeza.
      Dylan se espreguiou lentamente e se ps de p.
      - Cimarron? - perguntou ele. - Foi o ltimo touro que montei, antes de deixar o rodeio. Ele era considerado perfeito - ningum nunca conseguira mont-lo... 
e eu no ca uma nica vez. Iam aposent-lo, ento o comprei e trouxe para o rancho. Pensava em fazer dele um reprodutor.
      Logan tambm se levantou. Assobiou para os garotos e os meninos.
      Com relutncia, Alec e Josh saram do poo, e Parceiro, Malvado e Wanda os acompanharam.
      - Hora de comer - informou Logan aos meninos. Em que momento exatamente comeara a gostar tanto deles?
      Ser que Vance Grant sabia como era sortudo por t-los?
      - A gente pode ir almoar na cidade? - perguntou Alec, tremendo, enrolado na toalha.
      - Claro. Por que no? - sorriu Logan.
      Uma hora depois, estacionavam a caminhonete de Dylan na frente do cassino. Tinham passado na casa de Briana para pegar roupas secas para os meninos. No havia 
sinais de arrombamento, ento eles deixaram Wanda, para que descansasse das brincadeiras da manh.
      Briana os viu assim que entraram no restaurante.
      - Oi, me - cumprimentou Alec - , a gente nadou e no molhou meu gesso. Wanda nadou para pegar um graveto e se sacudiu toda para se secar, molhando todo mundo...
      Briana olhou para o menino com uma imensa expresso de amor nos olhos, algo que Logan jamais vira. Sentiu uma pontada violenta no peito de tanta emoo.
      - Ai, ai - falou Dylan, ao olhar para ele.
      - Que bom! - exclamou Briana. E, depois, olhando para Logan: - Aquela coisa sobre a qual conversamos hoje de manh, lembra? Eu consegui.
      - timo - disse ele, e a palavra saiu rouca e grave. Logan sentiu o fogo consumir seu pescoo. Ela fora  clnica em Choteau, como dissera, para apanhar anticoncepcionais. 
O que significava que...
      No comece!
      - Almoa com a gente? - perguntou Dylan. Quando se tratava de mulheres, ele sempre sabia o que dizer na hora certa.
      Mas talvez isso no tivesse acontecido com Kristy Madison.
      Briana abanou a cabea.
      - Preciso trabalhar - disse ela. - Estou buscando uma promoo.
      - Vejo voc hoje  noite? - perguntou Logan.
      - Depende - respondeu Briana. - Vou trabalhar at tarde, para recuperar o tempo que perdi, e Vance ligou agora h pouco. Ele e Heather vo ver um filme no 
drive-in hoje  noite, e convidaram vocs dois. O pai de vocs vai folgar no final de semana, ento vocs podem dormir l, se quiserem.
      Dylan olhou de Briana para Logan, sorriu para si mesmo e sentou para abrir o cardpio.
      - Vai ser timo - disse Alec, sempre sorridente.
      - Se voc se lembrar de no ficar atrs da van - acrescentou Josh, revirando os olhos de forma eloqente.
      - Acho que papai no vai deixar Heather dirigir com a gente l - comentou Alec, muito srio.
      - Ento, est combinado - falou Briana.
      - Est, sim - concordou Logan, como um bobo. Dessa vez foi Dylan quem revirou os olhos.
      
      
      
      Walter, um segurana que ficava na porta do cassino, velho o bastante para ser av de Briana, a levou at o carro quando ela deixou o trabalho naquela noite. 
Vance apanhara os meninos s 17h30, quando saiu do servio e, depois que desse comida a Wanda e a deixasse passear, Briana seria uma mulher livre.
      Uma mulher livre com plulas anticoncepcionais na bolsa. Seguiu para casa e, um tanto surpresa, mas ao mesmo tempo no, viu o carro de Logan estacionado perto 
de casa. As plulas anticoncepcionais pareceram pular dentro da bolsa.
      Depois de respirar fundo, Briana desligou o motor, abriu a porta e saiu. Tomara a primeira plula com um refrigerante diettico, ao sair de uma farmcia em 
Choteau. Mas no tivera coragem de perguntar ao mdico quanto tempo levaria at que fizesse efeito.
      Ao se aproximar da casa, resolveu no ter medo. Dylan estava provavelmente l com Logan, o que significava dizer que no fariam amor.
      Sem isso, no engravidaria, claro.
      A no ser que ela e Logan j houvessem concebido uma criana quando se amaram sobre o sof.
      A porta dos fundos se abriu e Logan surgiu no vo, a luz chegando por trs dele. Era um rancheiro, um caubi, o tipo de homem que ela conhecia e entendia.
      Ser mesmo? Havia muita coisa que Logan Creed no revelara a ela at aquele momento, e isso a deixava nervosa.
      Ela se deteve, ali mesmo, no terrao.
      Wanda passou por Logan e saltitou na direo dela, trmula de alegria, abanando o rabo.
      Briana deu as boas-vindas  cadela, endireitou o corpo e voltou a andar.
      - Dylan est na outra casa - falou Logan, sem que ela houvesse perguntado.
      Briana olhou para ele, sentindo-se tmida.
      Logan estendeu a mo e ela percebeu que parara de novo.
      Ela foi at ele.
      Logan a pegou no colo, subiu os degraus do terrao e, trazendo-a para mais perto do peito, lhe deu um beijo rpido e intenso e entrou com Briana em casa. Colocou-a 
sentada numa cadeira da mesa da cozinha.
      - O que...
      - J fiz o jantar - falou Logan. - Bem, na verdade comprei o jantar. - Fazendo um floreio, ele abriu a porta do forno e o cheiro de frango frito, desses de 
entrega, encheu a cozinha.
      Ele serviu o banquete. Alm do frango, comprara bolacha, dois tipos de salada de macarro e sufl.
      - Estamos comemorando alguma coisa? - perguntou Briana.
      - Talvez - respondeu Logan.
      - Voc est querendo me seduzir?
      - Depende de voc. Se no estiver muito cansada do trabalho, pensei em darmos uma caminhada depois do jantar. H alguns lugares que queria mostrar a voc.
      timo. Alm de ser sensual, Logan Creed ainda era romntico.
      - No tenho certeza sobre quanto tempo  preciso esperar para o anticoncepcional comear a funcionar - disse ela, e em seguida desejou evaporar no espao.
      - Voc no foi a nica pessoa a ir  farmcia hoje, Briana - respondeu Logan. - Relaxe, sim? Quem disse que a gente vai direto para a cama?
      - Voc comprou o jantar. Est falando sobre sair para olhar as estrelas...
      - E isso significa que vou pular em cima de voc daqui a dois minutos?
      - No?
      Os olhos dele demonstravam bom humor e excitao quando Logan se recostou na cadeira e lhe lanou uma olhadela.
      - Nunca deixe que digam que um Creed no se comporta como um cavalheiro de verdade.
      - No quero estragar seus planos, mas acho que isso j foi dito - respondeu Briana.
      - Nossa reputao nos precede - lamentou ele.
      - E como! - falou ela, mas no conseguiu evitar um sorriso. Logan se levantou.
      - Vou lavar a loua - disse ele. - Troque de roupa, vista algo mais adequado para pegar estrelas na concha das mos. Podemos pensar sobre fazer amor mais tarde.
      - Mais tarde quando?
      - Quando voc quiser, Briana. Hoje  noite, amanh, na prxima semana, no prximo ms. Vai acontecer, a gente sabe disso, mas no  preciso ficar tensa, tudo 
bem?
      - Tudo bem.
      Ela tomou um banho rpido, vestiu jeans e uma camiseta de manga comprida. As noites s vezes eram frias em Stillwater Springs, mesmo no vero.
      Trancaram a casa, colocaram Wanda no banco traseiro e rodaram atravs da paisagem campestre.
      Logan era uma pessoa do campo, pensou Briana. No precisava usar a estrada.
      Foram at o poo secreto, estacionaram sobre o barranco, os faris iluminando a gua. O lugar parecia mgico, principalmente  luz da lua. Havia um velho barco 
a remo no meio e uma corda pendia de um galho de rvore, servindo de balano.
      Alm disso, Briana no conseguia ver muita coisa.
      - Eu e meus irmos vnhamos muito aqui quando ramos crianas - contou Logan, olhando atravs do para-brisa, como se voltasse no tempo.
      - Voc, Dylan e...?
      - Tyler - revelou Logan. A voz dele parecia spera. E muito triste.
      Num impulso, Briana estendeu a mo, encontrou a dele e a apertou.
      - Est sentindo vontade de conversar, caubi? Ele virou a cabea e a encarou.
      - Dylan vai embora dentro de alguns dias - falou Logan. - S voltou para dar uma olhada no touro e se certificar de que eu no estava pondo cercas onde ele 
no queria.
      - Isso  bom ou ruim?
      - As duas coisas, acho. Mas eu queria...
      - O qu, Logan?
      - Queria que as coisas pudessem ser diferentes. Entre mim, Dylan e Tyler.
      - E o que aconteceu?
      - Eu e Dylan entramos num acordo. Ou, pelo menos, comeamos a entrar - disse Logan. - Mas com Tyler... Com Tyler vai ser mais difcil.
      - O que foi que aconteceu exatamente entre voc e seu irmo?
      Logan deixou escapar um doloroso suspiro. Haviam voltado a rodar pelo campo, mas ele parou o carro.
      Sobre a cabea deles, no imenso cu de Montana, milhes de estrelas cintilavam, imensas e prateadas.
      - Trocamos palavras pesadas - contou Logan por fim - no dia do enterro do meu pai. Eu estava sofrendo e tambm um pouco bbado da farra da noite anterior. 
Tyler cantou uma msica tecendo louvores, dizendo como Jake fora um homem bom. - Logan no parecia prestar ateno s estrelas, apesar de ter se referido a elas 
mais cedo; de perfil, ele parecia rgido como uma pedra. - Dylan apareceu no enterro com a ltima conquista, uma danarina de rodeio, vestindo uma minissaia vermelha, 
e ns trs ficamos bebendo e conversando, depois de todos terem deixado o cemitrio.
      Briana esperou, querendo tomar a mo de Logan novamente, mas sem coragem de faz-lo.
      - Depois disso, fomos  Skiwie's para beber de verdade - continuou Logan. - At a mulher desclassificada trazida por Dylan fora embora, de carona com um caminhoneiro 
de passagem. E Tyler tirou o violo e comeou a cantar aquela msica de novo...
      - Continue - incentivou Briana gentilmente.
      - A no agentei - concluiu Logan. - Tomei o violo das mos dele e o destru, batendo-o na parede do bar, gritando que aquilo era mentira, que Jake no passava 
de um alcolatra e a gente tambm. - Ele parou de falar, respirando com dificuldade. - Era uma porcaria, aquele violo. Mas tambm era a nica coisa que a me de 
Tyler deixara que Jake no conseguira quebrar, dar ou queimar no quintal. Foi a que a briga comeou. O xerife Book e dois assistentes recrutados por ele na hora 
nos levaram para a cadeia. Fim da histria. 
      Briana pegou a mo de Logan de novo e a segurou. Depois de um tempo, ela disse: 
      - O que acha de sairmos da caminhonete para dar uma olhada nas estrelas?
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO QUINZE
      
      
      
      
      
      
      
      Deitaram-se de costas no capim alto, de mos dadas e fitando as estrelas. O momento era o mais perfeito j vivido por Logan, e ele desejava que durasse para 
sempre.
      Era uma espcie de bno mstica, aquele cu imenso, preto e arroxeado, salpicado de bilhes de outros mundos.
      Briana suspirou, o hlito quente tocou o lado do corpo de Logan. Eles no tinham feito amor, mas parecia que sim, como se houvessem unido as almas de uma forma 
inexplicvel, s de deitarem juntos sob toda aquela eternidade. - Voc estava certo - sussurrou ela. -  lindo. Ele a trouxe mais para perto, ento Briana descansou 
a cabea sobre o peito de Logan. Ele passou a mo ao longo da trana dela. Dylan saberia o que dizer num momento como aquele, pensou Logan, absolutamente maravilhado 
com o sentimento de estar vivo e com aquela mulher especial a seu lado.
      - Voc est bem? - perguntou Briana, abrindo os dedos sobre o peito dele, provavelmente sentindo o constante bater do corao de Logan na palma da mo.
      Mulheres. Quando se fica simplesmente calado, elas acham que h alguma coisa errada. Logan sorriu.
      - Mais do que bem. Ela voltou a ficar em silncio.
      Ele beijou-lhe a testa, encostando o queixo na cabea de Briana.
      Um longo tempo se passou.
      Briana quebrou o silncio.
      - Quem  voc, Logan Creed? - perguntou ela.
      - Boa pergunta - respondeu ele.
      - Voc vivia uma outra vida antes de voltar a Stillwater Springs, no era?
      - Sim. Tinha uma casa em Las Vegas. E me casei algumas vezes. Est querendo saber se guardo algum segredo terrvel?
      - S estou tentando entender voc.
      - O que h para entender?
      - Voc. Voc tinha uma vida diferente em outro lugar. Por que voltou?
      - Se eu disser, voc pode ficar assustada - contou Logan. Briana sorriu.
      - Faa um teste.
      - Voltei porque posso me deitar na grama aqui e ficar observando as estrelas. Porque foi aqui que nasci e  o lugar ao qual perteno.
      - No estou assustada at agora - disse Briana. Ele deu uma risada e a beijou.
      - A vem a parte assustadora. Quero reerguer o rancho, faz-lo voltar aos tempos de glria, por assim dizer. Quero uma esposa e um bando de filhos barulhentos. 
E quero provar... a mim mesmo, se no para os outros... que no sou o tipo de homem que meu pai era.
      Briana ouviu tudo. No ficou de p imediatamente e correu para a estrada principal, o que era encorajador.
      - Que tipo de homem era seu pai? - perguntou ela.
      - Ele era um b...
      Briana o impediu de dizer a palavra, levando um dedo aos lbios dele.
      - Alm de ter problemas com o lcool, o que mais? Logan ficou pensando.
      - Severo. Jake era severo. Tinha um pssimo temperamento. Trabalhou cortando madeira a vida inteira e, apesar de passarmos dificuldades no rancho, principalmente 
quando ele era dispensado do trabalho durante o inverno, sempre tnhamos o que comer. Usvamos sapatos e amos ao dentista a cada seis meses.
      - Ele era violento?
      - Nem tanto fisicamente - respondeu Logan. - Ele nos batia de vez em quando, mas era assim com a maioria das crianas naquele tempo. Quando bebia, no entanto, 
e isso era frequente, se transformava num monstro. No conseguia controlar a raiva como fazia quando estava sbrio. A gente sempre se escondia ao primeiro sinal 
de uma garrafa de bebida, Dylan, Ty e eu. E permanecamos escondidos at a bebedeira passar.
      Briana fez um lento crculo com a mo sobre o peito dele.
      - Nunca vi voc embriagado nem violento. Isso acontece?
      - Nunca mais desde o enterro - disse Logan, tentando fechar os olhos da memria. - Fiquei arrasado no dia seguinte. Hoje em dia, mal consigo terminar uma cerveja.
      - Seu pai queria erguer o rancho e ter mais filhos? Logan sentiu a garganta apertar de novo.
      - Ele no queria ter tido ns trs, quanto mais fazer outros! E odiava o rancho, herana deixada pelo pai dele, acho. O rancho deu muito lucro para vrias 
geraes, mas quando veio a Grande Depresso, ningum podia mais comprar carne. Gradualmente, acabaram comendo o gado que ainda restava e definhava a cada dia, Acho 
que meus avs nunca se recuperaram da perda. Jake tambm no. Dizia que a terra era um peso em suas costas. Depois que a me de Tyler se matou, as coisas pioraram 
muito. Ele passou a beber ainda mais, se  que isso fosse possvel.
      - Logan, voc no v como  diferente de seu pai?
      - Podemos falar um pouco sobre seu pai agora? - pediu Logan. Falar sobre Jake o deixava deprimido, sem esperanas, ainda que tivesse mais dinheiro do que jamais 
seria capaz de gastar. Pensara que o dinheiro lhe traria a felicidade.
      No trouxera.
      Briana sorriu, sem dvida lembrando de Bill McIntyre, o Louco, rei dos palhaos de rodeio.
      - Ele gostava de ler - disse ela. - A gente tinha uma caixa de sapato cheia de cartes de bibliotecas de vrias cidades, em meia dzia de estados. Certa vez, 
ele esqueceu de devolver um livro antes de irmos ao prximo local de rodeio e a gente voltou quase 160km para pagar a multa. Cinqenta centavos.
      - No a incomodava ser criada na estrada desse jeito?
      - Eu no faria de novo - disse ela, depois de um longo silncio. - A essa altura da vida, no. Mas levvamos uma vida maravilhosa,  espera do que a estrada 
nos reservava, cantando uma msica de rdio, fosse de Johnny Cash, ou de Patsy Cline, ou de George Jones. Nossa favorita era "Old Dogs, Children and Water Melon", 
de Tom T. Hall. - Ela fez uma pausa e soltou um suspiro. - Todo Natal a gente ia a Boise para visitar minha tia Barbara e a famlia. Sempre tinham uma rvore grande, 
comida de festa e um monte de presentes, mas eu mal podia desfrutar daquilo, porque receava que minha tia finalmente conseguisse convencer meu pai a me deixar com 
ela, para que eu fosse a uma escola "de verdade". Ele nunca aceitou. Nem mesmo quando cheguei  adolescncia.
      - Voc nunca quis fincar razes em algum canto.
      - Algumas vezes, sim. Gostava de ver um grupo de garotas da minha idade no shopping, conversando, comendo com as mes ou os amigos na praa de alimentao. 
E teria sido timo poder contar com uma me, principalmente quando veio minha primeira menstruao e quando comecei a pensar em garotos.
      Logan a apertou de leve, pensando na menina que Briana fora.
      - Logo depois de meu pai resolver parar de seguir o rodeio e se estabelecer em Boise, conheci Vance.
      - Amor  primeira vista?
      - Acho que foi puro desejo mesmo - respondeu Briana. Logan riu.
      - Conheo a diferena - falou ele. - Casei com minhas duas ex-mulheres porque era muito novo e estpido, e queria fazer amor com elas. Nunca me ocorreu, nem 
a elas, acho, que teria sido melhor se no tivssemos casado.
      Assim que terminou de pronunciar essas palavras, Logan ficou pensando se no lamentaria hav-las dito.
      - Tudo acontece por um motivo - ponderou Briana. - Meu relacionamento com Vance no deu certo, mas hoje tenho Josh e Alec, ento valeu a pena.
      - So timas crianas - comentou Logan. - E... - E?
      - E est ficando frio aqui fora. Vamos voltar para sua casa. Logan se sentou, ficou em p e ajudou Briana a se levantar.
      - Aqui seria um timo lugar para fazer amor - disse ela, sorrindo maliciosamente.
      Ele riu e a beijou.
      - Uma cama  melhor.
      
      
      
      Briana sentiu um frio na boca do estmago quando saram da estrada e seguiram para casa. No banco traseiro, Wanda ganiu baixinho.
      Mesmo antes de o carro parar e verem que a porta dos fundos estava aberta, Briana sabia que havia algo errado.
      Seu primeiro pensamento, como sempre, foram os garotos. Era irracional temer por eles, Briana sabia. Estavam assistindo a um filme com Heather e Vance no drive-in, 
provavelmente se enchendo de pipoca. Mesmo assim, pegou o celular, enquanto Logan pisava no freio, desligava o motor e saa do carro, disparando na direo da casa.
      Ningum atendeu o telefone compartilhado por Josh e Alec.
      Era provvel que o houvessem desligado para ver o filme. Briana saiu do carro e correu atrs de Logan, esquecendo-se de Wanda. Voltou para peg-la, mas pensou 
melhor e desistiu. - Logan? ? chamou.
      Ele estava acabando de sair pelo corredor que dava para o quarto e o banheiro dela. E, se ela no sabia o que ele vira, a expresso no rosto de Logan a deixou 
horrorizada.
      Algum entrara na casa e, dessa vez, pilhara a cozinha. Esvaziara os armrios. Quebrara todos os pratos e copos.
      Ela se virou para olhar a fechadura da porta dos fundos. No estava quebrada. O invasor tinha a chave?
      Briana pensou no lbum de fotos, com todas as fotografias do pai, dela mais nova, dos filhos, e correu para a sala de estar.
      O contedo do lbum estava atirado por toda parte, alguns retratos haviam sido rasgados. Briana caiu de joelhos, chorando de desespero, e comeou a recolher 
o material com gestos frenticos.
      Por trs dela, Logan usava o telefone celular para ligar para o xerife Book.
      - Por que algum faria isso? - gritou ela sobre o peito de Logan, quando ele terminou a ligao e a trouxe para junto de si.
      - No sei. O xerife Book est a caminho. Briana se afastou de Logan.
      - Xerife Book! - gritou. - Grande coisa! ? Na distncia, o latido de Wanda, ainda que abafado, demonstrava ansiedade.
      - Vou peg-la - falou Logan.
      Briana concordou com a cabea, olhando ao redor da sala.
      As almofadas do sof haviam sido rasgadas, as cortinas destrudas. O aparelho de TV estava partido em milhares de pedaos.
      Briana levou a mo  boca, virando-se lentamente, o estmago queimando. Estava atravessando a cozinha, determinada a ver o estrago no quarto dos meninos e 
no dela quando Logan entrou, carregando Wanda.
      - No - disse ele. - No entre a.
      Ela correu, porm ele foi mais rpido. Segurou-a pelo brao.
      - No, Briana. Ainda no.
      - O estrago foi to terrvel assim?
      - Foi mais do que terrvel. Ela comeou a tremer.
      Logan a levou at a mesa e a fez sentar na cadeira mais prxima. Entregou-lhe a bolsa.
      Briana encontrou o celular, ligou de novo. Ningum atendeu.
      - Qual o nmero de Vance? - perguntou Logan calmamente. Briana tentou lembrar o nmero e o disse para Logan quando conseguiu. Ouviram uma sirene distante.
      - Vance? - falou Logan ao telefone. - Logan Creed. Josh e Alec esto com voc?
      Uma ruga surgiu na testa dele. Briana pegou o telefone com um nico golpe.
      - Vance? - disse ela, voz rascante. - Onde esto meus filhos?
      - Relaxe - disse Vance. - Precisei fazer hora extra, ento Heather foi com eles para o cinema.
      Logan permaneceu absolutamente imvel, enquanto a sirene se aproximava e Wanda comeava a latir.
      - Eles no atendem o telefone - falou Briana, levantando tanto a voz que pde ser ouvida por cima da sirene e dos latidos.
      - Devem ter ido quele cinema com vrias salas, na estrada - disse Vance. - Devem ter precisado desligar. E pare de gritar.
      O xerife Book chegou. Ao topar com a cozinha arrasada, soltou um assobio.
      - Preciso falar com Alec e Josh - insistiu Briana. - Se voc tem como falar com Heather, faa isso!
      - Est acontecendo alguma coisa?
      - Algum invadiu minha casa - contou Briana por fim, controlando a respirao. - Destruram tudo. Preciso saber se Alec e Josh esto bem, Vance.
      - Vou busc-los e levo at a...
      - No! - gritou Briana. - Preciso arrumar o lugar antes. No quero que vejam como est.
      - Voc est sozinha a?
      - No - falou Briana. ? Logan est aqui e o xerife Book tambm. Encontre Heather, Vance. Pea a ela para dizer aos garotos que me liguem imediatamente. Tudo 
bem? Voc pode fazer isso?
      - Posso, sim - respondeu Vance, irritado. Eles desligaram sem despedidas.
      quela altura, o xerife Book e Logan haviam desaparecido. Ela aproveitou a ocasio para dar uma espiada no quarto.
      A palavra vadia estava escrita nas portas do guarda-roupa com o que parecia ser batom.
      A cama, a janela e as paredes estavam cobertas de um vermelho vivo e, por um minuto, Briana pensou que era sangue, antes de sentir o cheiro que estava no ar.
      Era tinta de spray.
      - Ah, meu Deus - sussurrou Briana, inclinando-se para pegar o tubo que estava no cho: o batom era dela, comprara na farmcia em Choteau, quando fora pegar 
os anticoncepcionais.
      Naquele instante, Logan enlaou-lhe a cintura.
      - Chega - disse o xerife Book, tirando o rdio do cinto. - Vou mandar levarem Brett Turlow  delegacia para ser interrogado. Tentem no tocar em nada at que 
a polcia estadual chegue com o pessoal da percia.
      Briana mordeu o lbio inferior, concordando com a cabea. O celular tocou, vibrando na mo dela. Briana atendeu imediatamente.
      - Alec? Josh?
      - Me? - falou Josh, ansioso. - Voc est bem? Papai disse que algum invadiu a casa...
      - Estou bem - falou Briana, tonta de alvio. - Wanda tambm. E o filme?
      - A gente no foi ver - disse Josh. A voz dele parecia murcha e abalada.
      O corao de Briana disparou novamente, como um cavalo de corrida.
      - Onde vocs esto?
      - Papai disse para no lhe contar.
      - No importa o que seu pai disse - respondeu Briana. - Eu quero saber onde vocs esto. Agora!
      - Ele est vindo buscar a gente, me - falou Josh. - Eu no quero quebrar minha promessa.
      Briana fechou os olhos, contou at dez, tomou a abri-los.
      - Joshua William Grant - disparou ela - , comece a falar agora.
      - A gente est no cassino.
      - O qu?
      - Na lanchonete. - Josh comeou a chorar. - Alec est aqui tambm e a gente est bem.  srio.
      ? Onde est Heather?
      - Ela disse que ia jogar e que, depois, a gente ia para o cinema. Mas que a gente no devia dizer nada para papai nem para voc, porque voc ficaria irritada.
      Briana engoliu em seco, olhando nos olhos preocupados de Logan.
      - Escute, querido, nem voc nem Alec vo ficar de castigo. Mas por que vocs desligaram o telefone? Fiquei preocupada, porque no conseguia falar com vocs.
      - Heather pegou emprestado - respondeu Josh. ? Ela esqueceu de carregar o dela. Ela deve ter ligado para papai ou algo assim, porque voltou aqui, jogou o telefone 
sobre a mesa e perguntou se estvamos satisfeitos, porque agora ns trs estvamos enrascados. Eu liguei para papai porque a gente devia estar com ele, e ele me 
disse para no dizer...
      - Heather est a agora?
      - No - informou Josh. - Alec quer falar com voc.
      - Espere um minuto antes de passar para ele - disse Briana. - Escute uma coisa, Josh. Quero que voc pea a um funcionrio do cassino que esteja por perto 
para ele ir chamar Jim, ou um segurana. Vocs no vo sair desse lugar com o pai de vocs, est entendendo? E, definitivamente, no vo sair com Heather.
      - Tu-tudo bem - disse Josh. - Mas como a gente vai chegar em casa?
      - Eu e Logan vamos buscar vocs. Logan concordou com a cabea.
      - Est entendendo? - repetiu Briana, quando Josh no respondeu.
      - Papai est aqui - disse ele. A voz que ouviu em seguida era de Alec.
      - Me? Eu estou com medo. Papai est furioso. Heather voltou e ele est gritando com ela...
      Briana e Logan j estavam a caminho, com Wanda, enquanto o xerife ficava  espera da equipe de peritos.
      - Agente firme, querido - pediu ela. - Estou chegando a. Logan colocou Wanda no banco traseiro e sentou no banco do motorista, teclando um nmero no celular.
      - Dylan? - falou ele, enquanto Briana apertava o cinto, ainda falando com Alec.
      - Preciso desligar agora - avisou Alec.
      - Espere! - gritou Briana. Mas a ligao caiu.
      - Pela primeira vez na vida, fico feliz por voc ser um excelente jogador de pquer - continuou Logan. - Alec e Josh esto na lanchonete e est acontecendo 
alguma coisa errada, no sei exatamente o qu. Ser que voc pode impedir que algum os tire da antes de eu chegar com Briana? Obrigado - falou Logan, desligando. 
E, virando-se para Briana: - Voc est pensando o mesmo que eu?
      - Heather - disse ela. - Sim.
      O telefone de Logan tocou aps alguns minutos.
      - Tudo bem - respondeu ele, depois de passar alguns segundos na escuta. - Estou quase chegando.
      - Dylan est com eles? - perguntou Briana.
      - Est - respondeu Logan. - Jim tambm. Os meninos esto bem, Briana. S um pouco abalados e confusos.
      - Vance...?
      - Ele e Heather brigaram feio, aos berros - contou Logan, hesitante. - Vo ficar sob a guarda dos seguranas at que tudo esteja esclarecido. Relaxe um pouco, 
Briana. Voc est bem, os garotos esto bem. Nesse momento, nada mais importa.
      - No importa o que Vance diga - decidiu Briana no vou deixar aquela mulher se aproximar dos meus filhos de novo!
      - Vamos esperar para ouvir todas as verses da histria - racionalizou Logan.
      - Obrigado, embaixador, mas no foi voc quem acabou de insinuar que Heather pode ter sido a pessoa que vandalizou minha casa? Ela pode ter feito isso enquanto 
os meninos estavam na lanchonete, esperando que ela acabasse de jogar.
      Mal Logan estacionou na frente do cassino, Briana saltou do carro e correu para dentro.
      Encontrou Alec e Josh na lanchonete, sentados em um banco, com Dylan, tomando milk-shakes. Os dois estavam plidos e um tanto desarrumados, mas nenhum deles 
estava ferido.
      Briana alcanou a mesa e abriu a boca para falar, mas quase desmaiou.
      - Sente - disse Dylan para ela, ajudando-a.
      - Onde est Jim? - conseguiu perguntar Briana quando o cmodo parou de girar.
      - Na sala da segurana, com o casal feliz - informou Dylan, no instante em que Logan entrava no local.
      Causando algum pesar em Briana, os garotos passaram por ela e correram para os braos dele. Ela o observou apertar os olhos por um breve instante ao abra-los.
      - A gente pode ir para casa agora? - perguntou Alec.
      - Assim que sua me conseguir ficar de p - disse Logan. Briana bebeu o resto da gua que Dylan lhe dera.
      - Preciso falar com Vance antes - explicou ela.
      - Isso pode esperar - falou Logan.
      Eles se encararam por algum tempo, em mudo desafio. Logan saiu vencedor. Briana chegara ao fim da linha, fsica e emocionalmente, e precisava tirar os garotos 
dali. O episdio j fora dramtico o suficiente at ento.
      - Obrigada - falou ela para Dylan. Ele e Logan trocaram olhares.
      - Eu explico depois - disse Logan. Dylan fez que sim com a cabea.
      - Acho que vou voltar ao meu pquer - afirmou ele. - Na ltima rodada, eu estava com timas cartas.
      Dizendo isso, sorriu para os garotos, virou de costas e caminhou, voltando  sala de pquer, nos fundos do cassino.
      
      
      
      
      Alec e Josh estavam muito cansados para contarem o que acontecera. Logan fez ovos mexidos e torrada quando chegaram  casa principal do rancho, enquanto Briana 
aprontava os sacos de dormir para eles na sala de estar.
      Logan esperava na cozinha, bebendo caf e dando a Briana tempo para conversar com os meninos. Quando ela finalmente reapareceu, parecia extremamente cansada.
      - Acho que exagerei - disse ela.
      - Voc  me - respondeu Logan. - Isso  o que as mes fazem, no ?
      Briana se sentou  mesa.
      - Obrigada - falou ela, quando Logan lhe entregou o caf.  - Por ter ligado para Dylan. Por ter me levado at a cidade e...
      - Briana - interrompeu Logan. - Pare. Os olhos dela se encheram de lgrimas.
      - Se tivesse acontecido alguma coisa com eles...
      - Eles esto na sala de estar, Briana. Esto seguros. Se no quiser transform-los em adultos nervosos,  melhor tentar transformar o episdio em uma aventura.
      O rosto estava molhado, mas ela sorria.
      - Voc  to... to... Ele sorriu.
      - O qu?
      - Advogado - completou ela. Ele deu uma risada.
      - Isso pode vir a calhar - brincou Logan. - Se Heather for a invasora, voc vai enfrentar um processo em breve.
      - Pela custdia dos meninos? - falou Briana.
      - Acho melhor falarmos disso amanh - sugeriu Logan. - Voc est acabada agora. No vai conseguir pensar direito.
      Ela concordou.
      Ele se levantou, ajudou-a a se levantar e a acompanhou at o quarto.
      Logan a despiu, primeiro o jeans, depois a camiseta. - Os garotos...
      - Esto dormindo profundamente - lembrou Logan a ela. - E sou eu que resolvo tudo essa noite, lembra?
      - Lembro - aceitou Briana, entrando debaixo das cobertas. Logan se sentou  beira da cama, tirou as botas. Retirou a camisa, se levantou para desabotoar o 
jeans e o deixar jogado no cho.
      Briana respirou fundo.
      - Desculpe. - Logan sorriu. - Eu me esqueci de trazer roupa de baixo quando vim de Las Vegas.
      Ele desligou o abajur e se deitou na cama, ao lado dela.
      Briana estava sentindo frio, ento Logan a trouxe para seus braos.
      - Resolve tudo? - falou Briana. Ele beijou-lhe o topo da cabea.
      - Tudo - confirmou Logan.
      Quando Briana se esquentou, Logan a beijou, abrindo a presilha do suti. Ela envolveu o pescoo dele com os braos.
      Logan desceu at os seios, passou a lngua nos mamilos at que gemesse, dedos tranados no cabelo dele. Ento ele prosseguiu at o umbigo. Ela arqueou as costas 
e pronunciou o nome dele num arquejo.
      - As paredes so grossas - murmurou Logan sobre a pele quente de Briana. - Solte-se, Briana. No h nada de errado em se deixar levar.
      - Ah, meu Deus, Logan, eu... - disse quando ele desceu mais, movimentando a lngua.
      Ela tremia, se contorcia e pressionava a cabea dele, mexendo os quadris.
      Logan a levou ao clmax, continuando o que fazia at que Briana parasse de se agitar com a fora violenta do orgasmo.
      - Isso foi... - Briana arfava. - Isso foi...
      - O qu?
      - Maravilhoso - disse ela.
      - timo - respondeu ele. - Porque estou prestes a recomear tudo.
      ? Logan...
      - Uhmm?
      - No sei se vou conseguir ficar calada dessa vez.
      - Como eu disse, as paredes so grossas.
      - Mas eu...
      Ele recomeou a acarici-la com a lngua. E os firmes troncos das rvores de Montana absorveram os gritos de prazer de Briana, como j haviam feito inmeras 
vezes antes, com inmeros outros amantes.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DEZESSEIS
      
      
      
      
      
      
      Dylan estava de p, enchendo uma xcara de caf recm-passado, quando Logan entrou na cozinha na manh seguinte, bem antes do amanhecer. Ou dormira muito mal 
no sof, ou nem chegara a adormecer.
      Ao ver Logan, Dylan levantou a xcara, propondo um brinde. Os olhos deles estavam atentos e cheios de bom humor, olhando para a camisa mal abotoada e o jeans 
amassado de Logan.
      - Preciso dar comida aos cavalos - disse Logan, falando para Dylan, mas sem olhar para ele. Carregava as botas numa das mos e se sentou  mesa para cal-las.
      - J fiz isso - respondeu Dylan. - Quer caf?
      Logan suspirou. Noite passada, depois de tudo o que ocorrera, parecera uma boa idia dormir com Briana. Agora, ele sabia que ela provavelmente teria vergonha 
de encarar Dylan, para no falar dos filhos.
      - Obrigado - resmungou Logan.
      Dylan deu uma risada e pegou uma xcara para ele. Apontou o lbum em que estava escrito Nossa Famlia.
      - Eu quero tirar cpias dessas fotos - avisou ele. - Acho que Ty tambm gostaria de fazer isso.
      Logan engoliu em seco.
      - H outras. Ainda no consegui ver todas - confessou ele. Dylan virou uma cadeira de costas e se sentou.
      ? O que aconteceu na noite passada, Logan? - perguntou ele, com calma. - No digo entre voc e Briana. O que foi aquela confuso com os meninos? Tentei fazer 
com que eles me contassem, enquanto a gente esperava vocs na lanchonete do cassino, mas eles no falavam, mesmo depois de eu ter comprado milk-shake.
      - Quer primeiro a boa ou m notcia? - perguntou Logan.
      - A m.
      - Voc vai ter que fazer reparos na sua casa. Algum destruiu tudo l na noite passada. Pintou o quarto todo de vermelho. Briana entrou em pnico, por motivos 
bvios, e no conseguia entrar em contato com os meninos. Eles deviam estar no cinema com a madrasta, mas ela os levou para o cassino, em vez disso. E os deixou 
na lanchonete, enquanto jogava cartas. Por enquanto,  tudo que sei.
      Dylan ouviu calado e ficou pensativo. Em seguida, perguntou:
      -  o mesmo maluco que pegou a camisola dela? Logan fez que sim com a cabea, sombrio.
      - Provavelmente.
      - Arrombaram a fechadura ou as janelas?
      - No - disse Logan. - Quem quer que tenha feito isso, tinha a chave da casa.
      Dylan suspirou.
      - Eu no mudei as fechaduras quando Briana se mudou - falou ele. - A gente fechou o contrato meio s pressas, porque ela precisava de um lugar para morar. 
Bom, ningum a quem tenha alugado antes se preocupava muito com segurana. Pode haver milhares de cpias dessas chaves em Stillwater Springs.
      -  confortador ouvir isso - falou Logan.
      - Vou participar de outro filme, em Cheyenne - disse Dylan. - Pea para trocarem as fechaduras e pintarem o quarto, de qualquer cor, menos vermelho. Acerto 
com voc quando voltar. - Ele suspirou de novo. - O fato  que eu derrubaria aquela casa e construiria outra, se Briana no precisasse dela.
      - Ela no vai voltar para l at que o lugar seja seguro.
      - E para onde ela vai?
      - Ela pode ficar aqui.
      - Se ela concordar com isso, no ? - disse Dylan. - E, pelo que conheo de Briana Grant, ela no apenas  orgulhosa, mas tambm devotada de corpo e alma quelas 
crianas. Quer minha opinio? Acho que ela no vai ficar aqui com voc, por mais que queira, por causa de Alec e Josh.
      - Obrigado pela informao - resmungou Logan, irritado, porque Dylan estava certo. Briana preferiria correr o risco de voltar para a casa de Dylan e topar 
cara a cara com o molestador, a dar o que ela considerava um pssimo exemplo moral para os meninos.
      Por outro lado, se ela estava correndo perigo na outra casa, Alec e Josh tambm estavam. E isso podia fazer com que ela optasse pela mudana.
      - Voc podia tirar a moblia do depsito e arrumar o antigo quarto de Tyler para ela - opinou Dylan. - Arrumaria camas para os garotos e os deixaria no meu. 
Isso a tranqilizaria no que diz respeito a Alec e Josh, mas ainda assim as pessoas falariam a esse respeito. Voc sabe como as conversas se espalham rapidamente 
em Stillwater Springs.
      - Eu no me preocupo nem um pouco com o que vo falar.
      - Mas Briana, sim.
      A porta que dava para a sala de estar se abriu e Briana entrou.
      - Briana "sim"? Do que  que vocs esto falando? - quis saber ela, furiosa.
      - No vou me meter - disse Dylan e saiu de casa.
      - Sente-se - falou Logan para Briana, que se sentou  mesa.
      - Ele sabe que a gente dormiu junto - constatou Briana.
      - Ele sabe que voc passou a noite aqui - racionalizou Logan. -  diferente. Alm disso, no somos crianas, Briana.
      Ela colocou os cotovelos sobre a mesa e esfregou o rosto com as mos.
      - O que vou fazer? - perguntou Briana.
      - Mudar-se para c, quem sabe?
      - Pode dizer que sou antiquada, mas no vou morar com um homem com quem no sou... - Ela perdeu o flego. - Casada - concluiu.
      ? Na verdade, Dylan sugeriu algo interessante, pela primeira vez na vida. A gente colocaria camas no quarto dele e de Tyler. Voc no pode estar pensando em 
voltar para...
      - Todo mundo na cidade vai saber. A noticia vai se espalhar em um dia. E ningum iria acreditar, nem por um minuto, que ns estaramos dormindo em quartos 
separados.
      - Eu no disse que a sugesto era perfeita, Briana. Voc se preocupa tanto assim com fofoca? Mais do que com a prpria segurana e a de Alec e Josh?
      - Conheo muita gente legal que mora junto, Logan. Sei que os tempos mudaram. Mas no vou morar debaixo do mesmo teto que voc, a no ser...
      - A no ser que a gente se case?
      - At parece! A gente se conhece h uma semana, Logan. Nem sei por que est falando disso...  uma loucura completa!
      -  mesmo? - perguntou Logan. Briana olhou para ele, muda.
      - A gente pode se casar dentro de trs dias - disse ele. - Veja a coisa como um contrato de trabalho. Voc consegue o que quer, segurana e decncia, e eu 
tambm. Mulher e crianas.
      - Voc est falando srio!
      Meu Deus, ele estava mesmo falando srio. Briana sorriu ao perceber isso.
      - Coloco dinheiro na poupana para Alec e Josh e, em vez de fazermos um acordo pr-nupcial, eu passo alguns milhes para a sua conta imediatamente.
      - Alguns milhes? - Ela olhou ao redor da cozinha, com seu papel de parede descascado, prateleiras velhas e cho em runa.
      - Eu esqueci de dizer que sou rico? - perguntou Logan.
      - Sim! - falou Briana. - Voc deixou escapar esse pequeno detalhe!
      - O que voc tem a perder, Briana? Ela estava boquiaberta:
      - O que voc ganha com isso?
      - Mulher e filhos.
      - Alec e Josh so filhos de Vance - lembrou Briana. - Por mais que no quisesse que fossem, no h como lutar contra a realidade.
      - Filhos nossos - props Logan. - Ao menos dois. O primeiro, dentro de um ano.
      Os olhos verdes dela quase saltaram das rbitas.
      - Voc est louco se acha que vou ter filhos com voc e abandon-los, caso as coisas no dem certo - avisou Briana. - Eu ficaria com as crianas, no com 
o dinheiro.
      - Esse  um dos motivos por que acho que posso am-la - disse Logan. - No seramos as primeiras pessoas que se casam por questes prticas e acabam se apaixonando.
      - Essa  a coisa mais louca que j ouvi em minha...
      Logan cruzou os braos, ergueu um sobrancelha: - Pense no assunto - falou ele. Depois se levantou e se dirigiu  porta dos fundos. Talvez Dylan ainda estivesse 
por ali. Fazia muito tempo que os dois no disputavam corridas de cavalo, gritando como dois ndios loucos. Muito, muito tempo.
      
      
      
      - Aonde Logan foi? - perguntou Alec, espiando pelo vo da porta que dava para a sala de estar, ainda piscando, sonolento. Josh apareceu atrs dele.
      - Acho que foi dar uma volta de cavalo com Dylan - respondeu Briana com cuidado. A verdade era que ela olhara pela janela e vira os dois cavalgando ao nascer 
do sol.
      - Voc est com raiva de Heather? - perguntou Alec, sentando  mesa.
      - No sei se raiva  a palavra certa. O que aconteceu na noite passada?
      Josh se sentou no meio dos trs cachorros, fazendo carinho neles.
      - Algum ligou para Heather quando a gente estava no trailer, depois que papai voltou para o trabalho, para fazer hora extra - disse ele. - Ela comeou a chorar.
      - A gente no sabia o que fazer - falou Alec, solene. Briana parou de preparar o caf da manh.
      - Claro que no sabiam - afirmou ela, gentilmente, indo at Alec e tocando o rosto dele, e se virando ao mesmo tempo para Josh: - Voc sabe por que ela estava 
chorando?
      - Ela disse que a me estava muito doente - falou Josh. - A gente ia almoar no cassino, antes de ir para o cinema. Heather disse que precisava jogar cartas 
e saiu. Mas, a, trouxe o telefone de volta, muito braba, chorando de novo, e disse que papai tinha ligado e que a gente estava encrencado. Eu liguei para papai 
e ele disse que estava vindo buscar a gente, que a gente no devia contar a voc o que tinha acontecido...
      - Mas voc contou - acusou Alec.        
      - Pare - disse Briana. - Josh fez a coisa certa.
      - Heather s queria ganhar algum dinheiro para poder ajudar a me - continuou Alec. - Foi o que ela disse. Ela no  m pessoa, me. Estava assustada, s isso.
      - Voc vai nos proibir de ver nosso pai? - perguntou Josh.
      - No - disse Briana.
      - Vamos ter que voltar para casa? - quis saber Alec.
      - Acho que iremos ficar aqui alguns dias - disse Briana, tentando se concentrar no preparo do caf da manh, para no ficar louca.
      - O que aconteceu l, me?
      Briana no conseguia se lembrar se havia contado a eles sobre a entrada do estranho.
      - Quem disse que aconteceu alguma coisa? - perguntou ela.
      -  o que parece - disse Alec, encarando-a. Briana suspirou.
      - Algum fez uma baguna por l - falou ela.
      - Quem?
      - No sei. - Briana suspeitara de Heather, mas agora que ouvira a histria sobre a me dela, no tinha certeza. Talvez tenha sido Brett Turlow. Se fosse ele, 
o xerife Book saberia.
      - Essa pessoa queria machucar a gente? - perguntou Alec. Ela no podia deixar que eles pensassem isso, muito embora, provavelmente, fosse verdade.
      - No - mentiu, odiando ter que fazer aquilo. - Acho que foi algum maluco.
      Alec tremeu.
      - Quando Logan est por perto, ningum pode nos machucar. Nem um urso.
      No era bem verdade, mas Josh e Alec eram novos demais para entender. Que pensassem assim, ela no desfaria a iluso.
      - Preciso fazer algumas coisas hoje - avisou Briana, pondo um prato para cada um sobre a mesa. - Logan pode estar sem tempo para cuidar de vocs. Se estiver, 
vocs vo ter que passar algumas horas na creche, no centro da cidade.
      A frase fez brotar uma srie de reclamaes.
      - Me, a creche s tem criancinhas! - falou Alec.
      - , bebs usando fralda - concordou Josh. Briana revirou os olhos.
      - A vida  dura - encerrou ela. Tinha esperanas de que eles nunca viessem a saber o quanto. Logan falara srio, quando mencionara abrir uma poupana para 
Alec e Josh?
      Depois de lavar os pratos e fazer com que os garotos trocassem de roupa, Briana escreveu um bilhete para Logan.
      Os funcionrios da creche concordaram que os meninos podiam ficar. De l, Briana seguiu imediatamente para o trailer, percebendo de cara, ao chegar, a ausncia 
da van.
      Heather abriu a porta lentamente, vestindo um roupo que, assim como o trailer, j vira dias melhores. Heather ainda estava com a maquiagem da noite anterior, 
ento havia marcas negras sob os olhos dela e batom rachado nos lbios.
      - Vance no est - falou ela, meio grogue.
      - No vim para falar com Vance - respondeu Briana. - Posso entrar?
      Heather soltou um suspiro longo e barulhento.
      - Claro, por que no? - perguntou ela, abrindo passagem.
      O interior do trailer estava notavelmente limpo. Havia bibels baratos por toda parte. Uma encardida coberta de croch cobria o encosto do sof.
      - Ainda no passei caf - disse Heather.
      - No quero caf - respondeu Briana.
      Heather indicou uma poltrona preta, remendada aqui e ali com fita isolante. Era provavelmente o lugar onde Vance se sentava para ver TV. 
      Briana sentou na ponta do assento e entrelaou os dedos, para evitar que as mos tremessem.
      - Os garotos me disseram que voc recebeu ms notcias sobre sua me ontem  noite - comeou ela.
      Heather sentou no sof. Suas sandlias tinham saltos altos de plstico e plumas de um prpura gasto ondulavam sobre o peito do p. Para os padres de Heather, 
aquilo provavelmente representava glamour.
      -  - falou Heather. - Fiquei muito chateada. No estou acostumada a ter crianas por perto.
      No estou acostumada a ter crianas por perto. Briana manteve a calma.
      - Considero a segurana e o bem-estar de meus filhos assunto muito srio, Heather - afirmou ela. - Por que voc resolveu ir ao cassino?
      Heather franziu o rosto.
      - Achei que voc estaria l - respondeu ela.
      A afirmao parecia mais sensata do que Briana estava disposta a admitir e soou verdadeira.
      - Para se livrar deles, portanto?
      - No foi bem isso - insistiu Heather, fungando e erguendo o queixo um pouco. Aquela mulher passara por muitos sacrifcios na vida, percebeu Briana, e muitos 
haviam sido duros. - Eu gosto de Alec e Josh. Gosto mesmo. E Vance quer muito endireitar as coisas com eles. - Lgrimas escorreram dos olhos, tornando ainda pior 
o estado da maquiagem. - Depois daquela confuso no cassino na noite passada, ele provavelmente vai ser demitido. Ento, vai querer se mudar, e no consigo convenc-lo 
de que a gente precisa ter um filho nosso...
      - Voc realmente acha que esto preparados para isso? - perguntou Briana gentilmente. - Para ter um filho, digo. - O pensamento de que uma criana inocente 
ficasse  merc daquela instvel mulher, que ainda era uma menina, a deixava arrepiada.
      Heather pareceu no ter escutado. Estava abraando o prprio corpo e olhando na direo da parede do trailer, pensando em algo muito, muito distante.
      - J vou me considerar com sorte se ele quiser me levar quando for embora daqui - murmurou Heather.
      - Tudo isso  assunto seu - disse Briana. - Alec e Josh so o meu. Vance no vai ficar contente, mas no posso evitar. At que as coisas se acalmem um pouco, 
Heather, no vou poder deixar meus filhos com vocs de novo.
      - Voc no pode impedir Vance de ver os prprios filhos!
      - No, provavelmente no posso, Mas posso arrumar um advogado e restringir as visitas.
      - Voc no est entendendo. Vance j est furioso comigo. Quando souber que...
      Briana ficou de p.
      - Acho que voc devia ter pensado nisso antes de deixar Alec e Josh no cassino para ir jogar cartas.
      - Eu pensava que voc estava l! - Heather se levantara, seguindo Briana at a porta.
      - Voc podia ter me ligado e no fez.
      - Mas...
      Briana abriu a porta e saiu.
      - A que horas Vance sai do trabalho? - perguntou ela.
      - Ele no est no trabalho - explodiu Heather. - Ele est com o xerife, tentando evitar nossa priso por causa da briga no cassino.
      - Obrigada - disse Briana.
      - Espere!
      Briana simplesmente voltou para a caminhonete, ligou o motor e foi embora.
      A van de Vance estava estacionada do lado de fora do xerifado. Ele estava saindo pela porta da frente e ela correu at ele.
      - Eles retiraram as acusaes? - perguntou Briana. Vance fez que sim com a cabea.
      - A gente precisa conversar - disse por fim.
      - Voc  que me diz isso?
      Eles foram at o Birdhouse Caf em carros separados.
      - Heather tem problemas mentais, Vance? - perguntou Briana quando eles j estava dentro do lugar. - Ela  jogadora compulsiva? Alcolatra?
      - No. Ela s no  muito inteligente,
      - Ela atropelou Alec. E deixou nossas crianas sozinhas no cassino.
      - Voc faz isso o tempo todo - desafiou-a Vance.
      - Eu os fico monitorando. Os outros funcionrios tambm. No  a mesma coisa, voc sabe disso, Vance, Heather  claramente instvel e, at que as coisas se 
acalmem, no quero que Alec e Josh fiquem sozinhos com ela.
      - Voc acha que vou deixar que ela v sozinha com os garotos a algum lugar depois do que aconteceu ontem  noite?
      - No sei, Vance. Vai?
      - No.
      - E devo acreditar nisso e fazer nossos filhos correrem o risco por que motivo, exatamente?
      - Porque estou tentando, puxa vida. Tentado o mais que posso ser um bom pai.
      - Os garotos amam voc - disse Briana. - No desista to cedo.
      - Meu patro vai ouvir falar do que aconteceu no cassino.
      - Talvez ele o perdoe - sups ela. E, mudando de tom: - No quero me intrometer nem nada, mas h outra coisa. Sei que Heather quer ter um filho. De acordo 
com os garotos, voc disse que j tem trabalho demais para cri-los.
      Vance parecia completamente sem graa agora.
      - Achei que eles no tinham escutado.
      - No foi uma coisa agradvel, Vance.
      Ele ficou nervoso.
      - Voc acabou? - perguntou.
      - Quase - falou Briana. - No quero que as coisas cheguem a esse ponto, Vance, mas, se voc no tomar conta de Alec e Josh pessoalmente quando estiverem com 
vocs, vou arranjar um advogado.
      - O que dizem por a  que voc j est dormindo com um.
      Briana abanou a cabea. Era impossvel manter segredos em cidades pequenas.
      Recusando-se a comentar, ela simplesmente foi embora. Dissera o que precisava ser dito e s o futuro diria se conseguira mesmo se fazer entender.
      
      
      
      Depois da cavalgada, Logan teve muito em que pensar e muito tempo para faz-lo.
      Dylan fora a Cheyenne, onde participaria de um filme sobre o rodeio. O dinheiro era bom, mas Dylan estava pensando em se fixar em algum canto, tentando com 
Sharlene, sua ex-namorada, encontrar uma forma de passar mais tempo com a filhinha.
      Ele tinha uma foto de Bonnie na carteira. Ela era parecidssima com o pai.
      No resolvera tudo o que precisava resolver com Dylan, mas fora bom cavalgar de novo, como nos velhos tempos. Conversar um pouco.
      Muitas coisas Dylan no lhe contara, claro.
      E muitas, ele no contara a Dylan.
      Mas haviam iniciado.
      Se a mesma coisa pudesse acontecer com Tyler?
      Depois de ler o bilhete deixado por Briana - dizendo que levaria os meninos para a creche para poder conversar com Vance e Heather - , ele pensou nas fotos 
jogadas sobre o cho da casa dela.
      Ligou para o xerife, perguntando se podia ir  cena do crime. Ele disse que a policia estadual terminara o trabalho na casa e, ainda, que no pudera deter 
Brett por falta de provas.
      Logan foi at a casa e pegou as fotos. Comeou a digitaliz-las no computador. Fez o mesmo com as fotografias dos Creed, com a esperana de que, ao entregar 
CD's com elas a Tyler e Dylan, pudesse abrir caminho para voltassem a ser irmos. Irmos de verdade.
      Briana chegou justamente quando ele estava pensando em jantar. Ele ficou muito alegre ao v-la. - Oi!
      Alec e Josh reclamavam.
      - A gente teve que ir para a creche - disse Josh.
      - Como bebs - acrescentou Alec. Ento, os dois correram para brincar com os cachorros.
      - Voc estava mesmo falando srio hoje de manh? Sobre o casamento? - perguntou Briana, quando os dois ficaram sozinhos.
      - Claro ? afirmou ele.
      - Quando a gente vai assinar os papis?
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DEZESSETE
      
      
      
      
      
      
      Logan ps a sela no malhado para Briana. Alec e Josh os observavam da cerca do curral.
      - Perdeu a prtica? - perguntou Logan, ao v-la hesitante.
      - No me esqueci como se anda de cavalo - falou ela, erguendo o queixo. - S no me sinto bem deixando os garotos aqui sozinhos.
      - A gente vai ficar bem, me - gritou Alec. Logan montou o cavalo cinza e eles partiram.
      - Voc monta bem - disse Briana.
      - Jim Cavalo Selvagem me ensinou. Quando a gente tinha sete anos.
      A cavalgada estava bastante agradvel. Quando saam do pomar e o cemitrio estava  vista, no entanto, ouviram um tiro, vindo de algum lugar mais  frente.
      - Provavelmente,  s um caador - disse Logan. - Volte para casa, Briana.
      - Vamos voltar para casa ns dois - respondeu ela. Ouviram outro tiro - um som abafado, logo seguido por um segundo e um terceiro.
      Logan cavalgou adiante, com o rifle a tiracolo.
      Foi ento que viu Brett Turlow, atravs das rvores que orlavam o cemitrio. Estava prximo do tmulo de Jake e apontava uma pistola para o cho.
      O bobalho estava tentando atirar em um morto.
      - Ligue para o xerife - falou Logan, entregando o celular para Briana. - E suma daqui antes que ele a veja.
      Brett levantou os olhos, hesitou e, depois, correu na direo deles, ainda com a arma em punho.
      - V - insistiu Logan. - Vou ficar bem. V e ligue para o xerife, assim que estiver a salvo.
      Os olhos dela se encheram de lgrimas.
      - Logan...
      Brett estava mais perto agora. Ele apontou a arma.
      - Abaixe a arma, Brett - falou Logan, aliviado, ao ver que Briana se afastava.
      Brett o ignorou.
      - Eu no matei seu pai - afirmou ele. - Mas queria ter matado, porque, pelo menos, no estaria pagando todos esses anos por algo que eu no fiz.
      - Voc est bbado, Brett.
      Brett puxou o gatilho. A arma dele falhou ou ele se esqueceu de recarreg-la depois de disparar sobre o tmulo de Jake.
      Logan saltou do cavalo e foi at Turlow. A briga foi breve, mas Turlow era mais forte do que parecia ser, e resistiu.
      Por fim, Logan tomou a arma dele e a atirou longe. Derrubou o homem no cho e ficou sentado sobre a barriga dele.
      - Tenha calma - disse Logan. - No vou machucar voc, Brett.
      Briana voltou naquele instante. Logan supusera que ela no iria at o rancho, e ficou meio orgulhoso, meio irritado.
      - O xerife est a caminho - informou ela. E depois, perguntou: - Voc invadiu minha casa, Brett?
      - Responda - falou Logan.
      - No fiz por maldade. S queria segurar aquela camisola em minhas mos. Eu a pus na cama para poder imaginar voc dentro dela, deitada ali, me desejando.
      A bile chegou at a garganta de Logan, deixando um gosto amargo na lngua.
      - O xerife Book disse que seu carro no saiu do estacionamento da Skiwie's naquela noite.
      - Eu dirigi o carro de nossa vizinha - riu Turlow. - Ela sempre deixa a chave na ignio. No sentiu falta dele.
      Logan tentou no perder a calma.
      - O spray vermelho foi um lance delicado - disse ele.
      - No sei de spray nenhum!
      Logan e Briana se entreolharam.
      - Voc no invadiu minha casa duas vezes? - perguntou ela.
      Brett abanou a cabea.
      - Por que  voc estava atirando no tmulo de Jake daquele jeito? - continuou Logan.
      - Ele vem me perseguindo desde o dia em que morreu! - respondeu Brett. - No agento mais! Est me ouvindo, Jake? No agento mais!
      Logan se levantou, olhando penalizado para Brett Turlow.
      - Vou voltar para sua casa, esperar pelo xerife e ver se os garotos esto bem. Devem ter ouvido os tiros e estar morrendo de medo - avisou Briana.
      Logan concordou. Depois que ela se foi, ele ouviu uma sirene na distncia.
      - Eu sei de coisas - falou Turlow de repente. - Sei, por exemplo, que o xerife Book dormiu com minha irm.
      - Isso no  novidade - respondeu Logan. A histria era conhecida na cidade.
      Minutos depois, o xerife Book apareceu, vindo do pomar, a p.
      - Voc  um desgraado, Brett - impacientou-se ele. Depois, se virou para Logan. -  melhor voc ir para casa. Briana est l, sendo contida pelo meu assistente, 
Jenkins. Ela est desesperada, dizendo que algum levou os filhos dela.
      Logan montou no cavalo e disparou. Quando chegou  casa principal do rancho, viu Jenkins e Briana. Ele afastou o assistente, empurrando-o com tanta fora que 
ele rolou pelo cho. Uma vez livre, Briana seguiu correndo para a caminhonete.
      Logan a conseguiu alcanar e segurar pelo brao.
      - A gente vai encontrar os meninos - prometeu ele.
      Jenkins insistia que eles no podiam sair at a chegada do xerife. Mas Logan assumiu o volante do carro e Briana se sentou no banco do carona. Os cachorros 
no estavam por perto. Teriam de se virar sozinhos, ao menos por enquanto.
      Logan arrancou com o carro e logo ganharam a estrada.
      
      
      
      Briana estava nauseada. As palmas das mos estavam suadas, por dentro, sentia-se histrica e desamparada. Logan.
      Graas a Deus Logan estava com ela. De repente, o celular de Briana tocou. - Al?Josh?Alec?
      - Me - disse Josh, sussurrando. - Estou com medo. Ela sentiu a garganta se fechar.
      - Onde vocs esto? - perguntou Briana.
      - Na... na van - respondeu Josh, comeando a chorar. - Est escuro aqui, me, e Heather... Heather bateu em Alec quando a gente parou no posto de gasolina, 
porque ele gritou, pedindo ajuda, e agora no consigo acordar ele...
      Tenha calma, falou o anjo da guarda de Briana para ela.
      - O pai de vocs est a? - perguntou Briana.
      - No - sussurrou Josh. - Ela est voltando, me. Preciso desligar.
      - Josh - apressou-se em dizer Briana ? coloque o celular para vibrar.
      - J fiz isso... Tchau...
      - Ela no deve estar longe - falou Logan. - A operadora est entrando em contato com o xerife Book pelo rdio. Ela disse que a patrulha estadual est bloqueando 
as duas estradas que saem da cidade.
      - Alec est machucado...
      Logan estendeu o brao e a acarinhou.
      - Ligue para Vance - lembrou ele. - Ele pode ter alguma idia de para onde Heather est indo.
      Briana fez o que Logan sugeriu. Vance atendeu no segundo toque.
      - Que foi agora? - perguntou ele. Briana explicou o que estava acontecendo.
      - Voc tem alguma idia de para onde ela pode est indo, Vance? - perguntou por fim. - Porque, se sabe,  melhor me dizer agora!
      - Vou pegar um carro emprestado de algum colega aqui do trabalho e ir atrs dela. Relaxe.
      - No! Eu no vou relaxar! Aonde ela poderia ter ido, Vance?
      - Se tivesse de dizer um lugar, diria o cassino. Ela deve querer apostar o que resta do dinheiro para as compras de supermercado...
      - Para o cassino! ? gritou Briana imediatamente, to alto que Logan piscou.
      Ela desligou o telefone e, na mesma hora, ligou para Jim. Mas a chamada caiu na caixa postal.
      Tremendo de desespero e com um princpio de pnico, Briana ligou para o telefone do cassino e pediu para a transferirem para a sala da segurana.
      quela altura, disparavam pela estrada, com o xerife Book e o assistente Jenkins logo atrs, de sirene ligada.
      Briana explicou a situao para um encarregado da segurana do cassino e desligou, esperando uma ligao de Josh.
      Mas Josh no ligava.
      A combalida van estava estacionada na frente do cassino, numa rea reservada para pessoas com deficincias. Logan parou a caminhonete e os dois carros de polcia 
pararam a seu lado. Briana correu na direo da van.
      De algum modo, Logan e Vance chegaram l primeiro que ela.
      Alec e Josh estavam deitados no cho do carro, piscando os olhos no escuro.
      Vance tirou Josh e o garoto se abraou a ele, repetindo "Papai, papai", sem parar. Logan abriu caminho e Alec correu para Briana.
      - Ela... ela ia rou-roubar a gente - murmurou Alec. - Ela disse que a gente nunca mais ia ver voc, papai e Logan de novo...
      Vance deixou Josh no cho.
      - Sinto muito, Briana... Eu nunca imaginei que ela... Briana o silenciou, lanando um olhar por sobre a cabea de Alec.
      Uma confuso  porta do cassino chamou a ateno de todos.
      Briana, Logan, Vance e os garotos se viraram a tempo de ver Heather ser trazida para fora pelo xerife, que a segurava por um brao, e Jenkins, que a segurava 
pelo outro. Estavam escoltados por seguranas do cassino, e Heather se debatia e gritava, tentando se soltar inutilmente.
      Alec se agarrou firme em Briana.
      - No deixe que ela pegue a gente, me - pediu ele. - No deixe...
      Vance correu para Heather como um touro bravo. Logan foi atrs dele e o segurou, antes que ele se lanasse contra Heather, em fria.
      Vance tentou se soltar, mas Logan era mais forte e o agarrou pelas costas, cingindo-lhe os braos.
      - Voc roubou meus filhos!
      Logan disse alguma coisa para ele. Vance se endireitou, depois abanou a cabea. Logan o soltou.
      O assistente Jenkins colocou Heather no banco traseiro do carro de patrulha. O xerife Book se aproximou.
      - Vocs esto bem, meninos? - perguntou ele a Alec e Josh.
      Alec fez que sim com a cabea. Josh o imitou.
      Nenhum dos dois parecia ter segurana na resposta.
      - Por favor, leve essas crianas para a clnica, s por precauo - disse o xerife. - Depois, quero que todos voc sigam para o xerifado, para que possamos 
esclarecer as coisas.
      - Preciso devolver o carro ao meu amigo - disse Vance, quando os carros de patrulha foram embora.
      Logan, para surpresa de Briana, pousou a mo no ombro de Vance.
      - Vou deixar Briana e os garotos na clnica, depois pego voc na oficina - disse ele.
      Vance agradeceu com um balanar de cabea, lanou um olhar humilde para Briana, depois foi at Alec e Josh e os abraou.
      
      
      
      Os garotos fizeram os exames na clnica. Depois, os adultos foram conversar com o xerife. Quando voltaram ao rancho, horas haviam se passado.
      Logan levou um adormecido Alec para dentro de casa, Josh e Briana o seguiram. Foram recebidos pelos latidos dos trs ces.
      Logan deitou Alec no colcho de ar e depois saiu para ir dar comida aos cavalos. Briana estava ajudando Josh a tirar a roupa para ir dormir.
      Enquanto dava feno aos animais, ele pensava.
      Quando se apaixonara por Briana?
      A primeira vista, naquele dia, no cemitrio?
      Ao fazer amor com ela no sof?
      No sabia, no importava.
      Queria contar a ela o que sentia, mas ela passara por muita coisa naquele dia.
      J concordara em casar com ele e, at ento, aquilo tinha sido suficiente para Logan. Agora, no era mais.
      Os garotos estavam dormindo quando ele tornou a entrar em casa. Briana estava no banho.
      Logan no tinha sono. Foi at o sto, pegou os recipientes com os lbuns de fotos e os trouxe at a mesa da cozinha.
      Briana entrou usando uma das camisetas dele. O cabelo molhado do banho e brilhando como fogo ao redor do rosto.
      - Est com fome? - perguntou ela a Logan.
      - Um pouco - admitiu ele, mas as palavras saram graves e roucas.
      Eu amo voc, disse ele em pensamento.
      - Ovos mexidos? - perguntou Briana. Ele sorriu, concordando com a cabea.
      - Seria timo - falou Logan.
      Enquanto ela preparava a comida, ele voltou a olhar as fotos.
      - O que voc acha que vai acontecer com Heather? - perguntou Briana.
      - No sei - falou ele.
      - Vance est prestando queixa contra ela. Por seqestro. Logan estava olhando para as fotos que tirara de um envelope, lendo as palavras escritas nele. A letra 
era de Jake.
      Para meus filhos.
      - Isso  bom - falou Logan. Briana se sentou  mesa. Sorriu.
      - Logan Creed, voc no est me escutando. Ele piscou os olhos.
      Ela percebeu o envelope. Ficou em silncio.
      Com as mos ligeiramente trmulas, Logan abriu a carta que estava junto das fotos.
      Se voc chegou at aqui, escrevera Jake, est preparado para ler essa sofrvel missiva de seu, dentro em breve, falecido pai.
      Um arrepio tomou o corpo inteiro de Logan. Briana aproximou a cadeira e envolveu os ombros dele com o brao.
      Eu tentei, continuava a carta, mas jamais consegui acertar na vida. Era muito difcil para mim. Ento, hoje, pretendo ir at a montanha, como sempre, e danificar 
uma corrente de prender toras de madeira...
      A cozinha girava ao redor de Logan.
      - Ele se matou - falou Logan. - Fez com que parecesse um acidente para que a gente ficasse com o dinheiro do seguro.
      - O qu?! - perguntou Briana.
      - Meu pai - respondeu ele, depois de muito tempo. Endireitou o corpo. - Meu pai.
      Briana estava confusa. Logan lhe mostrou a carta. Enquanto ela lia, s lgrimas, Logan sacou o celular. Ligou para Dylan.
      - Oi, Logan - disse Dylan, alegre. - Que foi? Cimarron escapou? Eu sabia que aquela cerca...
      - No  isso - interrompeu Logan.
      - O que foi, ento?
      - Dylan...  sobre o... acidente sofrido por nosso pai.
      Ele escutou Dylan puxar o ar para os pulmes. E no conseguiu ir adiante.
      Briana segurou o rosto dele na concha das mos, olhando no fundo dos seus olhos.
      - Logan? - dizia Dylan ao telefone, sua voz parecia vir de outro planeta, no apenas de outro estado.
      Logan fez que sim com a cabea para Briana. Ela pegou o telefone.
      - Dylan?  Briana. Voc precisa vir para c. O mais rpido possvel.
      
      
      
      
      
      
      
    CAPTULO DEZOITO
      
      
      
      
      
      O xerife Book aceitou a xcara de caf que Briana lhe ofereceu na cozinha de Logan, na manh seguinte, com um acenar de cabea. Logan, que estivera na frente 
do computador desde que entrara, aps dar comida aos cavalos, se juntou a eles.
      Ele imediatamente mostrou a carta de Jake para o xerife. Book se sentou para ler.
      - J liguei para a empresa de seguros - disse Logan. - Vou reembolsar o dinheiro.
      O xerife assobiou, deixando a carta de lado. Depois de um tempo, disse:
      - Vim para contar a vocs em que p esto as coisas com Brett Turlow e aquela mulher, Heather. Com certeza no esperava por isso. Sinto muito, Logan. Pobre 
Jake, parecia que nunca ia se ajustar ao mundo. Voc j contou isso para Dylan e Tyler?
      Logan abanou a cabea.
      - Dylan est a caminho. Tyler ainda no retorna minhas ligaes.
      - Vai ser difcil para Ty - falou Book. Fora ele quem encontrara Angela morta num quarto de hotel e devia estar se lembrando disso agora.
      Um msculo tremeu no queixo de Logan. Em seus olhos brilhantes era possvel ver cansao e estupor.
      - Ao menos Brett Turlow est livre do peso - falou Logan. - Da morte de Jake, pelo menos.
      - Freida disse que vai coloc-lo em um centro de reabilitao se Briana no prestar queixa por invaso de domicilio. Ela j retirou a candidatura. Agora s 
Jim Cavalo Selvagem e Mike Danvers esto concorrendo ao meu cargo.
      - Podemos suspender a acusao e ver se Turlow segue o tratamento at o fim? - perguntou Briana.
      - Enquanto eu for xerife, sim. Depois disso, vai depender de Mike ou Jim.
      - E Heather? - quis saber Logan. Book suspirou.
      - Bom, a  outra histria. Ela tem ficha suja: golpes, pequenos roubos e coisas do tipo. J foi presa por porte de drogas. Est sendo procurada em Nevada. 
Parece que no se separou do marido anterior antes de se casar com seu ex - falou ele para Briana.
      Briana fechou os olhos por um instante, aliviada, mas chateada tambm. Pobre Vance. Ele estava mesmo tentando recomear a vida, criar razes, estabelecer uma 
relao com os garotos.
      O que faria agora? Ia se sentir humilhado, assim que comeassem a circular fofocas sobre Heather. Seu histrico indicava que iria simplesmente abandonar a 
cidade, se engajar em um rodeio, e em outro, e mais outro.
      Alec e Josh ficariam arrasados.
      Quando o xerife foi embora, Logan surpreendeu Briana ao dizer:
      -  melhor voc ir falar com Vance. Eu tomo conta de Alec e Josh.
      Briana engoliu em seco, concordou com a cabea. Pegou a bolsa e as chaves da caminhonete de Dylan.
      Encontrou Vance no trailer, depois de ir at a oficina e ficar sabendo que ele no trabalharia naquele dia. A porta estava aberta. Pela fresta, Briana viu 
o ex-marido jogando coisas numa mala.
      Ela bateu na porta e ficou esperando no alpendre.
      - Voc deve estar feliz agora - disse ele, deixando-a entrar. - Est rindo por ltimo.
      - Ningum est rindo, Vance - respondeu Briana. - Ento  isso? Voc simplesmente vai embora?
      - No  o que voc quer?
      - No se trata do que eu quero, Vance. Trata-se dos garotos. Voc  o pai deles, e eles precisam de voc.
      -  melhor eu seguir minha vida - concluiu Vance. - Voc vai se casar com Logan Creed, no vai? Ele vai ser um bom padrasto...
      - Ser que voc pode, pelo menos uma vez na vida, parar de pensar em si mesmo? O que  mais importante: seu orgulho masculino ou Alec e Josh?
      - Depois de tudo o que aconteceu, como posso encarar nossos filhos, Briana?
      - Como um pai - falou ela.
      - Voc ainda me deixaria v-los?
      - Contanto que voc no faa nenhuma loucura, como se reconciliar com Heather.
      Vance soltou uma gargalhada amarga e crua.
      - Foi a nica coisa boa que aconteceu, no final das contas: eu no ter me casado com aquela luntica. - Ele ergueu uma sobrancelha. - No seria melhor para 
voc se eu fosse embora?
      - Seria mais fcil - admitiu Briana, franca. - Para mim. Mas a gente est falando dos meninos. No posso impedi-lo voc de ir embora - continuou Briana. - 
Mas, ao menos dessa vez, se despea.
      - Imagino que eles estejam na casa de Creed - disse Vance, spero, depois de muito tempo.
      Briana mordeu o lbio inferior e fez que sim com a cabea.
      - Ento vou l falar com eles - decidiu Vance. - Ver se eles querem que eu fique.
      - Eles querem que voc fique - garantiu Briana. - Pergunte a eles e vai ver.
      Vance se aproximou dela, averiguando se estava com a carteira no bolso, pegando as chaves em cima da televiso. Os gestos eram familiares para Briana, resqucios 
de um casamento que morrera muito antes de se assinarem os papis de divrcio.
      - Voc ama esse tal de Logan Creed, Briana? - resmungou Vance. - Ama de verdade?
      Sim, Briana percebeu, naquele momento, que amava Logan. Mas Vance certamente no seria o primeiro a escutar a confisso. Logan, sim. Quando chegasse o momento.
      - A gente se v no rancho ? disse ela, se virando para sair.
      
      
      
      
      Dylan parecia fora de si.
      - Isso  mesmo importante, Logan? - perguntou ele, ao celular. - Surgiu um trabalho e...
      -  sobre Jake - afirmou Logan.
      - Algum finalmente provou que Brett Turlow  o culpado?
      - No. No foi ele.
      - Ento diga logo, Logan - insistiu Dylan.
      - S posso falar pessoalmente.
      - Isso no  mais uma armadilha sua para me fazer voltar para casa, ?
      - Bem - falou Logan ? eu queria que voc viesse para o casamento.
      - Casamento? Voc e Briana vo se casar?
      - Sim.
      - No  meio precipitado...? Voc j errou duas vezes.
      - Dessa vez  diferente.
      -  o que todos dizem - falou Dylan. - "Dessa vez  diferente." Eu mesmo j falei isso.
      - Assim que a papelada ficar pronta, vamos nos casar. Daqui a trs ou quatro dias - informou Logan.
      - Jim vai ser seu padrinho, ou a vaga est aberta?
      - A vaga est aberta. Se voc chegar a tempo, claro. - Depois de ficar um tempo calado, Logan prosseguiu: - Voc me faria um favor?
      - O qu?
      - Fale com Tyler, se puder. Diga que preciso conversar com ele, em particular.
      - Ele no est falando comigo, j lhe disse. Espere um minuto... Droga...
      - Faa isso, Dylan.
      Dylan desligou sem se despedir.
      Ele estava estranho. O que estava acontecendo? Estaria envolvido com alguma mulher e no queria admitir?
      Ele saiu para o estbulo. Dali a pouco, Briana descia da caminhonete de Dylan e Vance saa da van.
      Vance colocou as mos nos ombros dos filhos e os trs se dirigiram ao jardim.
      Briana foi ao estbulo.
      - Parece bem slido - disse ela, referindo-se  construo e fungando.
      - At que enfim est pronto - falou Logan. - Voc est bem?
      Os olhos deles se encontraram. Ela fungou de novo.
      - Preciso lhe dizer uma coisa - continuou Briana.
      Logan cruzou os braos. Ele perdera muita coisa na vida. A me, Jake, duas esposas, muitos sonhos. Se Briana estivesse recuando, dissesse que no queria se 
casar com ele, seria pior do que todas aquelas coisas juntas.
      Nada teria importncia sem Briana, sem Alec e Josh. At mesmo sem Wanda.
      - Eu... - Ela se deteve, umedeceu os lbios. No estava usando maquiagem e, mesmo assim, parecia um quadro de Botticelli. - Acho que voc deveria saber que...
      - Briana, voc est me deixando nervoso.
      - Eu amo voc - falou ela, fulminante. O universo inteiro pareceu parar.
      - O qu?!
      O rosto dela ficou todo vermelho.
      - Sei que parece loucura, mas...
      Logan se aproximara dela, lhe pegara os braos e a estava girando num arrebatamento de alegria. E ento a beijou. E que beijo!
      Briana estava quase sufocada quando ele finalmente permitiu que ela respirasse. - Voc... Voc me...
      - Eu amo voc, Briana Grant - falou Logan. Ela abriu um sorriso radiante.
      Uma pequena figura surgiu  entrada do estbulo, depois outra.
      - Voc e Logan vo casar? - perguntou Alec.
      - Se vocs concordarem - disse Logan, rezando para que eles dissessem que sim. Se os garotos no gostassem da idia, ela no teria chance de vingar.
      - Voc vai ser nosso pai? - perguntou Josh cautelosamente.
      - Vocs j tm um pai - respondeu Logan. - Vou ser o padrasto de vocs.
      Silncio.
      Logan esperava. Briana esperava.
      - Oba! - gritou Alec de repente, dando um soco no ar.
      - ! - ecoou Josh.
      - Acho que eles aprovam - falou Briana.
      Logan enlaou a cintura de Briana e eles seguiram os garotos para fora do estbulo.
      Vance estava escorado na cerca do curral, observando os cavalos.
      Depois de trocar olhares com Briana, Logan se aproximou de Vance, enquanto ela prosseguia com os garotos para dentro de casa.
      - Voc tem timos cavalos - disse Vance, sem olhar para Logan.
      - Obrigado. Amanh ou depois, chegam cabeas de gado. Estou comeando a criar.
      Vance fez que sim com a cabea, ainda olhando para os cavalos.
      - Briana  uma boa mulher - disse ele. - Se voc a fizer sofrer, vai ter que se ver comigo, caubi.
      - Eu ia lhe dizer a mesma coisa - retrucou Logan. - Voc est pensando em ir embora?
      - Estava - respondeu Vance. - Mas acho que no consigo abandonar meus filhos. Tenho um emprego, o trailer e minha velha van, ento acho que vou ficar por aqui.
      - Isso  bom.
      - Bom? - estranhou Vance.
      - Josh e Alec so crianas timas - respondeu Logan. - Se fossem meus, tambm no os abandonaria.
      - Diga aos garotos que volto outro dia, sim?
      - Vou dizer.
      Vance se virou e caminhou na direo da van. E Logan se dirigiu para a casa, onde Briana o esperava e os garotos provavelmente estavam jogando no computador.
      Ela estava  mesa da cozinha, tomando caf e olhando as fotos dos Creed, sorrindo aqui e ali.
      - Voc era um garotinho muito lindo - disse ela ao v-lo.
      - Tenho algo para voc - falou Logan. Ele foi at o armrio, abriu uma gaveta, tirou uma pasta e entregou a Briana.
      Ela abriu e ficou espantada.
      - As fotos! - exclamou Briana, olhando as fotografias que Logan digitalizara e imprimira.
      - As originais ainda esto em pssimo estado, mas fiz o que pude.
      Ela fechou a pasta e se aninhou no colo dele. Ficaram assim at que foram interrompidos por Alec.
      - Josh! - gritou ele, encantado, depois de entrar na cozinha. - Mame est sentada no colo de Logan!
      - Epa! - berrou Josh da sala de estar.
      Briana gargalhou e Logan sentiu as vibraes do riso dela no fundo da alma.
      s onze da noite, os garotos j tinham adormecido havia muito tempo.
      E as venerveis paredes do quarto principal absorveram sons de prazer irrefrevel, gemidos de um homem e de uma mulher que se amavam, e sabiam disso.
      
      
      
      
      
    EPLOGO
      
      
      
      
      Trs dias depois...
      Para falar a verdade, Briana estava um tanto intimidada.
      A casa de Logan em Las Vegas poderia abrigar todas as lojas de um shopping center e ainda sobraria espao. As janelas que iam do cho ao teto na sala de estar 
davam vista para o brilhante espetculo de luzes na noite da cidade, pontuado por cactos colossais e formaes rochosas que traziam a assinatura de Deus.
      Os garotos estavam em casa, com Vance. Kristy prometera vigi-los e ligar, caso alguma coisa acontecesse. E Josh, como sempre, estava com o celular.
      Logan entregou uma taa de champanhe para Briana. Ele usara black-tie no casamento, numa capela local, mas substitura o traje por jeans e camisa esporte depois 
da cerimnia. Briana ainda vestia o vestido de gala, verde-esmeralda, lustroso, escolhido especialmente para a ocasio no dia anterior.
      Briana tocou sua taa na de Logan, examinando o rosto dele atentamente, em busca de sinais de arrependimento. Ele inclinou a cabea e a beijou com leveza e 
vagar.
      - Foi uma pena Dylan no ter podido vir ? falou ela, quando retomou o flego. Aquele mundo, o mundo de Logan, era muito diferente de tudo que conhecia.
      Graas a Deus que voltariam para o Rancho Stillwater Springs na manh seguinte, logo cedo.
      Logan deu uma risada.
      - Tpico de Dylan - murmurou ele. - S vai aparecer quando estiver bem, preparado. A mesma coisa vai acontecer com Tyler.
      - Eu amo voc - disse ela. - J lhe disse isso?
      - Uma ou duas vezes - confirmou Logan. Em seguida, tirou a taa de champanhe da mo dela. - Eu respondi dizendo que a amava tambm?
      Briana enlaou o pescoo dele com os braos.
      - J faz duas horas que a gente fez amor, sr. Creed - falou ela.
      Logan desabotoou as costas do vestido de Briana. Ela tirou a sandlia, livrou-o da camisa.
      - Duas horas? Que negligncia de minha parte - brincou Logan.
      Ele inclinou a cabea e abocanhou o mamilo direito de Briana.
      Ela arquejou. Sempre que Logan a tocava, era algo novo, surpreendente.
      Lentamente, Logan desfrutou dos seios, primeiro um, depois o outro.
      Toda Las Vegas, todo o mundo parecia cintilar e pulsar abaixo deles.
      E Logan se ajoelhou.
      Briana gemeu, sabendo o que estava por vir. Ele retirou a calcinha dela e a jogou de lado.
      - Logan...
      - Psss...
      Ele a acariciou com a lngua. Briana soltou um grito do fundo da garganta. Logan j fizera aquilo antes, mas dessa vez foi diferente, mais intenso. Talvez 
porque estivessem casados. Ela gemeu e se inclinou para trs, as mo fortes dele agarrando-a por trs, puxando-a para si.
      Ele continuou at que ela se contorcesse e tremesse ao toque de sua lngua, at que as pernas dela ameaassem fraquejar.
      Quando as pernas dela no agentaram mais, Logan a deitou no suntuoso tapete do cho, e ela sentiu a nudez mida dele sobre a pele.
      Logan a penetrou com um nico movimento, e todas as luzes da cidade se espalharam ao redor deles, misturadas em um claro inebriante.
      O cu e a terra trocaram de posio e, no meio do redemoinho, milhes de pequenos fragmentos se fundiram e Briana Creed se sentiu completa, inteira, como nunca 
antes. E, mesmo quando Logan perdeu o controle, ela sabia que ele se transformara tambm, tocado pela mesma alquimia.
      
      
      
      
      
      
      O gado mugia e levantava poeira, deixando a carroceria do caminho e se encaminhando para o pasto recm-cercado. Briana observava, montada no malhado, enquanto 
Logan cavalgava o cavalo cinza. Alec e Josh, sentados nas selas que Logan comprara especialmente para eles, se comportavam bem sobre as montarias.
      Na semana em que ele e Briana voltaram da lua de mel, no receberam notcias de Dylan, nem de Tyler.
      A casa estava sendo reformada e os meninos tinham camas de verdade agora. Ocupavam o antigo quarto de Dylan, mas a vida no rancho parecia uma constante aventura. 
Alec e Josh adoravam, e Logan nunca fora mais feliz na vida. Nunca imaginara ser capaz de experimentar o que Briana o fazia sentir.
      Com ela, at as mais simples tarefas do cotidiano, como cozinhar ou lavar as roupas, pareciam sagradas.
      Diariamente ele sentia que as coisas no podiam ser melhores.
      E, no entanto, elas melhoravam a cada dia.
      Vance resolvera se estabelecer em Stillwater Springs, e os garotos ficaram cautelosamente contentes com isso. Como todas as crianas, eles se prendiam ao momento, 
vivendo intensamente o presente.
      Jim Cavalo Selvagem e Mike Danvers estavam em plena campanha. A eleio seria dali a algumas semanas. O xerife Book e a mulher j estavam preparados para fazer 
um cruzeiro para ao Alasca, assim que ele passasse o cargo.
      - Tenho que ir fazer uma coisa - disse Logan para Briana. Ela deixara o trabalho no cassino, para alvio de Logan, e estava planejando ter filhos pelos prximos 
anos, talvez fazer um curso tcnico a distncia quando tivesse tempo. Enquanto isso, prometera ajudar na campanha de Jim, embora j houvesse dito que no aceitaria 
o emprego que ele lhe oferecera.
      - Vejo voc em casa - falou ela. - Preciso ler. O grupo de leitura vai se reunir na biblioteca hoje  noite.
      Logan seguiu na direo do cemitrio. Acocorando-se diante do tmulo do pai, falou:
      - Vou fazer o sobrenome Creed ter importncia de novo, velho. Vou limpar seu nome. Eu o perdoo.
      Ele se deteve, inclinou a cabea para trs, fitou o belo cu de Montana, mais azul que o azul, mais amplo que a amplido.
      - E a verdade, pai - continuou ele - ,  que, apesar de tudo, amei voc.
      A brisa danava sobre a relva e, em algum lugar, um pssaro cantava uma msica linda, solitria e cortante.
      - H uma nova sra. Creed agora - falou Logan para Jake. - E, daqui a muitos anos, quando me enterrarem nesse lugar tambm, ela vai estar aqui, vestida de preto, 
com a aliana que lhe dei ainda no dedo. E meus filhos, homens e mulheres ento, talvez j com filhos tambm, no vo ter dvida sobre se eu os amei. Dvida que 
Dylan, Tyler e eu tivemos a seu respeito. Ele se levantou.
      - Belo discurso - falou algum de voz arrastada, por trs dele.
      Surpreso, Logan se virou.
      E viu Tyler. Seu irmo mais novo.
      Ele estava alto, com mais de l,80m. Tinha cabelo preto, como o de Logan, olhos de um azul selvagem, temperados pelo temperamento dos Creed.
      Tyler era louco, tanto podia estar pensando em dar um soco em Logan como no, era impossvel dizer.
      Logan sorriu. Passou a mo pelo cabelo sujo dele.
      Tyler estava de volta.
      Por ora, era s o que importava.
      



Fim

PR
Estrelas do Romance 1 - Os Irmos Creed: LOGAN - Linda Lael Miller

 3        3
